PEREGRINAR À TERRA SANTA É ENCONTRAR O CORAÇÃO DA FÉ CRISTÃ, MAS TAMBÉM CONFRONTAR-SE COM AS FERIDAS ABERTAS DA GUERRA, DA OCUPAÇÃO E DA DESUMANIZAÇÃO. UM APELO URGENTE À JUSTIÇA, À ORAÇÃO E À RESPONSABILIDADE

A Terra Santa não é apenas um lugar de memória, mas um sacramento de presença. Foi ali que Deus entrou na história com rosto e voz. As ruas de Nazaré, as margens do Jordão, os caminhos de Jerusalém são mais do que geografia — são geologia da fé. Cada pedra fala, cada ruína recorda, cada olival murmura uma promessa antiga. Ali Deus não falou por enigmas, mas por gestos, lágrimas, pão e sangue.
Contudo, esse mesmo chão sagrado — berço das três grandes religiões monoteístas — é hoje um palco de dor, conflito e injustiça. A atual situação na Faixa de Gaza, com milhares de mortos civis, infraestruturas destruídas, uma crise humanitária devastadora e o sofrimento de um povo condenado à marginalização, interpela-nos diretamente. O recente confronto entre Israel e o Irão agrava ainda mais um cenário onde o medo se tornou rotina e a esperança, quase subversão.
Visitar a Terra Santa é, por isso, um ato profundamente espiritual, mas também um gesto político e ético. Não se trata de tomar partidos ideológicos ou simplificar realidades complexas. Trata-se, sim, de escutar a Palavra no lugar onde ela foi dita — e perceber que o Verbo continua a ser crucificado nos corpos dos inocentes. A Terra Santa é um Evangelho aberto, mas também uma chaga aberta.
Como cristãos, somos herdeiros da promessa de paz feita por Jesus em Jerusalém. Mas essa paz, no coração do Médio Oriente, está longe de ser uma realidade. Muros dividem bairros, checkpoints humilham a dignidade humana, famílias são separadas, crianças nascem em campos de refugiados sem jamais conhecerem liberdade. A Terra onde se ouviu “Paz a esta casa” tornou-se casa de guerra. E nós, que celebramos a Eucaristia sobre os mesmos gestos da Última Ceia, como podemos ficar indiferentes?
A nossa fé exige ação. Rezar pela Terra Santa é o primeiro passo. O segundo é informar-se, escutar as vozes silenciadas — dos cristãos palestinianos às comunidades judaicas que resistem à violência, dos diplomatas que trabalham na sombra aos franciscanos que cuidam de pedras e pessoas. O terceiro passo é o compromisso. Apoiar iniciativas de paz, sensibilizar a opinião pública, denunciar a lógica da vingança que mata sempre duas vezes: primeiro, o outro; depois, a nossa humanidade.
Neste momento histórico, é essencial reconhecer que a Terra Santa é símbolo de algo maior: o conflito entre a lógica do domínio e a lógica do dom. Entre a força militar e a força da verdade. Entre o ódio tribal e o amor universal. A guerra entre Israel e o Irão, ainda que à distância, não pode ser vista como inevitável. A escalada bélica não é destino — é opção. E enquanto cristãos, devemos optar pela paz, mesmo quando ela parece utopia. Afinal, o próprio Cristo foi chamado louco por amar os inimigos.
A Terra Santa continua a ser, como dizia Paulo VI, “a quinta evangelha”. Mas também é o calvário da nossa consciência. Peregrinar até ela — física ou espiritualmente — é escutar o clamor de todos os que ainda hoje são perseguidos, desalojados, invisibilizados. O Deus da Encarnação continua a fazer-se presente onde há sofrimento humano. E o nosso silêncio, quando diante da injustiça, também é um tipo de crucificação.
Rezemos por Jerusalém. Pelos cristãos da Palestina. Pelos judeus que desejam a paz. Pelos muçulmanos que sonham com justiça. Pela reconciliação entre os povos. Porque a Terra Santa não é apenas um lugar — é um apelo. Um grito. Um sacramento. E um juízo sobre a forma como amamos.
RRP.
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