
Siwar Ashour, uma bebé palestiniana de seis meses que se tornou um símbolo da crise humanitária em Gaza. A sua história foi amplamente divulgada por meios de comunicação internacionais, incluindo a BBC e The Guardian, devido à sua condição crítica de desnutrição severa.
“Estão a matar crianças à fome em Gaza, porque não queremos saber?” – a pergunta, crua e direta, dá o título ao episódio do podcast Expresso da Manhã desta terça-feira, e devia ecoar no íntimo de todas as consciências. A resposta, infelizmente, não é menos dura: há uma inércia moral e política que permite que este genocídio silencioso continue. E é urgente nomeá-lo como tal.
A fome como arma de guerra
Segundo a Organização Mundial da Saúde, pelo menos 57 crianças morreram de fome na Faixa de Gaza desde março de 2025. Estas mortes não são tragédias acidentais: resultam de um bloqueio sistemático à entrada de alimentos, medicamentos e água potável. A fome está a ser usada como arma de guerra. E, como denuncia a ONU, trata-se de uma campanha “intencional e direcionada”.
A investigadora Joana Ricarte, convidada do episódio, recorda que a catástrofe humanitária em Gaza é hoje uma realidade deliberadamente produzida e sustentada, numa região onde quase meio milhão de pessoas vive já em insegurança alimentar catastrófica, o nível mais extremo deste índice.
O rosto do sofrimento: as crianças
A UNICEF aponta que mais de um milhão de crianças estão sem acesso a qualquer tipo de ajuda humanitária há mais de um mês. Os números são esmagadores: quase 10 mil bebés com menos de seis meses necessitam de fórmula láctea, mas apenas 400 podem ser alimentados com os recursos existentes. Os restantes estão condenados.
Mas estas crianças têm nome, rosto e história. Não são estatísticas.
Hoje, destaco uma entre elas: Siwar Ashour, uma bebé palestiniana de apenas seis meses, internada no hospital Nasser, em Khan Younis. Siwar nasceu com 2,5 kg e sofre de uma condição esofágica que a impede de se alimentar normalmente. Necessita de fórmula especializada – que não existe em Gaza. A mãe, Najwa, está grávida e enfrenta, sozinha, a fome, o medo e a incerteza. Foram deslocadas várias vezes por bombardeamentos. Dormem onde podem. Vivem com o que resta. Sobrevivem porque ainda não morreram.
Siwar não é apenas um símbolo. É um apelo à nossa humanidade.
Quando é que a ONU declara oficialmente “fome”?
A classificação internacional utilizada para identificar situações de fome extrema é feita pelo sistema IPC (Integrated Food Security Phase Classification), coordenado por várias agências da ONU. Para que uma situação seja formalmente declarada como “fome” (Fase 5 do IPC), dois dos três critérios seguintes têm de estar reunidos:
- Desnutrição aguda severa em mais de 30% da população (especialmente medida em crianças com emaciação grave);
- Taxa de mortalidade bruta superior a 2 mortes por 10.000 pessoas por dia;
- Consumo alimentar extremamente limitado, abaixo do mínimo calórico diário necessário, com recurso a estratégias extremas de sobrevivência.
Segundo os dados recolhidos em Gaza:
- A desnutrição aguda entre crianças ultrapassa os 30% em várias regiões;
- A taxa de mortalidade infantil já é crítica, sobretudo no Norte do território;
- A maioria da população vive com menos de 2 alimentos por dia, frequentemente pão seco, água e sal.
Todos os critérios estão presentes. Contudo, por razões políticas, a ONU ainda não declarou formalmente a “fome” em Gaza. Este silêncio institucional, tantas vezes condicionado por vetos e diplomacias de conveniência, só agrava a injustiça.
O silêncio dos bons
A pergunta que mais fere neste episódio não é sobre os factos. É sobre a nossa indiferença. O que é que nos fez aceitar este nível de sofrimento como “inevitável”? Por que razão permitimos que a narrativa oficial normalize a punição coletiva de civis?
Será porque as vítimas são palestinianas? Porque são muçulmanas? Porque não pertencem ao nosso “mundo ocidental”?
O Papa Francisco, desde o início da guerra, denunciou com coragem a desproporcionalidade da resposta militar israelita. E agora o Papa Leão XIV reitera esse compromisso com a paz e com o direito internacional. Mas onde estão os restantes líderes? Onde estão as Nações?
Servir é não ficar calado
Escrever este artigo para o Serviens é, acima de tudo, um ato de testemunho. Não se trata de tomar partidos ideológicos, mas de escolher o lado da humanidade. A fome provocada é crime. A morte das crianças é intolerável. O silêncio cúmplice é imperdoável.
Se o mundo católico acredita no Evangelho da vida, então tem de erguer a voz. Tem de pressionar, denunciar, agir. Porque servir – no mundo acelerado de hoje – significa também recusar a indiferença.
Nota final:
As vítimas desta guerra não são estatísticas. Têm nome, rosto e história. Que este artigo possa ser mais do que um apelo: que seja um grito, um espelho, uma centelha. A fé que não se traduz em compaixão e justiça, não é fé. É fachada.
RRP.
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