LIÇÕES NÃO APRENDIDAS DE UM PASSADO QUE INSISTE EM REGRESSAR

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Durante décadas, acreditou-se que certas geografias estavam a salvo dos fantasmas mais sombrios do século XX. A Austrália — distante dos grandes conflitos europeus, construída sobre a ideia de convivência multicultural — parecia uma delas. Foi por isso que a tragédia ocorrida em Sydney, no passado dia 14 de dezembro, em Bondi Beach, junto à praia, teve um impacto que ultrapassou largamente as fronteiras nacionais.

O ataque violento ocorrido nesse dia não foi apenas um episódio de brutalidade individual. Rapidamente se tornou claro que o ódio identitário — enraizado no antissemitismo e amplificado por radicalizações globais — já não respeita fronteiras culturais, religiosas ou geográficas. O que muitos julgavam ser um problema “dos outros”, “de outros continentes” ou “de outros tempos” manifestou-se num espaço público emblemático: uma praia urbana, turística, símbolo de normalidade, lazer e convivência quotidiana. A violência irrompeu onde a sociedade se julgava segura.

Nos dias que se seguiram, a comoção deu lugar a um debate mais profundo sobre o clima social contemporâneo. Multiplicaram-se alertas, receios e sinais de intimidação dirigidos a comunidades judaicas, ao mesmo tempo que crescia a preocupação com possíveis reacções de islamofobia, injustamente dirigidas contra comunidades muçulmanas alheias a qualquer violência. A tragédia de Sydney revelou, assim, uma realidade inquietante: o ódio moderno é difuso, transversal e facilmente contagioso.

A História ensina-nos que é precisamente assim que o ódio começa a ganhar espaço. Não com sistemas totalitários já instalados, mas com actos dispersos, aparentemente desconexos, que vão sendo normalizados. No início do século XX, antes das leis raciais e dos campos de extermínio, houve agressões pontuais, insultos públicos, caricaturas, acusações genéricas contra “os judeus” ou “os estrangeiros”. Em Viena, Berlim ou Paris, a violência simbólica precedeu sempre a violência física. O caso Dreyfus, em França, no final do século XIX, mostrou como o preconceito podia infiltrar-se nas próprias instituições do Estado. As Leis de Nuremberga, promulgadas em 1935, apenas formalizaram juridicamente um ódio que já circulava há anos nas ruas, nos jornais e nos discursos políticos.

O que hoje mais preocupa é o profundo desconhecimento deste processo histórico. Muitas pessoas conhecem o nome Auschwitz, mas ignoram o caminho que lá conduziu. Não sabem — ou não querem saber — que tudo começou com palavras, com a aceitação social do insulto, com a desculpabilização do agressor, com o silêncio prudente das maiorias. Este analfabetismo histórico torna as sociedades particularmente vulneráveis à repetição dos mesmos padrões, mesmo quando acreditam viver num tempo “mais esclarecido”.

A tragédia de Sydney revela algo decisivo: o ódio contemporâneo não se limita a uma única forma. O antissemitismo continua a ser uma ameaça real e concreta, mas a sua explosão tende a gerar reacções em cadeia, alimentando também a islamofobia e outras formas de exclusão. A vítima muda; o mecanismo permanece. O outro é reduzido a rótulo, a ameaça abstracta, a inimigo colectivo. Quando isso acontece, a dignidade humana deixa de ser o critério central da vida social.

Para os cristãos, esta realidade não pode ser lida com distanciamento. O antissemitismo é uma ferida aberta na história europeia e um pecado contra a memória bíblica. Jesus de Nazaré era judeu. Maria, os Apóstolos e as primeiras comunidades cristãs nasceram no seio do judaísmo. O Concílio Vaticano II, na declaração Nostra Aetate, rejeitou sem ambiguidades qualquer forma de ódio contra os judeus, recordando que a fé cristã nasce da mesma raiz. Defender a dignidade do povo judeu — e de qualquer comunidade alvo de ódio — não é uma opção ideológica; é uma exigência evangélica.

A Doutrina Social da Igreja insiste que a paz não é apenas ausência de guerra, mas construção activa da justiça e da memória. Quando acontecimentos como os de Sydney são relativizados, banalizados ou instrumentalizados, abre-se espaço para que a violência se torne aceitável. Bondi Beach deixou de ser apenas um lugar geográfico: tornou-se um símbolo inquietante de como o ódio pode irromper no coração da normalidade.

A pergunta que fica não é apenas australiana. É global. Se isto acontece em Sydney, pode acontecer em qualquer lugar. A História não se repete mecanicamente, mas rima — e rima sempre quando a memória falha.

Quando o ódio atravessa fronteiras, a responsabilidade também tem de as atravessar. O silêncio já não é neutralidade; é cumplicidade involuntária. A lucidez histórica, a coragem da palavra e a defesa intransigente da dignidade humana são hoje actos de resistência moral.

RRP.


Nota

No dia 14 de dezembro, a praia de Bondi Beach (Sydney) foi palco de um ataque violento ocorrido durante uma celebração de Hanukkah, provocando várias vítimas mortais e feridos. As autoridades australianas classificaram o episódio como um ataque de natureza terrorista, amplamente condenado por responsáveis políticos e religiosos internacionais, que o identificaram como um acto de violência antissemita. Nos dias seguintes, cresceu também a preocupação de que o choque e a indignação pudessem alimentar novas formas de ódio, incluindo reacções de islamofobia, penalizando comunidades inocentes.


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