UMA PALAVRA, MUITAS HISTÓRIAS

quando uma palavra transporta um mundo
Entre as muitas palavras que surgem nas conversas sobre o Médio Oriente, poucas despertam reacções tão intensas como “sionismo”. Para uns, evoca o renascimento de um povo na sua terra ancestral; para outros, representa colonialismo, exclusão e conflito. Contudo, por detrás da carga emocional e política que hoje a envolve, o sionismo nasceu como uma ideia profundamente enraizada numa dor histórica: a do exílio.
Neste artigo, propomos uma reflexão sobre o significado do sionismo, as suas raízes históricas e culturais, os seus desdobramentos políticos e os dilemas éticos que nos coloca à luz da Doutrina Social da Igreja e do compromisso cristão com a justiça e a paz.
O que significa “sionismo”?
A palavra “sionismo” deriva de “Sião” (ou Sion), um dos nomes bíblicos da colina onde se ergue Jerusalém. Mais do que um lugar geográfico, Sião tornou-se símbolo do coração espiritual do povo judeu, da promessa de regresso e da esperança messiânica.
O sionismo moderno surgiu no final do século XIX como um movimento político e ideológico que visava a criação de um Estado judeu independente na Terra de Israel (então parte do Império Otomano). Foi uma resposta ao crescente anti-semitismo na Europa, às perseguições na Rússia czarista e à exclusão social sentida mesmo em países aparentemente “liberais”.
O seu principal impulsionador foi Theodor Herzl, jornalista austríaco e autor do livro Der Judenstaat (O Estado Judeu), publicado em 1896.
Sionismo: um movimento plural
Contrariamente à ideia de um movimento monolítico, o sionismo sempre foi diverso:
- Sionismo secular: via o regresso à Terra de Israel como uma forma de emancipação política e nacional, muitas vezes desligado da religião;
- Sionismo religioso: defendia o retorno como cumprimento das promessas bíblicas, mas acreditava que esse regresso deveria acontecer segundo a vontade de Deus;
- Sionismo socialista: desejava um Estado judeu baseado em valores igualitários e comunitários (ex. kibbutzim);
- Sionismo revisionista: mais nacionalista, liderado por figuras como Jabotinsky, e antecessor do actual partido Likud.
Esta diversidade interna ajuda a compreender os diferentes rumos que Israel tomou ao longo do século XX.
O impacto do sionismo: da promessa à ocupação
Em 1948, após o Holocausto e sob os auspícios da ONU, foi proclamado o Estado de Israel. Para muitos judeus, foi a concretização de um sonho secular: um porto seguro. Para os palestinianos que viviam naquelas terras, foi o início da Nakba — a catástrofe — marcada pela expulsão de mais de 700 000 pessoas, a destruição de aldeias e a fragmentação de uma identidade nacional.
Desde então, o sionismo deixou de ser apenas uma ideia de “regresso” e passou a representar uma realidade geopolítica, muitas vezes sustentada por:
- Ocupações militares (Cisjordânia);
- Colonatos ilegais segundo o Direito Internacional;
- Políticas discriminatórias;
- Cercas, muros e bloqueios.
É por isso que, hoje, muitos grupos — sobretudo no Sul Global — rejeitam o sionismo como ideologia, associando-o a apartheid, colonialismo e racismo institucionalizado.
Pode um cristão ser sionista?
É uma pergunta delicada. Alguns cristãos evangélicos, sobretudo nos Estados Unidos, defendem um sionismo cristão que vê no regresso dos judeus a Israel o cumprimento de profecias bíblicas. No entanto, essa posição ignora frequentemente o sofrimento do povo palestiniano, incluindo os cristãos que ali vivem há séculos.
A Igreja Católica, sobretudo desde o Concílio Vaticano II (Nostra Aetate, 1965), aprofundou a sua relação com o povo judeu, reconhecendo a aliança que Deus jamais revogou. Mas também sublinhou a missão universal de paz, justiça e dignidade humana — incluindo a dos palestinianos.
O Papa Francisco, e agora o Papa Leão XIV, têm reforçado esta mensagem de equilíbrio: defesa da existência e segurança de Israel, sim; mas também do direito dos palestinianos a viverem em liberdade, dignidade e com um Estado próprio.
Sionismo e Doutrina Social da Igreja: um diálogo possível?
A Doutrina Social da Igreja (DSI) propõe princípios claros para julgar situações históricas:
- Dignidade da pessoa humana;
- Bem comum;
- Solidariedade e subsidiariedade;
- Opção preferencial pelos pobres e excluídos;
- Respeito pelo Direito Internacional.
Se o sionismo foi, no seu início, uma luta por autodeterminação num mundo hostil, os seus desdobramentos actuais precisam de ser confrontados com os critérios da DSI. A perpetuação da ocupação, o uso desproporcionado da força, a colonização de terras alheias, a desigualdade sistemática entre cidadãos judeus e não-judeus em Israel — tudo isto não pode ser ignorado por quem professa a fé cristã.
desatar os nós da história
O sionismo não é uma palavra neutra. É uma história carregada de dor e de esperança, de promessas e de contradições. Compreendê-la exige escuta, coragem e discernimento.
Como cristãos, somos chamados a não repetir slogans, mas a procurar a verdade que liberta — e a defender a justiça com compaixão. Porque se “Sião” é um símbolo de esperança para o povo judeu, também o é para todos os que sonham com uma Jerusalém onde a paz e a justiça se abraçam, e todos os povos podem viver como irmãos.
RRP.
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