LIBERDADE DE EXPRESSÃO OU LIBERDADE DE OFENSA?

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Homem em terno e gravata se afastando de uma estátua da Virgem Maria em frente a um santuário.

QUANDO O HUMOR SE ESQUECE DO RESPEITO

A liberdade de expressão é uma conquista civilizacional. Garante que cada pessoa possa exprimir as suas ideias, interpelar o poder, fazer rir, denunciar injustiças e contribuir para o bem comum. Mas, como todas as liberdades, carrega consigo uma responsabilidade: a de não ferir gratuitamente, de não usar a palavra como arma contra a dignidade dos outros. E é precisamente nesse ponto que reside o problema quando, em nome do humor, se ultrapassam limites básicos do respeito.

Foi isso que aconteceu com Ricardo Araújo Pereira, esta semana, num dos episódios do seu programa de sátira política. A pretexto das celebrações do 13 de maio, e da habitual crítica ao espaço público e à classe política, decidiu usar o hino de Fátima — símbolo religioso de milhões de crentes em Portugal e no mundo — para o transformar em veículo de escárnio. Escárnio tanto da fé como de um político em particular.

Não se tratou apenas de liberdade criativa. Tratou-se de um gesto profundamente desrespeitador para com os católicos e para com a própria matriz espiritual e cultural do país. A ironia poderá ser subtil, mas o desprezo foi explícito.

É legítimo satirizar políticos. É até necessário. Mas usar um símbolo litúrgico e devocional para enxovalhar não é sátira, é abuso. Não se combate o ridículo com mais ridículo, nem a má política com a profanação da fé. Quando o humor se alimenta daquilo que é mais íntimo e sagrado para o povo, o que temos não é liberdade — é arrogância.

E, sejamos claros: o que se passou não teria tido espaço se o alvo fosse um cântico islâmico, um salmo judaico, ou um símbolo de outra confissão religiosa. Não por censura — que ninguém deseja —, mas porque há medo, respeito ou pelo menos contenção. Só a fé católica parece, em certos círculos, estar aberta à zombaria permanente, como se fosse um alvo fácil e inofensivo. Isso diz mais da cultura dominante do que da Igreja.

A fé não precisa que o Estado a defenda. Mas os crentes têm o direito de exigir respeito. E esse respeito começa por não fazer daquilo que é sagrado uma piada de ocasião.

A espiritualidade de Fátima, independentemente da adesão de cada um às aparições ou ao culto mariano, é um dos traços mais significativos da identidade religiosa portuguesa. É um lugar de reencontro, de consolo, de esperança. Não é um palco. E muito menos um guião de programa de entretenimento.

Este episódio serve para nos recordarmos de que a liberdade de expressão não é a liberdade de humilhar. E de que quem faz humor tem também a responsabilidade de saber onde termina o riso e começa a ofensa. Em nome da fé, da cultura e da convivência democrática, importa dizer — com firmeza e sem hesitações — que há fronteiras que não devem ser ultrapassadas.

Fátima é de todos. Mas sobretudo daqueles que lá vão de joelhos, com o coração ferido, à procura de paz. E isso merece mais do que troça. Merece silêncio, ou no mínimo, respeito.

RRP.


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Sobre o autor

Rafael Ribeiro Pereira

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4 Comentários

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  • Não me parece , que existe aqui uma falta de respeito, pelo o “hino de Fátima”, apesar de achar , que humor têm destas coisas! Não sejamos tão piegas!!! Quando sabemos que o Povo de Gaza está a ser silenciado e assinado (genocídio) pelos terroristas do governo israelita, e o povo israelita nada faz , onde anda o seu DEUS! Que tanto apelam! O genocídio ao povo palestiniana , deveria a igreja católica tomar uma posição de força! E porque não o faz?!

    • Caro Aires Esteves,

      Muito obrigado pela sua mensagem e por partilhar connosco o seu ponto de vista.

      A diversidade de opiniões é fundamental para um verdadeiro espaço de reflexão, como é o propósito do Blog Serviens. Agradeço o seu contributo e convido-o a continuar a interagir connosco com a sua análise crítica, que é sempre bem-vinda e enriquecedora para o debate público e eclesial.

      Quanto ao conteúdo da sua mensagem, permito-me apenas sublinhar que, independentemente das sensibilidades pessoais, é legítimo questionarmos os limites do humor quando este toca o que para muitos é sagrado. Não se trata de pieguice, mas de reconhecer que também o humor tem responsabilidade ética — sobretudo num tempo em que se ridiculariza facilmente a fé dos outros, mas se exige respeito absoluto por outras sensibilidades.

      Relativamente ao drama em Gaza, partilho da sua indignação e da dor perante o sofrimento atroz de tantas crianças, mulheres e homens. Já escrevi sobre esse tema noutros artigos e subscrevo que a Igreja deve ter uma voz profética mais clara e corajosa, sempre em defesa da dignidade humana e dos mais frágeis. A voz do Evangelho não pode calar-se diante de nenhum genocídio, venha ele de onde vier.

      Conto com a sua presença por aqui. Um abraço fraterno,
      Rafael Ribeiro Pereira
      Serviens

      • Vou ler com toda atenção, os artigos que se encontram mais abaixo!
        Não vou deixar de dar a minha opinião, “vale o que vale”.
        Com os meus respeitosos cumprimentos
        Aires Esteves

        • Caro Aires Esteves,

          Muito obrigado, uma vez mais, pela sua presença atenta e pela generosa partilha da sua opinião e reflexão.
          É precisamente esse espírito de diálogo e participação que desejamos cultivar no Serviens — um espaço onde a escuta e o pensamento crítico se encontram ao serviço da verdade e do bem comum.

          Ficarei com atenção à sua leitura e comentário sobre os artigos. A sua opinião, “valendo o que vale”, como diz com humildade, é sempre bem-vinda e enriquecedora.

          Se sentir que faz sentido, convido-o também a partilhar este projeto com outros — para que mais pessoas possam juntar-se a este caminho de reflexão e serviço.

          Com os meus respeitosos cumprimentos,
          Rafael Ribeiro Pereira

Rafael Ribeiro Pereira

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