
Todos os anos, quando começa a Quaresma, pensamos quase automaticamente no que vamos deixar de comer. Menos açúcar, menos café, menos excessos. É um gesto bom. Educativo. Mas, ao ler a mensagem do Papa Leão XIV para esta Quaresma, fui desafiado a olhar para um jejum mais exigente — e talvez mais necessário no tempo em que vivemos: o jejum de palavras.
Vivemos submersos em palavras. Comentamos tudo. Opinamos sobre tudo. Reagimos a tudo. A rapidez tornou-se virtude, a exposição tornou-se norma, a resposta imediata tornou-se quase obrigação moral. Mesmo dentro da Igreja, corremos o risco de falar mais do que escutar, de afirmar mais do que discernir.
O Santo Padre recorda-nos que a conversão começa na escuta. E não há escuta verdadeira sem silêncio. A Quaresma, neste contexto, pode ser entendida como uma pedagogia da sobriedade — não apenas alimentar, mas verbal.
Jejuar de palavras não significa calar a verdade. Significa purificar a forma como falamos. Significa evitar o comentário precipitado, a crítica fácil, o julgamento apressado. Significa resistir à necessidade de ter sempre a última palavra.
Na Terra Santa, junto ao Lago da Galileia, percebe-se algo essencial: Jesus retirava-Se para rezar antes de falar, antes de agir, antes de decidir. A palavra que transforma nasce do silêncio que escuta. Talvez seja esse o grande desafio quaresmal: reaprender a falar a partir de um coração ordenado.
Num país marcado por tensões sociais, por debates intensos e por fragilidades reais, a sobriedade da palavra é uma forma concreta de caridade. Uma palavra pode unir ou dividir. Pode construir ou ferir. Pode clarificar ou incendiar. Jejuar de palavras é escolher que a nossa linguagem não seja instrumento de agressividade, mas de verdade e de bem.
Este jejum tem consequências práticas. Falar menos nas redes sociais. Evitar alimentar polémicas desnecessárias. Escutar antes de responder. Não amplificar rumores. Não reduzir pessoas a rótulos. Num tempo de ruído permanente, o silêncio torna-se profético.
Mas o jejum de palavras não é apenas negativo — não é apenas deixar de falar. É criar espaço para que a Palavra de Deus volte a ocupar o centro. A Quaresma conduz-nos à Páscoa, e a Páscoa é o triunfo da Palavra definitiva: Cristo, que não grita, mas Se entrega.
Se Cristo entrou na história com sobriedade, sem espectáculo, então também a nossa conversão deve ser discreta, consistente, concreta. O jejum educa o desejo. A esmola educa o olhar. A oração educa o coração. O jejum de palavras educa a responsabilidade.
Há algo profundamente simbólico na subida a Jerusalém. É um caminho exigente, mas orientado. Sabe-se para onde se vai. A mensagem do Papa Leão XIV insiste nessa direção: caminhamos para a Páscoa. E a Páscoa não se prepara com ruído, mas com verdade.
Talvez, nesta Quaresma, me seja pedido isto: falar menos e viver mais. Julgar menos e compreender mais. Reagir menos e discernir mais.
O essencial não precisa de muitas palavras. Precisa de coerência.
A Páscoa aproxima-se em silêncio. E começa quando deixamos que Deus purifique também a nossa linguagem.
Talvez o jejum que mais nos custa — o jejum de palavras — seja precisamente aquele que mais transforma.
RRP.
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