VENEZUELA, PODER E RESPONSABILIDADE: NOTAS PARA UMA LEITURA PRUDENTE DA ATUALIDADE INTERNACIONAL

V
Mural colorido com a frase '¡Viva la Patria!' e imagem de uma figura feminina em frente, caminhando ao lado da bandeira da Venezuela.

A Venezuela continua a ocupar um lugar incómodo na agenda internacional. Não apenas pelo colapso económico e institucional que se arrasta há anos, nem apenas pelo sofrimento persistente da sua população, mas também porque se tornou um palco onde se cruzam, de forma cada vez mais explícita, lógicas de poder, interesses estratégicos e discursos que normalizam a força como instrumento político. Os mais recentes desenvolvimentos na relação entre os Estados Unidos e a Venezuela — marcados pelo reforço da pressão diplomática e económica, por uma retórica endurecida e por sinais inequívocos de disponibilidade para a escalada — exigem uma leitura que vá além da reação imediata ou da tomada de partido instintiva.

A crise venezuelana não nasceu de fora. Resulta de um processo interno prolongado de degradação das instituições, de concentração de poder, de erosão do Estado de direito e de decisões políticas que empurraram o país para uma espiral de empobrecimento, migração forçada e fragilização social extrema. Ignorar esta responsabilidade interna seria intelectualmente desonesto. Mas reconhecer esta realidade não equivale a legitimar tudo o que, a partir do exterior, se faz em nome da sua correção.

É precisamente aqui que a leitura se torna mais exigente. Quando uma grande potência assume para si o direito de definir os ritmos, os meios e os limites da resposta a uma crise alheia, a questão já não é apenas o destino de um regime político concreto, mas a conceção de ordem internacional que está em jogo. A intensificação de sanções, o estrangulamento económico prolongado, a linguagem de ameaça e a instrumentalização da pressão como substituto da mediação política levantam uma interrogação fundamental: até que ponto estas estratégias contribuem efetivamente para a proteção das pessoas ou apenas reforçam uma lógica de confronto em que o custo humano é tratado como dano colateral aceitável?

A experiência recente mostra que, em contextos de fragilidade estrutural, são raramente as elites políticas que suportam o peso real das sanções ou da instabilidade prolongada. São as famílias, os trabalhadores, as pessoas comuns. São aqueles para quem a política internacional surge não como horizonte abstrato, mas como escassez concreta, insegurança diária e ausência de futuro previsível. Quando a eficácia estratégica se sobrepõe sistematicamente à consideração pelo impacto humano, a política deixa de ser instrumento do bem comum e transforma-se numa gestão fria de consequências consideradas inevitáveis.

Este ponto é decisivo. Há um momento em que a prudência analítica não pode confundir-se com neutralidade moral. Reconhecer a complexidade não obriga a suspender o juízo ético. Pelo contrário: obriga a torná-lo mais exigente. Denunciar os abusos internos de um regime não justifica a normalização de métodos que enfraquecem o direito internacional e substituem a política pela pressão. Do mesmo modo, condenar a intervenção externa não pode servir de álibi para ignorar a responsabilidade de quem governa sem prestar contas ao seu povo.

A tradição da Doutrina Social da Igreja oferece aqui um critério particularmente fecundo, mesmo quando não é explicitamente nomeado: o primado da pessoa humana sobre a razão de Estado, o primado da política sobre a força e a responsabilidade acrescida de quem detém maior poder. Não se trata de ingenuidade moral, mas de realismo ético. Quanto maior é o poder de um ator internacional, maior é a sua obrigação de agir com contenção, proporcionalidade e abertura à mediação. Quando isso não acontece, não estamos apenas perante uma falha estratégica, mas perante uma erosão silenciosa dos fundamentos que sustentam uma ordem internacional minimamente justa.

A Venezuela tornou-se, assim, um espelho desconfortável. Espelho das fragilidades internas de regimes que se fecham sobre si próprios e perdem a capacidade de servir o seu povo. Mas também espelho de uma comunidade internacional que, perante crises prolongadas, parece cada vez mais tentada a abdicar da paciência política em favor de soluções rápidas, visíveis e comunicacionalmente eficazes, ainda que moralmente ambíguas.

No fundo, o maior desafio da atualidade internacional é saber se o poder ainda se deixa limitar pela responsabilidade e pela dignidade humana, ou se continuará a impor-se sacrificando a justiça e a paz duradoura à lógica fria da eficácia imediata.

RRP.


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