A MEMÓRIA COMO RESISTÊNCIA E A LIBERDADE COMO VOCAÇÃO

A PRAÇA E O SILÊNCIO
No dia 4 de junho de 1989, o mundo acordou com imagens de uma praça manchada de sangue e marcada por tanques. Na Praça Tiananmen, em Pequim, milhares de estudantes, trabalhadores e cidadãos anónimos que exigiam liberdade, democracia e dignidade foram brutalmente silenciados pelo regime chinês. A resposta do Partido Comunista foi a repressão armada. As estimativas do número de mortos variam entre centenas e milhares. O que permanece indelével é o silêncio forçado, a censura contínua e a recusa em reconhecer a verdade.
Hoje, 35 anos depois, assinalamos esta memória como um ato de resistência ética. Não apenas em nome das vítimas daquele dia, mas por todos os que continuam a ser perseguidos por pensarem diferente, por sonharem com um mundo mais justo ou por se colocarem do lado dos mais frágeis. A memória é, aqui, uma forma de fidelidade e um imperativo moral.
TIANANMEN E A ESPERANÇA QUE BROTA DO CLAMOR
Os jovens que se reuniram em Tiananmen não tinham armas. Tinham cartazes, gritos, poemas. O que pediam era um país mais justo, menos corrupto, com liberdade de imprensa e de expressão. Muitos levavam na mão a Constituição da República Popular da China, exigindo que fosse cumprida. Acusavam, sim, mas sonhavam. Denunciavam, mas propunham. A sua esperança brotava do desejo de um bem comum mais amplo do que o proposto pelo sistema.
O símbolo mais icónico daquele tempo — o “homem do tanque” (Tank Man) — continua a inquietar o mundo. Um homem sozinho, sem nome, sem arma, de pé diante de uma coluna de tanques. Um testemunho silencioso de que a dignidade humana pode resistir, mesmo diante do esmagamento da força bruta.
CRISTINANISMO, CONSCIÊNCIA E LIBERDADE
Como cristãos, não podemos esquecer Tiananmen. A Doutrina Social da Igreja ensina-nos que a liberdade é dom e responsabilidade (cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 135). Onde quer que a dignidade humana seja violada, a Igreja é chamada a erguer a sua voz — ainda que em sussurro — e a manter acesa a chama da verdade. O silêncio cúmplice, mesmo a milhares de quilómetros, é também uma forma de colaboração com a opressão.
Recordar Tiananmen não é apenas fazer memória de um passado longínquo. É olhar com lucidez para o presente: a repressão à liberdade religiosa na China, a vigilância permanente dos cidadãos, a situação dos cristãos e das minorias étnicas (como os uigures), a ausência de liberdade de imprensa, a instrumentalização da educação.
É também um apelo à Igreja na Europa e no mundo ocidental para que não se cale por interesses económicos. A profecia cristã exige coragem. E a coragem hoje é, muitas vezes, a capacidade de lembrar o que o mundo quer esquecer.
TIANANMEN E A NOSSA MISSÃO HOJE
Vivemos num tempo em que as redes sociais promovem o esquecimento rápido. A lógica do “scroll” empurra-nos para o imediato, para a distração. Por isso, parar para recordar Tiananmen é um exercício contra a amnésia cultural e espiritual. É dizer: “Isto aconteceu. Isto continua a acontecer. E eu não me posso calar.”
Enquanto cristãos e cidadãos, somos chamados a formar consciências, a promover a liberdade interior e exterior, a exigir que a política esteja ao serviço do bem comum e não da propaganda. E, acima de tudo, somos chamados à compaixão ativa: aquela que, como o Samaritano do Evangelho, não passa ao lado da dor, mas se aproxima, cuida, denuncia e transforma.
LUZES QUE NÃO SE APAGAM
Tiananmen continua interdito na China. As autoridades censuram qualquer menção ao acontecimento. Mas no coração de quem viu, rezou, lutou ou simplesmente chorou, aquela noite permanece viva. E há algo de profundamente evangélico nisto: quando a verdade é perseguida, torna-se ainda mais luminosa. Quando a justiça é abafada, ganha o grito dos mártires. E quando a liberdade é negada, a fé torna-se semente de resistência.
Neste aniversário, deixemos uma vela acesa, um texto publicado, uma oração elevada. Que o sangue de Tiananmen não tenha sido derramado em vão. Que a liberdade continue a ser a nossa vocação comum.
RRP.
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