O CAMINHO PARA A PAZ MUNDIAL

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É TEMPO DE VIRAGEM E NÃO DE CONVENIÊNCIAS

Há palavras que se esvaziam de tanto serem repetidas. Paz é uma delas. Todos a desejam, poucos a praticam, e menos ainda os que a defendem com verdade. Num mundo onde o grito dos inocentes é abafado pelo ruído dos interesses, precisamos mais do que bons sentimentos — precisamos de líderes que não temam ser primus inter pares: primeiros não no privilégio, mas na responsabilidade.

Um tempo de viragem… ou de adiamento?

Com o falecimento recente do Papa Francisco, o mundo perdeu uma voz clara e corajosa em favor dos pobres e da paz. No entanto, Leão XIV, seu sucessor, não hesitou em fazer da paz o coração da sua primeira mensagem ao mundo. Na homilia da Eucaristia de inauguração, transmitida para todo o globo, deixou uma afirmação que ecoa como programa de pontificado: “Só uma Igreja unida pode ajudar a pacificar o mundo”.

Esta frase simples, mas exigente, convida os católicos — e todos os crentes — a rejeitar divisões internas, clericalismos ou polarizações ideológicas, para se tornarem verdadeiramente artífices de reconciliação.

O novo Papa recupera também o espírito profético da Rerum Novarum, de Leão XIII, ao lembrar que não pode haver paz sem justiça social — uma paz que se construa nas fábricas, nos campos, nas fronteiras, nos parlamentos e nas consciências. A justiça é o nome concreto da paz.

ONU: entre a diplomacia e a impotência

A Organização das Nações Unidas nasceu para impedir uma nova guerra mundial. Mas, nos dias que correm, o seu papel tem oscilado entre a inércia burocrática e a diplomacia simbólica. António Guterres tem sido uma voz presente, sim — mas frequentemente prisioneiro da linguagem do equilíbrio, que tenta agradar a todos e acaba por servir de muito pouco aos que mais sofrem.

Quando crianças morrem à fome diante dos olhos do mundo, como em Gaza ou no Sudão, não basta “apelar à paz” ou “lamentar profundamente”. A ONU deveria ser um grito de denúncia, não um eco de prudência. Quando um dos seus próprios funcionários denuncia genocídio e a organização responde com silêncio institucional, que paz é essa que se promove?

A verdade é dura, mas precisa de ser dita: a paz não se constrói com resoluções arquivadas ou com conferências de imprensa; constrói-se com decisões. E se os mecanismos internacionais estão capturados por interesses geopolíticos, então é hora de os reformar ou de criar novas instâncias éticas globais.

Primus inter pares: liderar com verdade

Num tempo em que muitos se escondem atrás de consensos estéreis, o mundo precisa de lideranças éticas que se exponham, arrisquem e resistam. Não nos referimos a heróis isolados, mas a líderes que compreendem que servir a paz é combater a injustiça com frontalidade.

Onde estão os presidentes e primeiros-ministros que recusam comprar armas de regimes opressores? Onde estão os bispos e pastores que levantam a voz perante os silêncios cúmplices das suas comunidades? Onde estão os empresários que recusam lucrar com o sofrimento humano? Onde estão os jornalistas que não dobram a pena ao politicamente correto?

Ser primus inter pares hoje é ter coragem de denunciar o cinismo político, mesmo dentro das nossas instituições. É defender a vida, a dignidade, a justiça social, mesmo quando isso custa protagonismo, patrocínio ou carreira.

A paz começa no concreto

A paz não é um conceito filosófico nem um tema decorativo em cimeiras internacionais. Começa com decisões locais: acolher quem vem de fora, recusar discursos de ódio, exigir transparência e justiça, cuidar da Casa Comum. Como recordava o Papa Francisco, “tudo está interligado”. E como proclama Leão XIV: “Só uma Igreja unida pode ajudar a pacificar o mundo”.

É tempo de líderes que falem pouco e façam muito. Que não se escondam em neutralidades cobardes nem em sentimentalismos inócuos. É tempo de um novo pacto global pela paz — não assinado em salões dourados, mas tecido na lama das periferias, no suor dos trabalhadores e na esperança dos jovens.

RRP.


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Rafael Ribeiro Pereira

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