
Na passagem de ano, o tempo parece suspender-se. Fazem-se balanços, alimentam-se expectativas, deseja-se que o calendário traga consigo uma espécie de redenção automática. Mas há momentos da história em que o ano muda sem promessas, sem ilusões, sem futuro visível. O inverno de 1942 para 1943, no campo de trânsito de Westerbork, na Holanda ocupada pelos nazis, foi um desses momentos.
Foi ali que Etty Hillesum continuou a escrever.
Westerbork não era ainda um campo de extermínio, mas funcionava como antecâmara da morte. Todas as semanas partiam comboios para Auschwitz e Sobibor. A ordem, a burocracia e a aparência de normalidade escondiam uma violência sistemática. Quem ali estava sabia, ou intuía, que cada chamada podia ser a última.
Etty sabia-o.
Nascida em 1914, judia, formada em Direito e profundamente marcada pela leitura, pela psicologia e pela interioridade espiritual, Etty começou a escrever o seu diário em 1941. O que começa como um exercício de autoconhecimento transforma-se, progressivamente, numa crónica ética e espiritual de um mundo em colapso.
Quando poderia esconder-se, Etty recusa. Decide trabalhar voluntariamente em Westerbork, acompanhando idosos, crianças, doentes, escrevendo cartas para os deportados, escutando angústias, oferecendo presença. Não o faz por martírio voluntarista, mas por fidelidade a uma convicção interior: não abandonar o humano quando ele é mais ameaçado.
Nos seus escritos não há qualquer ingenuidade. Etty vê com clareza o mal. Em julho de 1942 escreve:
“O sofrimento não é algo que se possa negar. Está aqui, é real, é esmagador.”
Mas logo acrescenta algo decisivo:
“Uma coisa se torna cada vez mais clara para mim: não são eles que nos podem destruir por dentro. Somos nós que podemos permitir que isso aconteça.”
É neste ponto que a sua escrita se torna verdadeiramente desconcertante. Enquanto o ano muda num campo cercado por arame farpado, Etty recusa entregar a sua vida interior ao ódio. Não absolve os carrascos, não romantiza o sofrimento, mas recusa deixar-se deformar por ele.
Num dos textos mais citados, escreve:
“Há em mim um poço muito profundo. E nesse poço está Deus. Às vezes consigo alcançá-Lo. Outras vezes está coberto de pedras e areia. Então é preciso desenterrá-Lo.”
Esta imagem do “poço” tornou-se central na leitura da sua obra. Para Etty, “ajudar Deus” significa precisamente isto: impedir que o ódio, o medo ou o desespero tapem esse poço no coração humano. Não se trata de explicar Deus perante Auschwitz, mas de preservar um espaço interior onde a violência não tenha soberania absoluta.
A mudança de ano em Westerbork não trouxe esperança histórica. Não trouxe libertação. Mas trouxe uma decisão quotidiana: habitar o tempo presente com responsabilidade espiritual. Como escreve em dezembro de 1942:
“O futuro não está nas nossas mãos. O que está nas nossas mãos é a forma como suportamos o presente.”
Etty Hillesum seria deportada para Auschwitz em setembro de 1943, onde morreria poucos meses depois, aos 29 anos. O ano novo que atravessou no campo não lhe abriu um amanhã. Mas legou-nos algo raro: um testemunho de esperança sem ilusões, de fé sem garantias, de humanidade mantida contra todas as probabilidades.
Num tempo como o nosso, marcado por guerras prolongadas, crises sociais, polarização e fadiga moral, Etty obriga-nos a uma pergunta incómoda: o que fazemos com o nosso mundo interior quando o exterior se torna hostil? Mudamos de ano com facilidade, mas raramente mudamos de critérios. Desejamos paz sem perguntar como cuidamos da dignidade do outro no quotidiano.
Etty recorda-me que a esperança não nasce da melhoria das circunstâncias, mas de uma decisão interior: não abdicar da responsabilidade de permanecer humano. Mesmo quando o futuro é incerto. Mesmo quando não há garantias. Mesmo quando tudo parece perdido.
Escrever esperança enquanto o ano muda no campo não foi, para Etty Hillesum, um gesto literário. Foi um ato de resistência ética. Uma forma de afirmar que o tempo não pertence apenas aos opressores, nem a história apenas à violência. Que mesmo ali, mesmo então, era possível escolher como viver cada dia.
Talvez seja por isso que a sua voz continue tão atual. Porque nos lembra que o ano novo não começa no calendário, mas no lugar interior onde decidimos se ainda vale a pena amar, cuidar, não desistir do humano.
E que, por vezes, viver — e escrever — esperança é o gesto mais radical que nos resta.
RRP.
Nota sobre os escritos de Etty Hillesum
Os diários e cartas de Etty Hillesum foram escritos entre 1941 e 1943. Antes da sua deportação para Auschwitz, Etty confiou os manuscritos a amigos, com o pedido explícito de que fossem preservados e, se possível, publicados após a guerra.
Esses escritos encontram-se hoje conservados nos Arquivos Históricos Judaicos de Amesterdão, tendo sido publicados pela primeira vez em neerlandês na década de 1980. Desde então, foram traduzidos para numerosas línguas. Em português, estão disponíveis sobretudo através das edições Uma vida transformada (diários) e Cartas de Westerbork, que reúnem os textos escritos durante a sua permanência no campo.
Os seus escritos são hoje reconhecidos como um dos testemunhos espirituais e éticos mais significativos do século XX
Discover more from Serviens
Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Obrigada