JOÃO PAULO II E RONALD REAGAN: DOIS SOBREVIVENTES, UMA AMIZADE E UMA MISSÃO

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Ronald Reagan e Papa João Paulo II conversando em um encontro no Vaticano.

No início dos anos 80, o mundo estava dividido pelo Muro de Berlim e pela ameaça nuclear. Nesse cenário tenso, dois homens vindos de mundos opostos — um ator de Hollywood tornado presidente protestante dos Estados Unidos e um padre polaco que chegara à cátedra de Pedro — encontraram-se, reconheceram-se e tornaram-se cúmplices numa missão que consideravam divina: devolver a liberdade aos povos do Leste europeu.

Ronald Reagan e Karol Wojtyła partilhavam uma marca indelével: a experiência de ter estado à beira da morte. Menos de um ano antes de se encontrarem pela primeira vez, Reagan fora baleado a 30 de março de 1981, em Washington; João Paulo II, a 13 de maio do mesmo ano, na Praça de São Pedro. Ambos sobreviveram contra todas as probabilidades — e interpretaram essa sobrevivência como algo maior do que uma simples coincidência.

O Papa falava da “mão materna” de Nossa Senhora de Fátima que desviou a bala e mandou colocá-la na coroa da imagem peregrina. Reagan acreditava que Deus o salvara para cumprir um propósito especial. Quando se encontraram no Vaticano a 7 de junho de 1982, trocaram olhares e palavras que cimentaram um vínculo. Um colaborador norte-americano lembraria mais tarde: “Pareciam dois velhos amigos a falar de um assunto que só eles compreendiam”.

Nessa primeira reunião, passaram cerca de cinquenta minutos sozinhos. Não houve registos oficiais, mas sabemos pelo cruzamento de testemunhos que discutiram a situação na Polónia, o papel do Solidarność e a necessidade de enfraquecer a influência soviética — sem violência armada.

Reagan, batizado na tradição dos Discípulos de Cristo e, anos mais tarde, membro da Igreja Presbiteriana, via a liberdade como um direito concedido por Deus. João Paulo II, que crescera sob ocupação nazi e vivera o peso do comunismo, considerava a liberdade religiosa e a dignidade humana como pilares da paz. A partir desse dia, trabalharam em sintonia.

Jornalistas como Carl Bernstein chamaram ao entendimento tácito entre Washington e o Vaticano “The Holy Alliance”. Entre 1982 e 1987, encontraram-se quatro vezes — duas no Vaticano, uma no Alasca e outra em Miami — e trocaram correspondência privada.

Os Estados Unidos canalizaram, através de redes discretas, fundos e equipamento de comunicação para o Solidarność, enquanto o Papa fortalecia espiritualmente a resistência polaca. George Weigel, biógrafo de João Paulo II, sublinha que sem esta conjugação de esforços a queda pacífica do comunismo na Europa de Leste teria sido muito mais difícil.

Apesar de não ser católico, Reagan deixou-se tocar por temas marianos, sobretudo pelas conversas sobre Fátima. No seu funeral de Estado, a 11 de junho de 2004, cumpriu-se um desejo simbólico: que um tenor irlandês cantasse o Ave Maria de Schubert. Nancy Reagan escolheu Ronan Tynan para interpretar a peça na Washington National Cathedral, perante líderes de todo o mundo — um gesto que recordou a ponte espiritual criada entre o presidente protestante e o Papa polaco.

Na cena internacional, havia ainda Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica, que partilhava com Reagan e João Paulo II a oposição ao comunismo. Embora não tenha existido uma aliança formal a três, houve convergência política e moral. Thatcher reuniu-se com o Papa em 1980 e visitou Gdańsk em 1988 para encontrar Lech Wałęsa, apoiando publicamente a causa polaca.

Quando o Muro de Berlim caiu, em novembro de 1989, Reagan já não estava na Casa Branca. Mas o seu telefonema ao Papa — cuja transcrição nunca foi tornada pública — foi, segundo um assessor, “a conversa de dois amigos que sabiam ter cumprido a missão para a qual tinham sido poupados”.

A amizade entre João Paulo II e Ronald Reagan mostrou que a fé e a política, quando movidas por ideais e não apenas por interesses, podem unir forças para mudar a história. Dois homens, duas histórias de sobrevivência e um destino partilhado: derrubar pacificamente um império.

“A história mostrou-nos que a liberdade e a verdade acabam por vencer. Mas é preciso coragem para as defender.”

São João Paulo II

RRP.


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