
UMA VERGONHA DIPLOMÁRICA E UM DESAFIO ÉTICO PARA A IGREJA
Introdução
O conflito entre Israel e o Hamas tornou-se uma ferida aberta na consciência da humanidade. Ano após ano, a violência repete-se, com civis como principais vítimas. A ONU multiplica resoluções e comunicados, mas a sua ação efectiva é nula. Pior: entre a paralisia do Conselho de Segurança e a retórica vazia da Assembleia Geral, a ONU tornou-se cúmplice da manutenção do status quo. Este artigo analisa, sem subterfúgios, o fracasso da ONU, clarifica a natureza do Hamas e reflecte sobre o papel profético que a Igreja Católica é chamada a assumir.
1. A ONU: neutralidade aparente, inoperância real
É tempo de dizer com clareza: a ONU falhou. Durante décadas, acumulou resoluções sobre o conflito israelo-palestiniano, sem nunca ter conseguido impor uma solução justa e duradoura. O direito de veto dos membros permanentes do Conselho de Segurança — nomeadamente os Estados Unidos — bloqueou qualquer resposta efectiva à ocupação prolongada dos territórios palestinianos e à escalada cíclica de violência.
Exemplo concreto: Após o ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023, que vitimou mais de 1.200 civis israelitas — incluindo bebés, idosos e jovens num festival de música —, a ONU demorou semanas a condenar inequivocamente o ataque. E, mesmo assim, fê-lo numa linguagem vaga, tentando equilibrar a denúncia com apelos à contenção de ambos os lados. Essa hesitação minou a sua credibilidade.
Pouco depois, Israel lançou uma ofensiva militar maciça sobre Gaza, que destruiu bairros inteiros, hospitais, escolas e campos de refugiados, matando mais de 30 mil pessoas, das quais uma percentagem significativa eram civis, segundo fontes como a OMS e a própria UNRWA. O Conselho de Segurança foi incapaz de impor um cessar-fogo imediato, devido ao veto dos EUA. O resultado? Impunidade política e tragédia humanitária.
2. O Hamas não representa o povo palestiniano
É fundamental afirmar com firmeza: o Hamas é uma organização terrorista. O ataque de 7 de outubro foi um massacre deliberado de civis, com execuções, sequestros e violência sexual. Usar o sofrimento palestiniano como pretexto para o terrorismo é uma perversão moral.
Mas não se pode confundir o Hamas com o povo palestiniano. A esmagadora maioria da população de Gaza não vota desde 2006. Vive sob bloqueio militar e económico imposto por Israel e pelo Egipto, com acesso intermitente a água, eletricidade e cuidados de saúde. É refém de duas realidades: a violência do ocupante e o fanatismo de quem se apropriou da resistência.
Exemplo concreto: Durante os bombardeamentos de finais de 2023, vários relatos confirmaram que o Hamas escondia armamento em escolas, túneis sob hospitais e zonas residenciais densas. Isto converte civis em escudos humanos — uma prática condenada pelo direito internacional humanitário. A ONU, apesar de o saber, evitou responsabilizar directamente o Hamas por essa estratégia, por receio de represálias e divisões internas.
3. Agências da ONU: ajuda vital, mas sob suspeita
A UNRWA, agência da ONU responsável pelo apoio aos refugiados palestinianos, tem desenvolvido um trabalho essencial: distribuição de alimentos, abrigo e educação. Mas também tem sido alvo de denúncias graves.
Exemplo concreto: Em janeiro de 2024, Israel acusou 12 funcionários da UNRWA de participação directa no ataque de 7 de outubro. Vários países — incluindo os EUA, Alemanha e Reino Unido — suspenderam temporariamente o financiamento da agência. A resposta da ONU foi tardia e defensiva. E, apesar de haver investigações em curso, o escândalo revelou fragilidades no controlo interno e levantou dúvidas legítimas sobre a neutralidade da organização.
4. A Igreja: voz moral num mundo sem vergonha
Perante esta paralisia diplomática, a Igreja Católica é chamada a não pactuar com o silêncio. A Doutrina Social da Igreja oferece critérios claros:
- Dignidade da pessoa humana: toda a vida é sagrada, independentemente da nacionalidade ou religião.
- Justiça social: exige reconhecer as causas profundas do conflito: ocupação, colonatos, bloqueios, ausência de esperança.
- Solidariedade concreta: a Igreja está no terreno — através do Patriarcado Latino de Jerusalém, da Cáritas, de ordens religiosas — a apoiar feridos, refugiados, famílias em luto.
Exemplo concreto: Em novembro de 2023, o Patriarca Latino de Jerusalém, Cardeal Pierbattista Pizzaballa, ofereceu-se publicamente como refém em troca da libertação de crianças israelitas sequestradas pelo Hamas. Um gesto de profunda coragem evangélica, que demonstrou o compromisso da Igreja com todas as vítimas da guerra — sem distinção de etnia ou credo.
5. A Terra Santa: lugar de esperança ou campo de cinzas?
A Igreja tem uma missão: manter viva a esperança onde só há escombros. As comunidades cristãs da Terra Santa estão cada vez mais isoladas e exaustas. A sua sobrevivência depende do apoio internacional e da solidariedade das Igrejas irmãs.
Mas mais do que assistência, é preciso profecia. A Igreja deve dizer a verdade, mesmo quando custa: o terrorismo deve ser condenado; a ocupação deve cessar; a paz sem justiça é uma ilusão.
Conclusão
A ONU falhou. O Hamas é um obstáculo à paz. Israel tem direito à segurança, mas não à impunidade. E o povo palestiniano continua a pagar o preço de uma diplomacia cobarde, de alianças perigosas e de um mundo que prefere a estabilidade do silêncio à verdade da justiça.
A Igreja, como corpo profético de Cristo, não pode resignar-se. É chamada a proclamar a paz, sim — mas uma paz enraizada na verdade, na justiça e na dignidade de todos os povos. Que esta missão nos encontre de pé, e não de joelhos perante os poderosos.
RRP.
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