FAZER O BEM SEM PERGUNTAR A QUEM

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A vida discreta de Monsenhor Joaquim Carreira e a memória de quem abriu as portas do Pontifício Colégio Português aos perseguidores da Segunda Guerra Mundial

O padre Joaquim Carreira, antigo reitor do Colégio Português em Roma. Foto: DR

Como nasceu este artigo

A História sempre me fascinou. Não apenas pelos grandes acontecimentos ou pelas figuras que ocupam as páginas centrais dos livros, mas também pelas vidas que permanecem nas margens: homens e mulheres cuja importância não se mede pela notoriedade que alcançaram, mas pelo que fizeram quando ninguém parecia estar a olhar.

Foi essa curiosidade que, em diferentes visitas ao Yad Vashem, em Jerusalém, me levou a deter o olhar nos nomes portugueses inscritos entre os Justos entre as Nações. Aristides de Sousa Mendes é justamente conhecido. O nome de Monsenhor Joaquim Carreira surgia-me, porém, com outra discrição. Sabia que fora sacerdote da Diocese de Leiria, que vivera longamente em Roma e que, durante a ocupação alemã da cidade, acolhera perseguidos no Pontifício Colégio Português. Sabia pouco mais.

A vontade de compreender o homem por detrás desses factos levou-me, na tarde de 12 de abril de 2025, à Casa Provincial dos Missionários do Espírito Santo, na Rua de Santo Amaro à Estrela, em Lisboa. À minha espera estava o padre João Mónico, missionário espiritano, sobrinho de Joaquim Carreira e autor da biografia que, em 2008, reuniu grande parte da documentação e da memória familiar sobre o tio.

Com o Padre João Mónico, por ocasião da entrevista que está na origem deste artigo.

A conversa prolongou-se por mais de uma hora. Falámos da família, da infância que o sobrinho conheceu sobretudo pelas histórias da mãe e das tias, da vocação, do professor, do aviador, de Roma, da guerra, dos refugiados e, talvez acima de tudo, da descoberta tardia que o próprio João Mónico fez da dimensão humana e histórica daquele homem.

«Só depois da morte dele é que percebi verdadeiramente quem tinha sido.»
Padre João Mónico

Esta frase tornou-se, para mim, uma chave de leitura. O homem que João Mónico conhecera como tio — alegre, exigente, curioso, disponível, apaixonado por Roma e por viagens — era o mesmo que outros, décadas depois, reconheceriam como alguém que arriscara para proteger vidas. Mas ele próprio quase nunca falara disso.

No final da entrevista, o padre João Mónico levantou-se e regressou com um exemplar da biografia Monsenhor Joaquim Carreira – Apóstolo do Bem, na Guerra e na Paz. O livro encontrava-se esgotado. Colocou-mo nas mãos para que o levasse comigo e o pudesse ler. Esse gesto deu continuidade à conversa.

Depois vieram outras leituras: a investigação de António Marujo, o relatório do próprio Joaquim Carreira sobre o ano letivo de 1943-1944, testemunhos de antigos refugiados e documentação relativa ao reconhecimento pelo Yad Vashem. A investigação permitiu confirmar datas, corrigir impressões e compreender melhor o contexto. Mas não alterou o ponto de partida: a voz do padre João Mónico.

O meu propósito não é voltar a contar, como se fosse inédita, uma história que outros já investigaram e relataram de forma admirável. É contribuir para que ela permaneça viva. Escrevo a partir de uma entrevista e de um encontro; procuro, depois, confrontar essa memória com as fontes disponíveis. Não pretendo substituir a biografia, a investigação jornalística ou o trabalho dos arquivos. Quero juntar-me a esse esforço de memória.

Escrevo não porque esta história não tenha sido contada, mas porque histórias como esta precisam de continuar a ser contadas.

E, ao ouvi-la pela voz do sobrinho, compreendi que ela não devia começar na guerra, no Holocausto ou no reconhecimento que chegaria décadas mais tarde. Devia começar no homem.

I — Antes da guerra: o homem

«Onde ele estivesse, havia alegria»

Quando pedi ao padre João Mónico que me falasse do tio, esperava que começasse pelos acontecimentos de Roma. Não começou. A primeira característica que escolheu foi a alegria.

«Onde ele estivesse, havia alegria.»
Padre João Mónico

Logo depois surgiu uma expressão da Caranguejeira: era um «homem do pífaro». João Mónico explicou-a como se recuperasse uma linguagem familiar: alguém que gostava de juntar pessoas, criar ambiente, fazer festa, comunicar. A imagem é importante porque impede que Joaquim Carreira seja reduzido ao retrato solene que a palavra «herói» tantas vezes produz.

O sobrinho descreveu-o como rigoroso e exigente, mas simultaneamente próximo, afável e curioso. Gostava de conversar, de ensinar, de conduzir, de mostrar lugares. Quando recebia familiares ou amigos em Roma, uma deslocação podia transformar-se numa aula improvisada de História. Assis, Monte Cassino, Florença, a Sicília ou as próprias ruas de Roma eram ocasiões para explicar, relacionar e contar.

«Um santo triste é um triste santo.»
Frase que João Mónico recorda ouvir ao tio

A frase, repetida na memória familiar, não deve ser transformada numa fórmula para explicar toda a sua vida. Serve, contudo, para perceber uma disposição de fundo. A alegria que João Mónico recorda reaparece, com outras palavras, nos testemunhos de pessoas que conviveram com Joaquim Carreira em Roma. Antes de ser recordado pela coragem, foi recordado pela maneira como recebia e tratava os outros.

Souto de Cima

Joaquim Carreira nasceu a 8 de setembro de 1908, em Souto de Cima, na freguesia da Caranguejeira, concelho de Leiria. A família vivia ligada ao trabalho agrícola. Era o único rapaz entre cinco irmãos e tinha dez anos quando perdeu a mãe, vítima da pneumónica de 1918.

João Mónico faz questão de distinguir aquilo que testemunhou daquilo que recebeu pela memória familiar. Não conheceu o Joaquim criança; ouviu falar dele à mãe e às tias. Essa honestidade acompanha toda a entrevista e é uma das razões pelas quais o seu testemunho se torna particularmente valioso.

O pai resistiu à possibilidade de o filho entrar no Seminário de Leiria. Precisava dele no trabalho da casa e dos campos. Segundo a tradição familiar transmitida ao sobrinho, chegou a pedir que Joaquim permanecesse junto da família. Acabaria por seguir para o seminário e seria ordenado sacerdote em 1931.

Há uma tentação fácil de ler esta infância à luz do que aconteceria mais tarde, como se tudo conduzisse inevitavelmente a Roma. A entrevista aconselha prudência. João Mónico não constrói uma infância profética. Recorda, antes, uma família, uma perda precoce, uma vocação e um jovem que começou a abrir o seu caminho.

Educação, ciência e aviação

Depois da ordenação, Joaquim Carreira ensinou no Seminário de Leiria. A biografia e os testemunhos de antigos alunos mostram um professor interessado por Filosofia, Matemática e Física, responsável também pela criação e dinamização de um laboratório de Física e Química. A curiosidade científica não era periférica na sua personalidade.

Em 1940, essa curiosidade ganhou uma expressão que ainda hoje surpreende: frequentou o Aero Clube de Leiria e obteve formação como piloto. A imprensa e a memória diocesana conservaram a imagem do «padre aviador». Questionado sobre uma eventual incompatibilidade entre sacerdócio e aviação, respondeu em defesa da relação entre a Igreja e a ciência.

João Mónico sorriu ao recordar esse traço. O tio gostava de conduzir — automóveis e aviões — e continuaria a voar em Itália. Mais do que uma excentricidade biográfica, a aviação ajuda a perceber um homem aberto à técnica e ao seu tempo, pouco inclinado a opor fé, conhecimento e modernidade.

Reportagem sobre o “padre que se fez aviador”, publicada em O Século Ilustrado e reproduzida n’A República de 3 de Outubro de 1940

II — Roma aproxima-se da guerra

Em maio de 1940, Joaquim Carreira regressou a Roma por determinação do bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva. A Europa já estava em guerra. Pouco depois seria vice-reitor e, depois, reitor do Pontifício Colégio Português, então instalado no Palazzo Alberini, na Via Banco di Santo Spirito, a curta distância do Vaticano.

O Colégio existia para acolher sacerdotes portugueses enviados a Roma para estudos superiores. O ritmo da casa era o de uma comunidade académica e sacerdotal: oração, aulas, estudo, refeições, vida comum. Nos primeiros anos, apesar da entrada da Itália na guerra em junho de 1940, Roma conservou por algum tempo uma aparência de normalidade.

O edifício do colégio ficava na via Banco di Santo Spirito, no palacete Alberini-Senni, com vista para o Castelo Sant’Angelo. ©Foto do arquivo do Colégio Português em Roma

Essa normalidade foi-se desfazendo. Em julho de 1943 caiu Mussolini. Em 8 de setembro foi anunciado o armistício italiano com os Aliados. Nos dias seguintes, as forças alemãs ocuparam Roma. A cidade permaneceria sob ocupação até 4 de junho de 1944.

A mudança não foi apenas política ou militar. A perseguição tornou-se uma realidade quotidiana. Judeus, resistentes, militares italianos, opositores do fascismo e pessoas procuradas pelas autoridades alemãs passaram a procurar lugares onde pudessem desaparecer. Em outubro de 1943, a rusga ao gueto de Roma mostrou com brutalidade o perigo em que se encontrava a população judaica.

Foi neste contexto que a função do Colégio Português se alterou. Continuava a ser uma casa de formação, mas passou também a acolher quem procurava proteção. A documentação conservada e o relatório escrito por Joaquim Carreira depois da libertação permitem seguir essa transformação com uma sobriedade quase desconcertante.

«Concedi asilo e hospitalidade no colégio a pessoas que eram perseguidas na base de leis injustas e desumanas.»
Joaquim Carreira, relatório do Pontifício Colégio Português, 1943-1944

A formulação é importante. Joaquim Carreira não descreve a decisão como aventura pessoal. Fala de hospitalidade e de leis injustas. Noutras passagens, associa esse acolhimento à caridade cristã e à prática de outras comunidades religiosas de Roma. A sua linguagem é moral antes de ser heroica.

É também aqui que a entrevista com João Mónico ganha outra espessura. O sobrinho conheceu durante anos um homem que raramente falava do que fizera. Só depois, ao ler os documentos e reunir testemunhos, percebeu que aquela reserva escondia uma história muito maior do que as referências ocasionais que ouvira em família.

Dia do Colégio Português na Embaixada de Portugal. Joaquim Carreira é o terceiro a contar da direita. ©Foto do arquivo do Colégio Português

III — Quando bateram à porta

Não eram todos iguais

Uma das simplificações que importa evitar é apresentar o Pontifício Colégio Português apenas como esconderijo de judeus. O reconhecimento de Joaquim Carreira pelo Yad Vashem deve-se ao salvamento de judeus perseguidos pelo nazismo, mas a hospitalidade do Colégio foi mais ampla. Entre os acolhidos encontravam-se judeus e não judeus, médicos, professores, militares, funcionários, opositores políticos e pessoas que procuravam escapar à perseguição ou ao recrutamento.

O relatório de 1943-1944 identifica dezenas de pessoas acolhidas. A investigação posterior de António Marujo permitiu reconstruir vários desses percursos e devolver biografia a nomes que, numa lista, poderiam parecer apenas registos administrativos.

Essa distinção é essencial para compreender Joaquim Carreira. Não parece ter organizado a hospitalidade segundo categorias de pertença. A necessidade vinha primeiro. A diversidade daqueles que passaram pelo Colégio é talvez uma das expressões mais concretas dessa disposição.

Elio Cittone

Entre os refugiados estava Elio Cittone, judeu italiano, então com dezasseis anos. Viera de Milão para Roma para fugir à perseguição e encontrou abrigo no Colégio com familiares. Décadas mais tarde, António Marujo conseguiu localizá-lo e recolher o seu testemunho.

Elio não guardava uma narrativa épica daqueles dias. Recordava rotinas simples: arrumar os quartos de modo a que não parecessem ocupados por tanta gente, caminhar pelos corredores, comer o que havia, esperar. Guardava, contudo, uma certeza: Joaquim Carreira contribuíra para lhe salvar a vida.

Esse testemunho viria a ser decisivo no processo do Yad Vashem. É um daqueles momentos em que a memória individual, aparentemente frágil, se cruza com a documentação e se transforma em prova histórica.

Quando falei com João Mónico, tornou-se evidente que ele próprio vivera um processo semelhante. Durante anos conhecera o tio sem conhecer plenamente aquela parte da sua vida. Depois da morte de Joaquim Carreira, os documentos e os sobreviventes começaram a preencher os silêncios.

Giuseppe Caronìa, Cesare Frugoni e outros

Outros nomes ajudam a perceber a diversidade humana daquela casa. Giuseppe Caronìa, médico e professor universitário, ligado mais tarde à Democracia Cristã italiana, tinha ele próprio protegido perseguidos antes de precisar de se esconder. Cesare Frugoni, médico de grande prestígio, também encontrou proteção no Colégio e conservaria depois da guerra uma relação de gratidão com Joaquim Carreira.

As cartas e testemunhos dos antigos refugiados recorrem a palavras como serenidade, hospitalidade e amizade. Não apagam o medo; mostram antes que, dentro de uma cidade ocupada, a proteção não se limitou a esconder corpos. Procurou preservar uma forma de vida.

É nesse ponto que a memória de João Mónico volta a encontrar a memória dos refugiados. O homem que o sobrinho descreveu como capaz de criar alegria à sua volta aparece, nos testemunhos de guerra, como alguém que tentava fazer de uma casa sobrelotada um lugar habitável.

IV — A vida dentro do Colégio

Esperar sem dar nas vistas

A guerra dos refugiados era, em grande parte, uma guerra de espera. Os dias eram feitos de prudência. Os quartos tinham de parecer normais. Os movimentos eram limitados. Os corredores serviam para caminhar. A biblioteca ajudava a ocupar o tempo. Um rádio permitia acompanhar discretamente as notícias. Alguns seminaristas portugueses ensinavam a língua aos hóspedes italianos.

O objetivo era passar despercebido. Uma denúncia ou uma busca poderia comprometer refugiados, estudantes, sacerdotes e a própria instituição. Testemunhos posteriores referem locais preparados para esconder pessoas e a possibilidade de recorrer aos telhados e a edifícios vizinhos em situações de perigo.

O próprio Joaquim Carreira escreve pouco sobre o risco pessoal. Regista que o Colégio escapou a buscas que atingiram outras casas religiosas. Essa economia de palavras é coerente com aquilo que João Mónico me repetiu na entrevista: o tio não gostava de fazer de si próprio o assunto principal.

Alimentar era também proteger

Se há um tema que ocupa espaço surpreendente no relatório de Joaquim Carreira é a alimentação. Não por trivialidade, mas porque a escassez era uma ameaça diária. Roma sofria dificuldades de abastecimento, os transportes estavam perturbados e os preços subiam.

Era necessário alimentar os residentes habituais e, ao mesmo tempo, dezenas de pessoas que oficialmente não estavam ali. Joaquim Carreira procurava farinha e outros alimentos nos arredores de Roma, recorrendo a contactos com moleiros e fornecedores. A memória diocesana conservou uma frase sua, dita anos depois com humor, segundo a qual o milho cozido em grão chegava a valer por um bom bife.

A frase faz sorrir, mas revela a materialidade da hospitalidade. Salvar alguém não era apenas fechar-lhe uma porta atrás das costas. Era encontrar cama, comida, silêncio, rotina e alguma dignidade durante semanas ou meses.

Também aqui a entrevista ajuda a evitar a monumentalização da personagem. João Mónico falava de um homem prático. Um homem que resolvia. Essa capacidade, aparentemente quotidiana, tornou-se decisiva numa situação extrema.

A questão de Pio XII e das casas religiosas

O acolhimento de perseguidos em instituições católicas de Roma integrou uma realidade mais vasta, hoje amplamente documentada, embora a interpretação do papel pessoal de Pio XII continue a ser objeto de debate historiográfico. Diversos conventos, mosteiros, colégios e casas religiosas abriram portas a judeus e a outros perseguidos. O próprio Joaquim Carreira enquadrou a sua decisão no dever cristão de hospitalidade e no exemplo de outras comunidades.

Para este artigo, não é necessário resolver uma controvérsia histórica que ultrapassa largamente a figura de Joaquim Carreira. Importa, sim, não o isolar artificialmente da rede de solidariedade existente em Roma nem, no sentido inverso, diluir a responsabilidade das decisões concretas que tomou como responsável pelo Colégio Português.

O aviso colocado à porta das instituições religiosas em Roma, em italiano e alemão. ©http://religionline.blogspot.pt/

V — Depois da libertação: regressar à vida

Roma foi libertada pelos Aliados em 4 de junho de 1944. Os refugiados começaram gradualmente a abandonar o Colégio. Alguns regressaram às famílias e às profissões; outros retomaram percursos políticos ou académicos. As relações criadas durante a ocupação, porém, não desapareceram todas com a saída.

Cartas e mensagens posteriores testemunham gratidão e amizade. Para Joaquim Carreira, a guerra não se transformou numa identidade pública. Continuou o seu trabalho e permaneceu em Roma. Foi reitor do Pontifício Colégio Português durante largos anos e, mais tarde, desempenhou funções como conselheiro eclesiástico junto da representação diplomática portuguesa na Santa Sé.

Fixou-se depois na Casa Madonna di Fatima, das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição. Os testemunhos dessa fase voltam a apresentar traços já reconhecíveis: disponibilidade pastoral, gosto por receber portugueses, devoção mariana, interesse pela história e prazer em conduzir e viajar.

Foi durante um período de estudos em Roma que João Mónico conheceu mais de perto esse quotidiano. O tio telefonava-lhe e convidava-o a sair.

«Vamos dar uma volta.»
Recordação do padre João Mónico

Iam a Assis, Monte Cassino, percorriam Roma, por vezes viajavam mais longe. Hoje, o sobrinho olha para essas viagens com uma espécie de espanto retrospetivo. Passavam por lugares carregados de memória da guerra e Joaquim Carreira explicava o que ali acontecera. Falava do lugar. Quase nunca de si.

«Se fosse hoje, fazia-lhe muito mais perguntas.»
Padre João Mónico

Talvez esta seja uma das frases mais humanas de toda a entrevista. Não é apenas o lamento de um investigador por não ter recolhido informação. É o sobrinho que, depois de descobrir a história, percebe que conviveu com alguém que guardava muito mais do que dizia.

João Mónico acrescentou, porém, que talvez não tivesse conseguido muitas respostas. A reserva fazia parte do homem. A expressão que recorda do tio — «O bem está feito» — não precisa de ser repetida a cada episódio. Basta compreendê-la aqui: para Joaquim Carreira, o gesto concluído não exigia publicidade.

Morte e regresso à terra

Monsenhor Joaquim Carreira morreu em Roma, a 7 de dezembro de 1981. Foi sepultado no Cemitério do Campo Verano. Duas décadas mais tarde, os seus restos mortais foram trasladados para Souto de Cima, na Caranguejeira.

João Mónico recordou-me o processo que conduziu a esse regresso. A degradação do jazigo em Roma tornou mais urgente uma vontade que era também familiar: devolver o tio à terra natal. Em 2001, os restos mortais regressaram a Portugal.

Nessa altura, o reconhecimento do Yad Vashem ainda não existia. A trasladação não foi consequência da fama que viria depois. É importante conservar esta ordem dos acontecimentos. Primeiro regressou o homem à sua terra. Só mais tarde a investigação pública ampliou o significado histórico da sua memória.

VI — Quando o sobrinho começou a procurar

A morte não encerrou a história. Pelo contrário, para João Mónico abriu uma pergunta.

«Tudo o que houver dele vou recolher, estudar e investigar. Há aqui muita coisa que é preciso saber e que nós ainda não sabemos.»
Padre João Carreira Mónico

Reuniu cartas, fotografias e documentos. Escutou familiares e pessoas que tinham conhecido o tio. Trabalhou sobre o espólio que Joaquim Carreira deixara organizado. O resultado foi publicado em 2008, em edição de autor, com o título Monsenhor Joaquim Carreira – Apóstolo do Bem, na Guerra e na Paz.

Esta etapa é central para o artigo porque explica como a memória familiar se tornou memória documentada. João Mónico não é apenas o sobrinho que recorda. É também o investigador que passou anos a confrontar recordações com papéis, datas e testemunhos.

A biografia abriu caminho a novas perguntas. O jornalista António Marujo aprofundou depois a investigação, consultou documentação do Pontifício Colégio Português, reconstruiu a lista dos acolhidos e procurou sobreviventes. O encontro com Elio Cittone tornou-se particularmente importante.

É aqui que várias linhas se unem: o relatório escrito em 1944, os documentos preservados, a investigação do sobrinho, o trabalho jornalístico e a voz de um homem que, adolescente, estivera escondido no Colégio. Nenhuma dessas fontes, isoladamente, conta tudo. Juntas permitem compreender melhor o alcance do que aconteceu.

VII — Jerusalém, Lisboa e a responsabilidade da memória

Justo entre as Nações

Em 4 de setembro de 2014, o Departamento dos Justos do Yad Vashem decidiu reconhecer Joaquim Carreira como Justo entre as Nações. A decisão tornou-se pública em dezembro desse ano. O título distingue não judeus que, durante o Holocausto, ajudaram a salvar judeus perseguidos, assumindo risco e sem procurar benefício material.

No caso de Joaquim Carreira, o testemunho de Elio Cittone e a documentação reunida foram determinantes. O reconhecimento incidiu sobre a proteção concedida a membros da família Cittone, inserindo a ação do sacerdote português na memória internacional dos salvadores de judeus durante o Holocausto.

A 15 de abril de 2015, na Sinagoga de Lisboa, a medalha e o certificado de honra foram entregues à família. Foi precisamente João Carreira Mónico quem os recebeu em nome do tio.

Há uma força particular nesta imagem. O sobrinho que, depois da morte, começara a procurar documentos e a fazer perguntas recebia agora uma distinção internacional atribuída a um homem que nunca procurara esse reconhecimento.

Em 2017, o antigo edifício do Pontifício Colégio Português, o Palazzo Alberini, seria também assinalado como «Casa de Vida», no âmbito da memória dos lugares que acolheram perseguidos durante o Holocausto. A instituição passou, assim, a carregar publicamente uma memória que durante décadas permanecera sobretudo nos arquivos e nas recordações de quem por ali passara.

Yad Vashem

Não escrever para descobrir um herói

Ao longo deste meu trabalho, uma preocupação tornou-se mais clara: não quero escrever para fabricar um herói nem para disputar a autoria de uma descoberta. Joaquim Carreira foi estudado antes de mim, e foi-o com profundidade. João Mónico dedicou anos a preservar o espólio e a escrever a biografia do tio. António Marujo reconstruiu histórias, encontrou sobreviventes e trouxe a figura de Joaquim Carreira para o espaço público. O Yad Vashem realizou o seu próprio processo de reconhecimento.

O meu lugar é outro.

É o de quem se sentou diante do padre João Mónico e percebeu que a memória também se transmite numa conversa. Na maneira como alguém sorri ao recordar uma expressão antiga. Na pausa que acompanha uma pergunta que ficou por fazer. Na diferença entre aquilo que se sabia em família e aquilo que só os documentos revelaram mais tarde.

Por isso, esta história regressa sempre à entrevista, mas não para repetir as mesmas frases. Regressa porque João Mónico oferece uma perspetiva singular: conheceu primeiro o tio e descobriu depois a personagem histórica. Esse movimento — do homem próximo para a dimensão pública da sua vida — é também o movimento destas páginas.

O que permanece

Quando me despedi do padre João Mónico, em 12 de abril de 2025, levava comigo o exemplar da biografia que me confiara. O livro foi o prolongamento da entrevista. Depois dele vieram outros textos, outros documentos e outras vozes.

Mas, no final, continuo a regressar ao início da conversa.

«Onde ele estivesse, havia alegria.»
Padre João Mónico

Talvez seja melhor terminar aí do que numa enumeração de distinções. Joaquim Carreira foi sacerdote, professor, homem de ciência, aviador, reitor, conselheiro eclesiástico e, muitos anos depois da morte, Justo entre as Nações. Durante a ocupação alemã de Roma abriu as portas do Colégio Português a pessoas perseguidas e assumiu a responsabilidade concreta de as esconder, alimentar e proteger.

Tudo isso importa. Mas a memória de uma vida não se esgota nos factos que cabem numa cronologia.

João Mónico ajudou-me a perceber o homem que existia antes e depois da guerra: alguém que gostava de gente, que ensinava, conduzia, contava histórias, resolvia problemas e não parecia interessado em transformar o bem praticado numa narrativa sobre si próprio.

Talvez seja precisamente por isso que vale a pena continuar a contar esta história. Não para acrescentar ruído ao que já foi bem investigado, mas para impedir que o silêncio volte a cobrir aquilo que a memória, os documentos e os sobreviventes conseguiram resgatar.

Escrevo não porque esta história não tenha sido contada, mas porque histórias como esta precisam de continuar a ser contadas.

Ser memória é também isto: receber uma história, tratá-la com rigor e entregá-la a outros.

RRP.

Nota sobre as fontes e a verificação histórica

Esta versão mantém a entrevista ao padre João Carreira Mónico, realizada pelo autor em 12 de abril de 2025, como fio condutor. A memória oral foi confrontada com a biografia escrita pelo próprio João Mónico, com a investigação jornalística de António Marujo, com os relatórios do Pontifício Colégio Português e com fontes institucionais relativas à vida de Joaquim Carreira e ao seu reconhecimento como Justo entre as Nações.

Na revisão foram deliberadamente evitadas formulações que apresentassem como definitivamente resolvidas questões historiográficas mais amplas — nomeadamente a natureza e o grau de coordenação do acolhimento promovido por instituições católicas em Roma durante o pontificado de Pio XII. O artigo centra-se no que as fontes permitem afirmar com segurança sobre Joaquim Carreira e o Pontifício Colégio Português.

Fontes principais

Entrevista ao Padre João Carreira Mónico, CSSp, realizada por Rafael Ribeiro Pereira em 12 de abril de 2025, Casa Provincial dos Missionários do Espírito Santo, Lisboa.

João Mónico, Monsenhor Joaquim Carreira – Apóstolo do Bem, na Guerra e na Paz, edição de autor, 2008.

António Marujo, investigação jornalística sobre Joaquim Carreira e os refugiados do Pontifício Colégio Português, posteriormente desenvolvida em A Lista do Padre Carreira.

Relatório do Pontifício Colégio Português relativo ao ano letivo de 1943-1944, redigido por Joaquim Carreira.

Diocese de Leiria-Fátima, documentação biográfica e notícias relativas a Monsenhor Joaquim Carreira.

Agência ECCLESIA, notícias de 2014-2016 sobre a atribuição e entrega da distinção Justo entre as Nações.

Pontifício Colégio Português, memória institucional sobre o acolhimento de perseguidos no Palazzo Alberini e o reconhecimento como Casa de Vida.

Yad Vashem, enquadramento do título Righteous Among the Nations / Justo entre as Nações.


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