A ENCÍCLICA QUE PODERIA TER MUDADO O RUMO DA HISTÓRIA

Fevereiro de 1939. A Europa vivia à beira do abismo. O Terceiro Reich consolidava o seu poder e o antissemitismo tinha-se tornado lei na Alemanha, empurrando milhares de judeus para a perseguição e para o exílio. Em Roma, um Papa doente e já com quase oitenta e um anos sentia o peso do tempo e o peso da História. Pio XI, que governara a Igreja durante dezassete anos, sabia que estava a chegar ao fim do seu pontificado. Mas não queria partir sem deixar ao mundo uma última palavra. Sobre a sua secretária, na biblioteca privada do Vaticano, repousava o texto daquela que seria a sua derradeira encíclica: Humani Generis Unitas – A Unidade do Género Humano.
Este documento, elaborado com o auxílio de três jesuítas – entre eles o padre John LaFarge1, conhecido pelo seu combate ao racismo nos Estados Unidos – tinha uma força moral incomum. Nele, o Papa pretendia proclamar, de forma clara e sem ambiguidades, que todos os homens são criados à imagem e semelhança de Deus e, por isso, iguais em dignidade. Condenava o racismo e o antissemitismo como pecados que ofendem o Criador e desfiguram a fraternidade humana. Era uma resposta direta às ideologias totalitárias que se espalhavam pela Europa, ao culto da raça superior e às perseguições que já se faziam sentir.
O pontificado de Pio XI tinha sido marcado por uma firme oposição às ditaduras do seu tempo. Já em 1931, denunciara a opressão fascista na encíclica Non Abbiamo Bisogno2. Em 1937, surpreendera o mundo ao publicar Mit Brennender Sorge3, uma denúncia sem precedentes do nazismo, redigida em alemão e lida clandestinamente em todas as paróquias da Alemanha. Na mesma semana, assinara Divini Redemptoris4, condenando o comunismo ateu. Pio XI não temia chamar as coisas pelos nomes, mesmo quando isso provocava represálias e tensão diplomática. Humani Generis Unitas seria o coroar desta coragem, o seu testamento espiritual.
O anúncio estava marcado: no dia 11 de fevereiro de 1939, o Papa receberia o corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé e, segundo os seus colaboradores, iria pronunciar um discurso que retomaria muitos pontos desta encíclica, numa condenação pública e solene do racismo. Mas não chegou a fazê-lo. Na véspera, a 10 de fevereiro, Pio XI morreu subitamente, deixando o documento por assinar. A encíclica ficou guardada numa gaveta, e a sua voz profética foi silenciada pela morte.
A eleição do seu sucessor, o Cardeal Eugenio Pacelli, que assumiu o nome de Pio XII, trouxe uma mudança de tom. Conhecedor como poucos da situação europeia e dos perigos que pairavam sobre milhões de católicos na Alemanha e nos territórios ocupados, Pacelli optou por uma diplomacia de silêncio prudencial, privilegiando canais discretos de negociação e ajuda humanitária. O texto de Humani Generis Unitas não foi promulgado. Alguns historiadores veem nesta decisão uma oportunidade perdida: uma condenação mais explícita poderia ter encorajado uma resistência católica mais firme ao nazismo e salvo ainda mais vidas. Outros defendem que, num contexto tão delicado, um gesto tão ousado poderia ter agravado as represálias contra católicos e judeus.
Décadas depois, quando o texto foi finalmente divulgado pelos arquivos jesuítas, ficou clara a visão de Pio XI: a Igreja tinha de erguer a voz, mesmo quando o mundo preferia calar-se. A encíclica perdida, ainda que nunca promulgada, tornou-se símbolo da luta por uma consciência cristã que não pactua com a exclusão nem com o ódio. O que ela pretendia proclamar – a igualdade fundamental de todos os homens e a rejeição de qualquer ideologia que divida ou destrua – continua a ser uma mensagem urgente para o nosso tempo.
Hoje, perante o regresso de nacionalismos agressivos, discursos de ódio e guerras que ceifam vidas inocentes, a história de Humani Generis Unitas continua a interpelar-nos. Talvez o documento nunca assinado seja, paradoxalmente, ainda mais eloquente: recorda-nos que o Evangelho exige coragem profética, e que a oportunidade de dizer a verdade não deve ser adiada. Como diria o Papa Francisco, “ninguém se salva sozinho” – e é precisamente a unidade do género humano que continua a ser a base para qualquer paz duradoura.
RRP.
Ecos de Pio XI:
“A raça humana forma uma só comunidade, porque um só é o seu Criador, e todos têm o mesmo fim último em Deus.”
Excerto de Humani Generis Unitas, 1939
“Não podemos ser neutros quando a dignidade do homem é negada. O silêncio seria uma forma de cumplicidade.”
Palavras de Pio XI a colaboradores próximos, janeiro de 1939
“Mit Brennender Sorge” (1937): “Quem eleva a raça, ou o povo, ou o Estado, ou uma determinada forma de Estado, ou os representantes do poder estatal, a um nível supremo de valor… perverte e falsifica a ordem criada e imposta por Deus.”
Pio XI
Estas palavras, agora conhecidas, mostram como a Igreja, através de Pio XI, procurou manter acesa a luz da consciência cristã num tempo de trevas.
Notas de Rodapé:
- O Pe. John LaFarge, S.J. (1880–1963) foi um jesuíta norte-americano, filho de um general unionista da Guerra Civil dos EUA. Reconhecido pelo seu trabalho pastoral junto de comunidades afro-americanas, foi um dos pioneiros no combate ao racismo na Igreja Católica nos Estados Unidos. Autor de obras sobre justiça racial e editor da America Magazine, LaFarge foi pessoalmente escolhido por Pio XI para redigir o esboço da encíclica Humani Generis Unitas. A sua vida e escritos tornaram-no uma referência para a reflexão católica sobre direitos civis e dignidade humana. ↩︎
- Non Abbiamo Bisogno (“Não Temos Necessidade”), publicada a 29 de junho de 1931, dirigida ao episcopado italiano. Nela, o Papa denuncia a perseguição às organizações católicas pelo regime fascista de Benito Mussolini e reafirma a liberdade da Ação Católica. É considerada um dos documentos mais incisivos do magistério pontifício contra o totalitarismo, antecedendo outras intervenções de Pio XI contra o nazismo (Mit Brennender Sorge, 1937) e o comunismo (Divini Redemptoris, 1937). ↩︎
- Mit Brennender Sorge (“Com viva preocupação”), publicada a 14 de março de 1937, redigida originalmente em alemão e dirigida aos bispos da Alemanha. Denuncia as violações do Reichskonkordat por parte do regime nazi, condena o neopaganismo, o racismo e a idolatria do Estado, reafirmando a dignidade da pessoa humana e a liberdade da Igreja. Foi lida em segredo em todas as paróquias alemãs num único domingo, gesto que teve enorme impacto. ↩︎
- Divini Redemptoris (“Do Divino Redentor”), publicada a 19 de março de 1937, que condena o ateísmo militante e o comunismo marxista como sistemas incompatíveis com a fé cristã e com a dignidade humana. O documento exorta à caridade social, à justiça e à promoção de uma ordem cristã que respeite os direitos de Deus e da pessoa. ↩︎
Discover more from Serviens
Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Obrigada