AS ANTENAS DO SILÊNCIO

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A RÁDIO FREE EUROPE, GLÓRIA DO RIBATEJO E OS 75 ANOS DA GUERRA PELA VERDADE

Duas pessoas em uma reunião, com um mapa da Europa e a logo da Rádio Free Europe ao fundo, representando discussões sobre a Guerra Fria.
Dwight D. Eisenhower, o presidente dos EUA entre 1953 e 1961, em visita a sede da RFE/RL. FONTE: RFE / RL (RFERL.ORG)

Há 75 anos, nascia uma das armas mais discretas e eficazes da Guerra Fria: a Rádio Free Europe (RFE). Criada em 1949 para quebrar o monopólio da propaganda soviética nos países do bloco de Leste, a RFE transmitia, pelas ondas curtas, notícias livres, comentários independentes e programas culturais censurados atrás da Cortina de Ferro. Mas o que poucos portugueses sabem é que uma das suas maiores bases de apoio fora da Alemanha se encontrava… em Glória do Ribatejo. Um pequeno povoado ribatejano tornou-se, em segredo, um dos centros nervosos da batalha global pela informação.


Um projecto americano para conquistar corações e mentes

Fundada com o apoio do National Committee for a Free Europe, a RFE começou a emitir em 1950 para países como a Polónia, Hungria, Bulgária, Roménia e Checoslováquia. Em 1953, nascia a Rádio Liberty, focada em emissões dirigidas à União Soviética. Ambas seriam financiadas secretamente pela CIA até meados dos anos 70, altura em que passaram a ser geridas de forma mais transparente pelo Congresso dos EUA.

O objectivo era claro: oferecer uma alternativa informativa aos cidadãos de regimes comunistas, promovendo os ideais de liberdade, democracia e pluralismo. Mas ao contrário do que muitos imaginam, a RFE não era uma simples caixa de ressonância da propaganda americana. Vários jornalistas exilados, escritores perseguidos e intelectuais dissidentes colaboraram com a rádio, oferecendo uma programação rica, culturalmente relevante e frequentemente mais credível do que os meios ocidentais tradicionais.


Glória do Ribatejo: um segredo bem guardado

Foi em 1951, no auge da Guerra Fria, que os Estados Unidos firmaram com o regime de Salazar um acordo estratégico para instalar em Portugal uma das maiores estações de retransmissão da RFE. A escolha recaiu sobre Glória do Ribatejo, no concelho de Salvaterra de Magos – uma região com excelente propagação de sinal em ondas curtas, clima estável e, acima de tudo, politicamente alinhada com o Ocidente.

O complexo, rodeado de antenas metálicas com mais de 100 metros de altura, operava num silêncio quase absoluto. Oficialmente, era uma “estação de radiocomunicações internacionais”. Na prática, tratava-se de uma infraestrutura de guerra psicológica. A sua importância era tal que, nos anos 60 e 70, a estação portuguesa retransmitia mais de 300 horas semanais de programação em dezenas de idiomas.

Pouco se dizia, muito se suspeitava. A população local, entre a curiosidade e o receio, via chegar técnicos estrangeiros, escutava ruídos misteriosos à noite e testemunhava medidas de segurança pouco comuns. A vigilância da PIDE era constante, mas o regime português, apesar de censurador e autoritário, beneficiava do apoio americano – nomeadamente financeiro e militar – e por isso tolerava (e protegia) a operação da RFE em território nacional.


As vozes que incomodavam o Kremlin

As emissões da RFE tornaram-se uma obsessão para os regimes comunistas, que tudo fizeram para as silenciar: tentaram interferências de sinal, espionagem, ameaças aos ouvintes identificados, e chegaram mesmo a cometer atentados. O mais notório ocorreu em 1981, quando a sede da rádio em Munique foi alvo de um ataque com explosivos coordenado por Carlos, o Chacal, a mando da Securitate romena.

Na URSS e nos seus satélites, sintonizar a RFE podia valer prisão ou represálias. E no entanto, milhões arriscavam. A voz da RFE chegava com atraso, com interferências e, por vezes, com perigos – mas chegava. Era uma janela para o mundo exterior, uma esperança de liberdade num tempo de sombras.


O fim do segredo e o legado deixado

A queda do Muro de Berlim e o colapso do bloco soviético levaram ao desmantelamento de muitas infraestruturas da Guerra Fria. A estação de Glória do Ribatejo foi desativada em 1996, encerrando um capítulo silencioso da história portuguesa. Em 2004, as imponentes antenas foram demolidas, deixando no solo um vazio físico, mas também simbólico.

Hoje, parte das instalações foi recuperada como espaço museológico e educativo (Centro Interpretativo da Rádio e das Comunicações), aberto ao público e com a missão de preservar a memória de uma era em que a verdade tinha de ser contrabandeada via ondas de rádio.


E agora? A guerra da informação continua

A Rádio Free Europe/Radio Liberty não desapareceu. Continua ativa, agora com sede em Praga, emitindo para mais de 20 países onde a liberdade de imprensa está sob ameaça: Irão, Afeganistão, Rússia, Bielorrússia, entre outros. A sua missão mantém-se: fornecer informação factual, independente e acessível em ambientes hostis ao jornalismo livre.

O conflito na Ucrânia reacendeu a relevância da RFE. Nos últimos anos, a rádio tem combatido a desinformação do Kremlin com reportagens locais, entrevistas a refugiados e fact-checking em tempo real. Uma guerra moderna, travada não com armas, mas com palavras e ondas invisíveis.


Conclusão: as vozes da liberdade ecoam ainda

Setenta e cinco anos depois da sua fundação, a Rádio Free Europe continua a ser um símbolo de resistência informativa. Portugal, terra de censura durante o Estado Novo, foi, paradoxalmente, um dos pilares dessa resistência internacional. A pequena Glória do Ribatejo foi, durante décadas, um dos locais mais importantes do mundo para quem procurava ouvir – literalmente – a verdade.

Num tempo em que as guerras se travam nas redes sociais, em algoritmos e campanhas de desinformação, o legado da RFE recorda-nos que a liberdade começa por aquilo que escutamos… e que escolhemos acreditar.

RRP.


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Rafael Ribeiro Pereira

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