ISRAEL

I

UMA TERRA, MUITAS HISTÓRIAS

Uma árvore de oliveira com tronco retorcido crescendo em uma parede de pedras claras.

Falar da história de Israel é como mergulhar num rio onde confluem fé, política, memória e conflito. É tocar numa terra sagrada para milhões e, ao mesmo tempo, profundamente disputada. É recordar uma promessa antiga e reconhecer os dramas contemporâneos. Este artigo não pretende ser exaustivo, mas oferecer ao leitor um percurso pela complexa cronologia de Israel, destacando os principais marcos históricos e os dilemas ainda em aberto.

A Terra Prometida: entre a fé e a história

Israel não começa em 1948. Começa com Abraão, com o Êxodo, com o Reino de David e Salomão, com o exílio babilónico e o retorno a Jerusalém. Para os judeus, a Terra de Israel é parte central da sua identidade religiosa e cultural desde a Antiguidade. A Bíblia narra uma ligação sagrada entre Deus, o povo e a terra.

Historicamente, os reinos de Israel e de Judá existiram entre os séculos X e VI a.C., antes de serem conquistados por impérios sucessivos: Assírios, Babilónios, Persas, Gregos e, finalmente, Romanos. A destruição do Templo de Jerusalém no ano 70 d.C. pelos romanos marcou o início da Diáspora judaica, dispersando o povo judeu por todo o mundo.

Sionismo e regresso: o século XX

Durante séculos, os judeus conservaram a memória e a esperança do regresso a Sião. No século XIX, nasceu o movimento sionista, liderado por Theodor Herzl, com o objectivo de fundar um Estado judeu. Com o aumento do antissemitismo na Europa e, mais tarde, o trauma do Holocausto, a causa sionista ganhou apoio internacional.

Em 1947, as Nações Unidas aprovaram um plano de partilha da Palestina — então sob mandato britânico — em dois Estados: um judeu e um árabe. Os líderes sionistas aceitaram; os árabes rejeitaram. Em 14 de maio de 1948, David Ben-Gurion proclamou o Estado de Israel. Seguiu-se a primeira guerra árabe-israelita, que resultou em cerca de 700.000 palestinianos refugiados — a Nakba, ou “catástrofe”, para o povo palestiniano.

Um Estado em guerra: 1948 até hoje

A história do Estado de Israel está marcada por sucessivos conflitos:

  • Guerra dos Seis Dias (1967) – Israel ocupou Jerusalém Oriental, Gaza, Cisjordânia, Sinai e Colinas de Golã. A ocupação da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental continua até hoje.
  • Guerra do Yom Kippur (1973) – Egipto e Síria atacaram Israel numa tentativa de recuperar os territórios perdidos. A guerra terminou em impasse.
  • Processos de paz – O Acordo de Camp David (1978) trouxe a paz com o Egipto. O Acordo de Oslo (1993) criou a Autoridade Palestiniana, mas não conduziu à criação de um Estado palestiniano viável.
  • Conflitos com o Hamas – Desde 2005, após a retirada de Gaza, Israel tem enfrentado vários conflitos com o grupo Hamas, agravando o bloqueio ao enclave e a crise humanitária.

Israel hoje: democracia, identidade e ocupação

Israel é uma democracia vibrante, com instituições fortes, inovação tecnológica e uma sociedade plural — mas também marcada por profundas desigualdades. A ocupação da Cisjordânia, a expansão dos colonatos e as políticas discriminatórias para com os árabes palestinianos dentro e fora de Israel são fonte de crítica e de tensão.

Ao mesmo tempo, a sociedade israelita vive dilemas identitários: ser um Estado judeu e democrático é, para muitos, uma contradição em si, sobretudo se se negar a soberania e dignidade de outro povo — o palestiniano.

Um futuro possível?

A história de Israel não está fechada. É uma história em curso, que clama por justiça, paz e reconciliação. Não há solução duradoura que ignore os direitos de um dos lados. O povo judeu tem direito à segurança, à autodeterminação e à memória viva do Holocausto. O povo palestiniano tem direito a viver em liberdade, em dignidade e em terra própria.

A Doutrina Social da Igreja convida à paz baseada na justiça e no reconhecimento mútuo. Como cristãos, somos chamados a rezar pela paz em Jerusalém e a agir por ela — com clareza moral, escuta dos dois lados, e defesa dos mais vulneráveis.


escutar a terra, escutar os povos

Israel é mais do que um nome num mapa: é um lugar de fé, de ferida e de esperança. A sua história interpela-nos a não olhar o mundo a preto e branco. A caminhar com aqueles que esperam o fim da ocupação, com aqueles que temem o terror, com aqueles que acreditam que ainda é possível uma terra de paz para dois povos e três religiões.

Se Jerusalém é cidade santa, que o seja pela justiça, e não apenas pelas pedras.

RRP.


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Rafael Ribeiro Pereira

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