
Hoje é Sexta-Feira Santa.
Há dias em que as palavras parecem chegar sempre depois. Talvez hoje seja um deles. Olhamos para o mundo, para a sucessão de imagens de guerra, para o sofrimento que continua a rasgar o Médio Oriente, para a fragilidade dos equilíbrios internacionais, e percebemos como tudo se tornou excessivamente ruidoso. Fala-se muito. Explica-se muito. Justifica-se muito. E, no entanto, permanece uma impotência funda diante da dor humana.
A Sexta-Feira Santa interrompe esse ruído.
Não para nos afastar do mundo, mas para nos obrigar a olhá-lo de outra maneira. A cruz de Cristo não resolve conflitos internacionais, não substitui a diplomacia, não oferece fórmulas para a violência dos homens. Mas coloca diante de nós uma pergunta mais funda, mais incómoda, mais decisiva: o que acontece ao ser humano quando deixa de reconhecer o sofrimento do outro?
Na Paixão, quase tudo nos soa estranhamente próximo. O cálculo político. A cobardia. A multidão que se move sem verdadeiro discernimento. A dificuldade em defender o inocente quando isso tem um preço. Nada disto pertence apenas ao passado. Talvez por isso, ano após ano, a Sexta-Feira Santa continue a ser tão atual. Não como repetição devota de uma cena antiga, mas como luz crua lançada sobre o coração humano.
Hoje, mais do que muitos discursos, impressiona-me o silêncio de Cristo.
Num tempo de reacções instantâneas, de acusações apressadas, de violência que se repete e se devolve, Cristo não entra nessa lógica. Não porque o mal seja pequeno. Não porque a injustiça possa ser relativizada. Mas porque há uma forma de atravessar a noite sem se deixar habitar por ela.
Talvez seja isso que torna a cruz tão desinstaladora. Ela não é um símbolo de evasão. Também não é uma estética piedosa do sofrimento. É o lugar onde Deus aceita permanecer junto da ferida humana até ao fim.
E isso muda tudo.
Muda, desde logo, o olhar. Obriga-nos a resistir à habituação. A não aceitar a dor dos povos como pano de fundo permanente. A não transformar os mortos em números, os deslocados em estatísticas, a paz numa palavra gasta de tanto ser repetida sem consequência.
A fragilidade da cooperação internacional, de que tanto se fala, não é apenas um problema de instituições. É também o sinal de algo mais fundo: a dificuldade em sustentar uma verdadeira consciência de humanidade comum. As instituições falham, muitas vezes, porque os homens falham antes no modo como se reconhecem uns aos outros.
Por isso, a mensagem da Sexta-Feira Santa talvez não esteja numa conclusão grandiosa, mas numa depuração do olhar.
Diante da cruz, não somos convidados a falar mais alto. Somos convidados a ver melhor.
Ver melhor a dor.
Ver melhor o inocente.
Ver melhor o limite do poder.
Ver melhor aquilo que permanece humano mesmo no meio da brutalidade.
Hoje, o cristianismo não oferece ao mundo um triunfo. Oferece-lhe um Crucificado.
E isso pode parecer pouco. Pode parecer desarmado perante a maquinaria da guerra, perante a lentidão das instituições, perante a dureza da história. Mas talvez seja precisamente aqui que começa uma esperança mais séria: não na ilusão de que o mal desaparece depressa, mas na certeza de que nem tudo se rende à lógica da força.
Na Sexta-Feira Santa, a Igreja não celebra uma vitória visível. Permanece junto da cruz.
Talvez também nós precisemos, hoje, de reaprender essa fidelidade discreta: estar junto da dor sem a explorar, não fugir ao sofrimento do mundo, não ceder à indiferença, não desistir do humano.
Num tempo saturado de opinião, a cruz continua a ser uma pausa.
Uma pausa para pensar.
Uma pausa para não endurecer.
Uma pausa para recordar que a salvação do mundo não virá apenas da força, da estratégia ou da eficiência, mas também da capacidade de permanecer humano quando tudo à volta parece perder essa medida.
Hoje é Sexta-Feira Santa.
Talvez, por agora, baste não desviar o olhar.
RRP.
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Obrigada
Uma Santa Páscoa com Jesus Ressuscitado