SREBRENICA: A MEMÓRIA, A RECONCILIAÇÃO E A MISSÃO DA IGREJA

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Foto: Armin Durgut/AP/picture alliance.

Passaram trinta anos desde que, entre os dias 11 e 16 de julho de 1995, mais de 8.000 homens e rapazes bósnios muçulmanos foram sistematicamente assassinados pelas forças sérvias da Bósnia no enclave de Srebrenica, então sob a proteção das Nações Unidas. Este massacre, conduzido sob a liderança do general Ratko Mladić, foi reconhecido como genocídio pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia e pelo Tribunal Internacional de Justiça. É considerado o episódio mais negro em solo europeu desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Apesar do tempo decorrido, as feridas permanecem abertas. Mais de 900 vítimas continuam desaparecidas. Muitas famílias nunca puderam enterrar os seus entes queridos. Outras vivem ainda sob o peso da negação – promovida, paradoxalmente, por setores da sociedade e do poder que se recusam a reconhecer a verdade dos factos e a justiça das sentenças.

UMA MEMÓRIA QUE INTERPELA

Recordar Srebrenica não é um exercício nostálgico, nem um ato político. É um imperativo moral. É olhar de frente para o mal – aquele que é planeado, executado e depois escondido ou negado. Como bem recordou o padre Dražen Kustura, porta-voz da arquidiocese de Sarajevo, “Srebrenica é um lembrete de quanta dor os seres humanos podem infligir uns aos outros quando estão cheios de ódio”.

Mas é também – e deve ser – uma lição: para as gerações futuras, para as comunidades religiosas, para as nações e para cada um de nós. O esquecimento seria uma segunda morte para as vítimas. A distorção dos factos, um insulto à sua memória. A negação do genocídio, um risco real de repetição.

O DESAFIO DA RECONCILIAÇÃO

A Igreja Católica na Bósnia-Herzegovina tem assumido um papel ativo na reconstrução moral do país, promovendo o diálogo, a paz e a justiça. Desde os primeiros anos após a guerra, os bispos alertaram para os perigos de uma paz injusta, que legitimasse a limpeza étnica ou desconsiderasse as vítimas. “A única forma moralmente aceitável de resolver os desacordos é o diálogo”, afirma o padre Kustura.

Iniciativas como o projeto “Caminhar Juntos”, do Centro de Pastoral Juvenil João Paulo II, revelam o compromisso concreto da Igreja: juntar jovens católicos, ortodoxos e muçulmanos, não em torno de slogans, mas de experiências comuns de vida, desporto, educação e serviço.

Num país marcado pela segregação e pela instrumentalização da identidade religiosa, estes gestos são sementes de uma verdadeira reconciliação. E fazem eco daquilo que o Evangelho nos pede: ser artesãos da paz, construtores de pontes, testemunhas da misericórdia.

A EUROPA NÃO PODE CALAR

O genocídio de Srebrenica não é apenas uma tragédia dos Balcãs. É uma ferida da Europa. E, como europeu e cristão, não posso deixar de me interrogar: como foi possível que tudo isto acontecesse sob os olhos das Nações Unidas? Que papel teve o silêncio da comunidade internacional? E, sobretudo, que lições tirámos, ou fingimos tirar?

A Assembleia Geral das Nações Unidas decidiu, em 2024, proclamar o dia 11 de julho como Dia Internacional de Reflexão e Memória do Genocídio de Srebrenica. É um gesto importante. Mas a memória verdadeira exige compromisso. Não basta condenar o passado; é preciso prevenir o futuro. E isso passa por educar para os direitos humanos, combater a xenofobia, promover a justiça internacional e garantir que as vítimas de todos os conflitos sejam ouvidas.

A MISSÃO DO CRISTÃO NO MUNDO FERIDO – UMA REFLEXÃO PESSOAL

Como cristão comprometido com a construção do bem comum, este aniversário de Srebrenica faz-me pensar na nossa missão neste mundo ferido. A justiça não é apenas um conceito jurídico; é uma exigência do Evangelho. A paz não é ausência de guerra, mas presença de verdade, de reconhecimento e de reconciliação.

A Igreja tem um papel insubstituível na cura das feridas da história. Mas também cada um de nós tem essa missão: não repetir o erro de ser cúmplice por omissão; não aceitar a distorção da verdade por conveniência; não deixar que o ódio se torne banal.

Srebrenica lembra-nos que o mal existe – mas que também é possível resistir-lhe, enfrentá-lo e vencê-lo com o bem. Que Maria, Rainha da Paz, interceda por todos os que choram ainda os seus mortos, e que nos ajude a sermos homens e mulheres de compaixão, verdade e esperança.

RRP.

Fontes consultadas:

  • Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (TPIJ)
  • Tribunal Internacional de Justiça (TIJ)
  • Fundação AIS – Ajuda à Igreja que Sofre
  • Amnistia Internacional
  • Assembleia Geral da ONU (resolução de 2024)
  • Entrevista do padre Dražen Kustura, arquidiocese de Sarajevo

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Rafael Ribeiro Pereira

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