A PAZ ESQUECIDA

A

O PAPEL DA IGREJA DIANTE DAS GUERRAS SILENCIADAS

Crianças caminhando em um campo de refugiados, com barracas de lona ao fundo e pessoas nas laterais.
Crianças refugiadas num campo temporário no Iraque. Fonte: El País.

“A guerra é sempre uma derrota da humanidade.”

Papa Francisco

Enquanto a atenção mediática global se concentra – com razão – em conflitos como a guerra na Ucrânia ou a escalada de violência no Médio Oriente, há outras guerras que se arrastam há anos, senão décadas, e que foram relegadas à sombra da indiferença. Sudão, Síria, Myanmar, República Democrática do Congo, Iémen, Camarões… são apenas alguns dos exemplos onde o sofrimento humano persiste em silêncio. E se os holofotes se apagam, a dor continua acesa.

Guerras que deixámos de ver

Num mundo saturado de informação, a ausência nos noticiários tornou-se sinónimo de inexistência. Mas as estatísticas são esmagadoras: milhões de deslocados, populações inteiras a viver sob fogo cruzado, mulheres e crianças vítimas de abusos, fome, destruição e desespero. A guerra no Sudão, por exemplo, já provocou mais de 12 mil mortos e 8 milhões de deslocados internos em apenas um ano. No Myanmar, a junta militar continua a reprimir brutalmente a população desde o golpe de Estado em 2021.

Porque é que estas guerras são esquecidas? Muitas vezes porque não afetam diretamente interesses económicos ou estratégicos do Ocidente. Outras vezes, porque o cansaço mediático vence a compaixão. Mas para a Igreja, nenhuma guerra é esquecida. Cada vida ferida é sagrada.

A paz como vocação da Igreja

A Doutrina Social da Igreja tem sido clara e coerente: a paz não é simplesmente ausência de guerra, mas fruto de uma ordem justa, baseada na verdade, na justiça, no amor e na liberdade (Pacem in Terris, n.º 18). A paz é “artesanato comunitário” (Fratelli Tutti, n.º 231), um bem a ser construído pacientemente por todos, com especial responsabilidade dos cristãos.

A missão da Igreja, neste contexto, é tríplice:

  • Denunciar a injustiça e a indiferença, mesmo quando isso incomoda;
  • Promover uma cultura de paz, baseada no diálogo, na reconciliação e no perdão;
  • Agir concretamente, apoiando vítimas, acolhendo refugiados e incentivando soluções diplomáticas e solidárias.

Luzes em meio à escuridão

Apesar da escuridão, há sinais de esperança. Em pleno conflito no Sudão do Sul, o Papa Francisco realizou uma visita histórica de reconciliação. Em Myanmar, bispos e comunidades católicas continuam a assistir populações perseguidas, mesmo sob ameaça. No Congo, organizações eclesiais são muitas vezes o único suporte humanitário.

Também em Portugal, a solidariedade de paróquias e instituições católicas tem permitido acolher refugiados, enviar ajuda humanitária e manter viva a memória das guerras esquecidas.

Um chamamento ao coração e à consciência

O que acontece ao nosso olhar quando já não nos comove uma criança em fuga, um hospital bombardeado ou uma família inteira forçada a viver no exílio? Quantas guerras nos passam ao lado porque não nos “afetam diretamente”? E que evangelho é o nosso, se não é também um evangelho de paz?

Informar-se é já um ato de resistência. Rezar é já uma forma de comunhão com os que sofrem. Escrever, denunciar, contribuir, participar — são gestos pequenos, mas concretos, que colocam o amor em movimento. O cristão não pode tudo, mas também não pode tudo ignorar.

A paz que a Igreja proclama não é neutra nem sentimental. É uma paz exigente, feita de escolhas. E começa aqui: em que lado escolhemos estar quando o mundo insiste em esquecer?

RRP.


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Rafael Ribeiro Pereira

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