
Editorial
O texto de Miguel Dantas que hoje publicamos toca num ponto essencial do nosso tempo: a forma como o papado e o Vaticano passaram a ocupar, nas últimas décadas, um lugar de crescente relevância moral, pública e até geopolítica no mundo.
Mais do que uma análise técnica, o autor propõe uma reflexão pessoal e direta sobre uma evidência que muitos reconhecem: a voz do Papa continua a ter alcance global, capacidade de interpelação e força simbólica, mesmo num contexto marcado pela fragmentação, pela desconfiança e pela aceleração mediática.
Ao mesmo tempo, o artigo chama a atenção para um contraste que merece ser pensado com seriedade: enquanto Roma consegue, muitas vezes, projetar uma mensagem de grande unidade e clareza, as Igrejas locais nem sempre revelam a mesma coerência, a mesma qualidade comunicacional ou a mesma capacidade de mobilização.
É justamente nesse ponto que a reflexão de Miguel Dantas se torna pertinente. O seu texto não idealiza a Igreja nem ignora as suas fragilidades. Pelo contrário, reconhece feridas, incoerências e limites, mas sublinha também que a autoridade moral do papado contemporâneo se constrói, em larga medida, na fidelidade a uma mensagem simples e permanentemente atual: verdade, paz, justiça, dignidade humana e fraternidade.
Ao publicar este artigo, o Serviens convida os seus leitores não apenas a olhar para Roma, mas também a pensar no que a Igreja, em cada realidade local, é chamada a aprender, a purificar e a testemunhar.
O meu objetivo não é interpretar exaustivamente as funções e intervenções do Papa, nem explicar em profundidade o esforço diplomático do Vaticano no mundo atual. Quero apenas deixar uma constatação simples: muita coisa mudou na forma como a Igreja se apresenta e intervém no espaço público.
Desde que tenho memória, acompanhei São João Paulo II, Bento XVI, Francisco e agora Leão XIV. Dos papas anteriores conheço apenas testemunhos e referências históricas. Ainda assim, parece-me evidente que, nas últimas décadas, a figura do Papa adquiriu uma projeção global singular.
Numa era de desenvolvimento digital acelerado, as palavras e os documentos passaram a ter uma rapidez e um alcance quase incontroláveis. Se o Papa aparece à janela e faz um discurso de cinco minutos, esse momento é repetido durante horas nos vários canais de informação, em áudio, vídeo e texto, com relevo mediático global durante pelo menos dois dias. Se, além disso, a sua intervenção assume um tom profético, denunciador ou até controverso, o impacto multiplica-se e gera imediatamente comentários, análises e interpretações.
Não me parece injusto afirmar que São João Paulo II teve um papel decisivo nesta nova configuração da presença pública do papado. Os pontificados seguintes mantiveram, cada um à sua maneira, essa fórmula: usar esses momentos para falar das preocupações do mundo e não apenas das questões internas da Igreja, rompendo com uma imagem fechada nas paredes do Vaticano.
Hoje, a Igreja local e as suas estruturas de comunicação vivem muitas vezes sob uma tensão expositiva permanente: ou são notícia porque denunciam, ou são notícia porque são acusadas. A falta de sensibilidade comunicacional de alguns bispos revela, por vezes, um certo amadorismo organizacional ao nível da hierarquia local. Ao nível da Cúria Romana, pelo contrário, percebe-se um trabalho mais profissional e mais consistente de gestão da comunicação.
Se quisermos recordar o velho tom anticlerical das sociedades, diria que ele hoje se concentra mais em planos locais do que na figura do Papa enquanto rosto da Igreja universal. Nas últimas décadas, o papado conseguiu, em larga medida, não oferecer matéria imediata a um discurso anticlerical centrado na sua pessoa. Pelo contrário, as palavras do Papa são frequentemente citadas para denunciar injustiças em várias partes do mundo, não em defesa da instituição enquanto tal, mas em defesa da dignidade da pessoa humana, independentemente da raça, da região ou da religião.
Isso tornou o Papa também num ator político. Não num ator partidário, mas numa figura cuja palavra pode desencadear efeitos concretos, mobilizar consciências e influenciar debates públicos.
Podemos, evidentemente, fazer um exercício anticlerical e encontrar factos, testemunhos e documentos que alimentem essa posição: abusos sexuais na Igreja, corrupção económica e social, abuso de poder e de autoridade, tráfico de influências, lógicas de lobby e outras formas de degradação moral e institucional.
Durante muito tempo, muitas destas acusações reais foram assumidas em silêncio, por medo de provocar desunião, descrença ou abandono dos fiéis. Isso mudou. Hoje, pelo menos ao nível do papado, existe maior disponibilidade para denunciar, convocar encontro e provocar discussão. E isso tem produzido, em muitos fiéis, um efeito inesperado: em vez de afastamento, gera maior confiança. As pessoas preferem uma voz que reconhece as feridas a uma voz que as esconde.
Sabem o que o Papa pensa e encontram nisso balizas de segurança para se identificarem com ele, com a Igreja e, em última análise, com a sua mensagem central de justiça e paz.
Se eu quiser ser intelectualmente honesto e persistir numa visão anticlerical do papado, tenho de recuar várias décadas para encontrar matéria comparável. O mesmo, infelizmente, nem sempre se pode dizer ao nível local.
O melhor exemplo desta distância entre o Vaticano e muitas Igrejas locais encontra-se nos momentos de encontro. Quando o Papa aparece nas Jornadas Mundiais da Juventude, esses momentos tornam-se únicos e dificilmente descrevíveis. A sua figura representa, para muitos, uma esperança concreta: a sensação de que ainda vale a pena acreditar que o mundo pode mudar. Até quem não é praticante se sente, por vezes, tocado por essa presença.
Mas as jornadas terminam, e muitas igrejas voltam a ficar vazias, sem visão de curto e de longo prazo, sem projeto mobilizador, sem continuidade pastoral capaz de prolongar o que ali se experimentou.
Como conseguiu o Papa — e, em certa medida, o Vaticano — conservar esta força? Creio que o grande segredo está na unidade e na fidelidade da mensagem. No fundo, trata-se sempre de um regresso ao essencial do Evangelho: amai-vos uns aos outros, procurai a paz e vivei na verdade.
Se alguém reunisse todos os breves discursos dos Papas ao longo das últimas décadas, provavelmente encontraria este fio condutor: amor, paz, verdade, justiça, dignidade humana. É essa fidelidade ao essencial que dá solidez à comunicação do papado. E, por mais dolorosos que sejam os acontecimentos que revelam as fragilidades da Igreja, ela precisa também de ser capaz de se denunciar a si própria. Essa humildade talvez seja um dos segredos da autoridade moral do papado no mundo de hoje.
Acredito que este possa ser também um desafio geracional. Se as Igrejas locais reaprenderem esta fidelidade à mensagem essencial, talvez muitas pessoas voltem a encontrar nelas referências de identidade, pertença e esperança.
Termino com uma nota pessoal. Sempre que vejo o Papa — na televisão, no Facebook, no YouTube, no TikTok ou no Instagram — paro por um instante. Penso: “deixa ver”. E há ali qualquer coisa que faz clique. É impressionante como a sua presença ainda consegue suspender-nos por um momento e obrigar-nos a escutar.
Miguel Dantas
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