QUANDO A PAZ NÃO FAZ MANCHETES: ONU E VATICANO EM MISSÃO DISCRETA

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Um mural que retrata um soldado sentado, armado, ao lado de um menino que lhe oferece uma flor, simbolizando a paz e a inocência em um ambiente urbanizado com grafites ao fundo.
Peace, by Banksy.

Perante o ruído dos nossos dias, é fácil concluir que a ONU está “acabada”: um palco de discursos, resoluções que não passam, promessas que se desfazem ao primeiro veto. Muitos líderes apressam-se em acusá-la de ser inoperante, ineficaz, até ridícula. E, no entanto, muito do que impede guerras, abre corredores humanitários, reconcilia países e salva vidas acontece sem holofotes. “O essencial é invisível aos olhos”. A diplomacia multilateral vive de portas que se abrem em corredores, telefonemas que não se fotografam e minutas que evitam mortos — não manchetes. A própria ONU descreve esta gramática discreta como “diplomacia preventiva”: enviar emissários, mediar cedo, conter a escalada antes de se transformar em tragédia.

É verdade que a arquitetura do Conselho de Segurança expõe fragilidades. O mecanismo do veto — historicamente usado por todas as potências com assento permanente — bloqueia respostas em crises que exigem urgência. O atual secretário-geral, António Guterres, reconheceu que a paralisia perante Gaza e a Ucrânia minou, “porventura de forma fatal”, a autoridade do Conselho. Mas reduzir a ONU a esses impasses é perder de vista a rede que continua a funcionar: agências no terreno, missões políticas silenciosas, peritos que documentam violações e criam condições para a justiça.

Neste tabuleiro, a Igreja Católica tem uma posição singular. A Santa Sé é observador permanente na ONU desde 1964, estatuto que lhe permite falar aos Estados com uma autoridade moral que não se confunde com poder militar ou económico — e, por isso mesmo, abre portas onde a geopolítica se fecha. Quando Francisco foi à Assembleia-Geral, em 2015, levou ao coração do multilateralismo a linguagem da “casa comum”, ligando ecologia, direitos humanos e paz; fê-lo com a liberdade de quem não disputa território, mas consciência.

Há episódios que explicam esta força discreta. Em 2014, o degelo entre Cuba e os Estados Unidos teve encontros reservados no Vaticano; o Papa escreveu aos presidentes, acolheu conversas, ajudou a reconciliar décadas de desconfiança. Não foi um “golpe de teatro”, mas o trabalho paciente de quem sabe que um acordo nasce de escuta e confiança — duas palavras que raramente dão audiências, mas mudam a história.

Outro exemplo são os corredores humanitários promovidos por comunidades e movimentos católicos, como a Comunidade de Sant’Egidio, em diálogo com governos europeus. São vias legais e seguras que já trouxeram milhares de refugiados para a Europa, com acolhimento e integração preparados à partida — pequena política no número, enorme no sinal que dá ao sistema: é possível combinar segurança com humanidade e provar que a compaixão também se organiza.

Mesmo quando a guerra parece impermeável às palavras, a diplomacia vaticana insiste em manter canais. Na Ucrânia, o enviado papal, cardeal Matteo Zuppi, percorreu capitais para libertar menores e preparar trocas de prisioneiros, sem prometer o que não controla. Houve gestos concretos — reconhecidos até por Moscovo — em operações de troca mediadas com parceiros regionais. É pouco diante do horror? Talvez. Mas, sem esse “pouco”, o mundo seria ainda mais áspero.

Também aqui se vê como o magistério pode influenciar o comum das nações. A Laudato Si’ não ficou nas sacristias: entrou no debate que levou a Paris, em 2015, oferecendo a gramática da “ecologia integral” a negociadores e sociedades civis. A ONU reconheceu esse impulso das comunidades de fé na construção de consenso climático — mais um caso em que a Igreja trabalha melhor quando não ocupa o centro do palco.

Um olhar honesto continua crítico. A ONU precisa de reformas que atenuem o veto e reforcem a execução; precisa de transparência que não confunda discrição com opacidade; precisa de orçamento estável que não dependa dos humores de capitais que ora financiam, ora cortam. Mas um olhar firme recorda: quando fracassa o espaço comum, cresce o império do mais forte. Entre a ingenuidade e o cinismo há um caminho realista: defender o multilateralismo que existe, melhorar o que falha, sustentar quem, noite dentro, procura a paz no detalhe de uma cláusula.

Talvez esta seja a lição para nós, leitores saturados de “últimas horas”: descer do ruído para o essencial. Reparar que o mundo melhora menos nos gritos e mais nos encontros invisíveis; que a ONU vale pelos milhares de mãos que coordenam ajuda, investigam crimes, mediam cessar-fogos; que a Igreja, quando serve como ponte e não como parte, multiplica o alcance do bem comum. E, na próxima notícia que nos diga que “nada mudou”, guardar esta hipótese humilde e teimosa: alguém, agora mesmo, estará a abrir uma porta que evita uma guerra que nunca veremos — precisamente porque não chegou a acontecer.

RRP.


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Rafael Ribeiro Pereira

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