O X DA BÍBLIA E O X DA HISTÓRIA

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Vista panorâmica de uma cidade antiga ao pôr do sol, com domos e árvores, acompanhada do texto 'O X da BÍBLIA e o X da HISTÓRIA'.
EDITORIAL | SERVIENS

Há textos que nascem da biblioteca.

Outros nascem do caminho.

O artigo que hoje publicamos nasce de peregrinações sucessivas à Terra Santa e de uma pergunta que acompanha muitos crentes — ainda que nem sempre a confessem: até que ponto preciso de certeza histórica para sustentar a minha fé?

Miguel Dantas propõe-nos uma metáfora simples e exigente: o “X”. O X que marca um lugar no mapa. O X que identifica um ponto histórico. O X que resolve uma equação. E, por fim, o X que interpela a fé.

Num tempo em que tudo parece exigir prova, coordenada e validação externa, esta reflexão recorda-nos que a fé cristã não se apoia na obsessão arqueológica nem na negação da história. Move-se numa tensão fecunda entre memória, tradição e testemunho.

A pergunta “foi mesmo aqui?” não é apenas geográfica. É espiritual.

Entre o X da História e o X da Fé, talvez descubramos que a questão decisiva não é localizar com exatidão milimétrica o túmulo, mas compreender o que significa que ele esteja vazio.

Boa leitura.

O X DA BÍBLIA E O X DA HISTÓRIA

Este título nasce das minhas peregrinações à Terra Santa. Não é uma explicação científica nem histórica. É pura teologia vivida.

Na primeira vez que fui, tudo era novidade. Bebi toda a informação visual, palpável, auditiva e até o cheiro das ruas e da comida. A esperança de uma expectativa que era superada em cada esquina deixou-me quase anestesiado. Nem fui capaz de um olhar clínico, mais histórico. E essa foi precisamente a beleza da primeira experiência: pura descoberta, entusiasmo pelo sentir, tocar, cheirar e ver os locais por onde Jesus andou. Essa viagem ficou guardada para sempre.

Voltei no ano seguinte. As expectativas baixaram, mas cresceram nos locais que não tinha visitado da primeira vez. Tivemos um guia judeu, profundamente espiritual, que quando chegava aos lugares lia uma passagem da Bíblia referente ao local. E toda a explicação começava por uma reflexão. Só depois falava dos elementos históricos e arqueológicos. E no final fazia sempre uma observação:

— Aqui podem colocar um X. Jesus esteve aqui.

Ou então dizia:

— Aqui não podemos colocar um X, porque não temos a certeza histórica suficiente, ou porque o espaço atual já não corresponde ao do tempo de Jesus.

A partir daí, essa passou a ser uma das medidas que utilizei para conduzir as pessoas por aqueles espaços. Ao fim de quase vinte anos, encontrei várias respostas. Em alguns locais permanece uma forte dúvida — sem X. Noutros, ganhámos maior probabilidade histórica — com X.

Mas de todos os lugares, o Santo Sepulcro foi sempre o mais estranho.

Na primeira visita, era o local onde tinha a maior expectativa e acabou por ser o mais confuso. Subi ao Calvário e, apesar da arte ortodoxa e das sucessivas camadas arquitetónicas esconderem a simplicidade do espaço original, pude ver a rocha, o lugar tradicional da cruz e contemplar.

Quando me dizem que o Santo Sepulcro está exatamente ao lado, a poucos metros, fico a pensar. Tento criar uma imagem: retirar mentalmente o edifício, imaginar um espaço aberto, fora das muralhas antigas, como era no tempo de Jesus. Com esse exercício, começo a perceber que a distância entre o lugar da crucifixão e o túmulo poderia, de facto, ser curta.

Mas quando regressei a casa, comecei a pesquisar de forma mais sistemática. Fui ler os Evangelhos sobre o local onde Jesus foi sepultado. Procurei registos históricos, estudos arqueológicos e documentários sobre a história do complexo do Santo Sepulcro em Jerusalém. E fiz a pergunta que o guia sempre fazia:

Posso colocar um X no Calvário e no Santo Sepulcro que visitei?

A resposta não foi imediata.

Descobri que, ao longo dos séculos, surgiram hipóteses alternativas quanto à localização exata do túmulo. A tradição constante desde o século IV identifica o atual complexo como o local da crucifixão e da sepultura. Existem também propostas alternativas, como o chamado “Túmulo do Jardim”, surgido no século XIX. Quanto ao Calvário, há igualmente quem identifique outro ponto da cidade.

A dúvida sobre onde colocar o X permanece como pergunta legítima.

O Calvário ficava fora da cidade. Era um local onde os romanos crucificavam os condenados — isso é um dado histórico consistente. Locais de execução tornam-se marcos na memória coletiva. Não desaparecem facilmente da memória social. Se passados trezentos anos perguntássemos a um simples habitante da cidade onde os romanos crucificavam os condenados, provavelmente saberia indicar a zona geral.

Jesus não foi o único a ser condenado na cruz. Nesse sentido, no Calvário posso colocar um X com razoável confiança histórica.

E no Santo Sepulcro?

Segundo os Evangelhos, era quase noite e o sábado judaico estava a começar. Era preciso rapidez. Jesus foi retirado da cruz e colocado num túmulo novo, escavado na rocha, pertencente a José de Arimateia. A descrição fala de proximidade entre o lugar da crucifixão e o túmulo.

Historicamente sabemos que os romanos muitas vezes deixavam os condenados em valas comuns. Mas também sabemos que, mediante autorização, os corpos podiam ser reclamados por familiares ou por pessoas influentes — como parece ter sido o caso.

Aqui começa a tensão.

É plausível que um homem importante tivesse preparado um túmulo para si e para a sua família numa zona próxima de um local de execução? À primeira vista parece estranho. Mas também sabemos que a configuração urbana de Jerusalém mudou profundamente ao longo dos séculos. O que hoje é centro da cidade foi, no tempo de Jesus, periferia.

Durante anos, a visita ao espaço criou em mim uma certa confusão. Até que um dia, uma senhora idosa, na sua simplicidade, me perguntou:

— Foi mesmo aqui?

Levantou-se então um problema moral. Se respondo que sim, faço-o sem certeza histórica. Se respondo que não sei, retiro-lhe a intensidade daquele momento único.

Foi então que percebi algo que me ultrapassou.

O falso testemunho e a incredulidade foram, nos Evangelhos, as primeiras reações à Ressurreição. Tomé quis ver para acreditar. Eu também.

Durante anos, procurei colocar o maior número possível de X para acreditar nesses lugares. Transformei a fé numa equação histórica. Mas procurar um X apenas como argumento deixa de ser uma questão de fé e passa a ser uma tentativa de controlo.

Sempre visitei o local para me assegurar da veracidade histórica. Quando, na verdade, devia visitá-lo para me abrir à verdade da fé.

Ele está vivo. Ressuscitou. Essa é a afirmação central.

Não é o X da História que tenho de assegurar. É o X da Fé que tenho de procurar.

Mesmo que existam várias hipóteses arqueológicas, todas partem do mesmo ponto: o túmulo está vazio.

Foi nesse momento que percebi: não é o X da História que tenho de assegurar. É o X da Fé que tenho de procurar.

Qualquer equação com X exige que procuremos o resultado. Se o resultado que procuro é apenas histórico, fico sempre na margem da probabilidade. Se o resultado que procuro é a fé, chego sempre ao mesmo ponto: O túmulo está vazio. E Ele está vivo.

Miguel Dantas


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Miguel Dantas

1 Comentário

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  • Excelente
    Nas minhas Peregrinações á Terra Santa, não procuro certezas mas muitas dúvidas, que nada me incomodam.
    A única certeza que me enche o coração, é que o sepulcro está vazio ( 2016- a equipe que o estudou, não encontrou qualquer vestígio de Um Ser Humano)
    Simplesmente acredito

Miguel Dantas

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