UMA PRAÇA DE SÃO PEDRO QUE JÁ NÃO EXISTE: O MUNDO PERDIDO DE UM POSTAL ESQUECIDO

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Uma fotografia antiga, a preto e branco, mostra a Praça de São Pedro com a Basílica ao fundo, enquadrada pela imponente colunata. Na praça, vê-se um elétrico e várias pessoas a circular, captando a vida quotidiana da Roma do início do século XX.

Guardo uma fotografia que sempre me cativou um olhar especial: um postal antigo, de papel espesso, ligeiramente amarelecido pelo tempo. À primeira vista, a Praça de São Pedro parece igual à que conhecemos hoje — mas basta olhar com atenção para perceber que não é. Esta é uma Praça de São Pedro desaparecida, de um tempo em que o Vaticano ainda respirava dentro da Roma antiga e popular.

No canto inferior da imagem surge algo absolutamente impensável nos dias de hoje: um elétrico. Durante algumas décadas — entre o final do século XIX e os anos 20 do século XX — os elétricos romanos circulavam mesmo em frente à colunata de Bernini. Eram veículos comuns, parte do sistema de transportes da cidade, que atravessavam sem cerimónia aquele espaço que nós, hoje, reconhecemos quase exclusivamente como lugar de peregrinação. A presença dos carris, das pessoas que sobem e descem, dos trabalhadores que empurram carrinhos ou conversam ao fundo da praça, devolve-nos um quotidiano que perdeu o direito de existir naquele lugar a partir da década de 1930.

A fotografia, embora não capte diretamente, relembra também algo que desapareceu para sempre: as casas que ladeavam a praça e que se estendiam até ao Castel Sant’Angelo, demolidas entre 1936 e 1950 para abrir a Via della Conciliazione. Antes dessa grande operação urbanística, o caminho para a Basílica fazia-se por um labirinto de ruelas estreitas, oficinas, pequenas lojas e edifícios de habitação. Nada disso sobreviveu. Hoje, onde há uma ampla avenida cerimonial, existiu outrora um pedaço vibrante da cidade.

O postal é provavelmente dos anos 1910 a 1925, impresso em Itália por um dos mais conhecidos editores de postais fotográficos da época — Lami — cujo selo ainda se lê no verso. Faz parte daqueles postais que turistas, peregrinos e estudantes compravam enquanto percorriam a Europa e tentavam fixar, em imagem, uma experiência viva que as palavras raramente conseguiam conter.

No verso, alguém escreveu à mão uma breve síntese histórica, com a caligrafia inclinada típica do início do século XX. O autor — desconhecido, mas certamente culto — recorda que o obelisco no centro da praça foi trazido do Egipto por ordem de Calígula e que o Papa Sixto V o reposicionou, em 1586, no local onde permanece até hoje. Menciona também o enorme esforço financeiro da construção da Basílica e as críticas que esse esforço alimentou na época da Reforma. É uma nota concisa, como se o autor quisesse registar, no pequeno espaço de um postal, a descoberta feita no próprio lugar.

Mas talvez o que mais surpreenda neste postal não sejam os factos históricos — que conhecemos — mas a forma como a fotografia e a anotação se iluminam mutuamente. Numa só imagem convivem o peso dos séculos, a grande arquitetura da Cristandade e o movimento simples das pessoas que usavam aquele espaço como parte da vida diária. A monumentalidade e o quotidiano, lado a lado.

É justamente essa convivência que a imagem devolve: uma Praça de São Pedro ainda integrada na cidade, cruzada por trabalhadores, mães, religiosos, crianças e passageiros de um elétrico que passa sem imaginar que está a entrar numa fotografia que um dia se tornará documento histórico.

E, ao vê-la hoje, percebemos algo que só o tempo permite compreender: não há lugar, por mais simbólico que seja, que não tenha sido também cenário de vidas comuns. Foi essa mistura — o extraordinário e o habitual — que fez da Praça de São Pedro um espaço tão singular ao longo da história.

Ao olhar para este postal esquecido, não encontramos apenas nostalgia. Encontramos, sobretudo, um convite sereno a contemplar como cada época deixa marcas diferentes nos mesmos lugares. E como, por vezes, uma fotografia de cem anos pode abrir uma porta discreta para um mundo que já não existe, mas que continua a iluminar o nosso olhar sobre o presente.

RRP.


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Rafael Ribeiro Pereira

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