
No passado dia 28 de junho de 2025, Muhammad Yunus, economista bengali e Prémio Nobel da Paz, completou 85 anos de vida. Esta data simbólica é uma ocasião privilegiada para revisitar o percurso deste homem que ousou sonhar com uma economia que incluísse os excluídos — uma economia que servisse os pobres e não o contrário.
Conhecido mundialmente como o pai do microcrédito, Yunus não se limitou a teorizar sobre pobreza e desenvolvimento: colocou as mãos na realidade concreta das aldeias do Bangladesh, escutou as necessidades das populações marginalizadas e desenhou, a partir daí, uma solução simples, transformadora e profundamente humana: empréstimos de pequena escala, sem garantias, destinados a pessoas pobres, sobretudo mulheres, com o objectivo de gerar autonomia económica e dignidade.
Linha do tempo: de Chittagong para o mundo
1940–1971 | Formação e docência
Muhammad Yunus nasceu a 28 de junho de 1940, em Chittagong, então parte da Índia britânica (actual Bangladesh). Licenciou-se e fez o mestrado em Economia pela Universidade de Daca, antes de prosseguir estudos nos Estados Unidos, com uma bolsa Fulbright, obtendo o doutoramento na Vanderbilt University, em 1969. Lecionou na Middle Tennessee State University e, mais tarde, regressou ao seu país natal após a independência de Bangladesh em 1971, onde assumiu funções docentes na Universidade de Chittagong.
1974–1983 | A génese do microcrédito
Durante a grave crise de fome que assolou o Bangladesh em 1974, Yunus ficou profundamente marcado pela situação de milhares de pessoas a morrerem de fome apesar de viverem perto de instituições académicas e políticas. Foi nesse contexto que conheceu um grupo de mulheres da aldeia de Jobra, que, sem acesso a crédito, dependiam de agiotas para sustentar os seus pequenos negócios. Com apenas 27 dólares do seu próprio bolso, Yunus emprestou dinheiro a 42 mulheres. Todas pagaram. Mais do que reembolsar o montante, restauraram a esperança.
Este gesto deu origem a uma experiência piloto que evoluiria até à criação formal do Grameen Bank (“Banco das Aldeias”) em 1983, com o apoio do governo do Bangladesh.
1983–2006 | Crescimento e reconhecimento global
O modelo do Grameen Bank espalhou-se pelo país, com uma taxa de reembolso superior a 98%. O foco era claro: capacitar os pobres, em especial as mulheres, para serem protagonistas da sua própria transformação social e económica. A fórmula era inovadora: empréstimos sem garantias materiais, com base na confiança e em grupos de solidariedade locais.
Em 2006, Muhammad Yunus e o Grameen Bank foram distinguidos com o Prémio Nobel da Paz, “pelos seus esforços para criar desenvolvimento económico e social a partir da base”.
2024–2025 | Regresso político
Em 2024, o Bangladesh atravessava uma grave crise política e social, com protestos generalizados e repressão sobre a oposição. Em agosto de 2024, Muhammad Yunus foi nomeado Chefe do Governo Interino do país, com a missão de conduzir o Bangladesh a eleições livres e restaurar a estabilidade democrática. Apesar da idade avançada, aceitou o desafio, formando um governo composto por figuras independentes e representantes da sociedade civil.
Em maio de 2025, manifestou a intenção de renunciar devido às dificuldades de articulação entre forças políticas rivais, mas acabou por manter-se no cargo até à convocação do processo eleitoral.
Uma nota pessoal
Foi apenas em 2024, em contexto académico, que tomei verdadeiro contacto com o conceito de microcrédito. A simplicidade da ideia, conjugada com a sua eficácia social, tocou-me profundamente. Num mundo dominado por sistemas financeiros frios, centralizados e excludentes, Yunus apresenta uma alternativa que devolve às comunidades a confiança, a iniciativa e o protagonismo.
Desde então, tenho procurado aprofundar o conhecimento sobre este modelo económico e sobre a figura de Muhammad Yunus, convencido de que o seu testemunho é exemplar para quantos, como eu, acreditam que a economia deve ser instrumento de justiça social e a solidariedade uma força estruturante das políticas públicas.
Escrevo estas linhas precisamente por ocasião do seu 85.º aniversário, celebrando a vida de um homem que ousou acreditar que o combate à pobreza podia — e devia — ser feito de forma ética, sustentável e participativa.
Um modelo com impacto global
Hoje, o modelo do microcrédito está presente em mais de 100 países e inspirou centenas de iniciativas de desenvolvimento local, inclusive em Portugal, onde organizações como a Associação Nacional de Direito ao Crédito (ANDC) têm aplicado esta metodologia junto de pequenos empreendedores.
Mais do que uma técnica financeira, o microcrédito é uma resposta integral à pobreza: promove a inclusão, valoriza as competências, respeita a dignidade e gera laços comunitários. É, por isso, um modelo que ressoa profundamente com a Doutrina Social da Igreja, que recorda:
“A finalidade da economia não é simplesmente produzir bens, mas o bem comum.”
(Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n.º 331)
Uma economia ao serviço da pessoa
Muhammad Yunus não é cristão, mas o seu percurso pode e deve ser lido à luz do Evangelho:
- Levou a sério o clamor dos pobres,
- Construiu caminhos de paz através da justiça económica,
- Devolveu dignidade e voz a milhões de pessoas esquecidas pelos sistemas convencionais.
Num tempo em que a exclusão financeira continua a afetar migrantes, jovens, trabalhadores precários e famílias endividadas, o microcrédito continua a ser uma ferramenta de transformação. Mas é preciso ir além: criar uma cultura de fraternidade económica, onde o risco seja partilhado, o lucro seja um meio e o centro seja sempre a pessoa humana.
Como nos disse o Papa Francisco:
“Os pobres são o tesouro da Igreja. Não podem ser olhados como uma atividade caritativa de fim de semana.”
(Homilia, III Dia Mundial dos Pobres, 2019)
Muhammad Yunus é um dos grandes servidores do bem comum do nosso tempo. O seu percurso desafia-nos a pensar a economia como instrumento de comunhão, a política como missão de serviço, e a vida como oportunidade de fazer o bem com criatividade, ousadia e compaixão.
No Serviens, acreditamos que figuras como Yunus são testemunhos proféticos que atravessam fronteiras religiosas, ideológicas e geográficas. São homens e mulheres que ardem no silêncio do bem, servindo o próximo com inteligência e fé na humanidade.
RRP.
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