UM PADRE, UM HOMEM, UMA DOR: QUANDO A IGREJA PRECISA DE PARAR PARA ESCUTAR

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Padre Matteo Bonzano, da diocese de Novara.

Chamava-se Matteo Bonzano. Era padre, tinha 43 anos, servia como vigário paroquial numa aldeia italiana e suicidou-se no final de junho. Não era famoso, não tinha presença nas redes sociais, não escrevia artigos nem dava entrevistas. Era simplesmente um padre a servir o povo de Deus num canto do mundo. E agora está morto.

Não por doença terminal. Não por acidente. Não por martírio. Mas porque, um dia, a dor foi mais forte do que a esperança — e não havia ninguém suficientemente próximo, ou suficientemente livre, para o segurar.

A sua morte não devia passar em silêncio. E muito menos ser instrumentalizada. Mas também não pode ser engavetada como “mais uma tragédia pessoal”. Porque quando um padre se suicida, a Igreja inteira é chamada a parar. A escutar. A chorar. E a mudar.

O PESO INVISÍVEL DO CLÉRIGO INVISÍVEL

Vivemos, na Igreja, tempos paradoxais. Queremos padres disponíveis, alegres, bem formados, disponíveis 24/7, evangelizadores, gestores, celebrantes, confessores, companheiros de caminho, terapeutas, sociólogos, celebrantes de festas populares e, claro, obedientes e discretos.

MAS QUEM CUIDA DOS CUIDADORES?

Quem pergunta — não na teoria, mas na vida concreta — como está aquele sacerdote que vive sozinho, longe da família, cercado de exigências e expectativas, com a sua própria história de feridas, traumas, sonhos adiados e lutas não resolvidas?

Quantas vezes um padre ouve, explicitamente ou não: “não te queixes, foste tu que escolheste este caminho”?

Quantas vezes, ao sinal de exaustão ou tristeza, se responde com piedosas recomendações: “reza mais”, “oferece a cruz”, “confia na providência”?

Quantas vezes se encobre a depressão com linguagem espiritual? Quantas vezes se esconde a solidão com o ativismo pastoral?

Quantas vezes o Evangelho é transformado num placebo para evitar terapias que realmente salvam?

A CORAGEM RARA DE UM BISPO QUE DISSE A VERDADE

Neste caso, o bispo de Novara fez aquilo que muitos não fazem: disse a verdade.

Não inventou um enfarte. Não escondeu os factos sob o manto do “respeito pela família”.

Falou claro. E ao fazê-lo, não desonrou a memória do Pe. Matteo. Pelo contrário: impediu os rumores, deu o sinal certo a tantos padres em sofrimento e abriu um espaço para a reflexão honesta.

Porque o suicídio de um padre é também responsabilidade da comunidade eclesial que o formou, o enviou e, tantas vezes, o deixou sozinho.

A TEOLOGIA DO CUIDADO AINDA NÃO CHEGOU AOS PRESBITÉRIOS

O Papa Francisco e agora também o Papa Leão XIV falam de uma necessária “revolução do cuidado”. Bonito. Verdadeiro. Urgente.

Mas onde está essa revolução quando um presbítero, em sofrimento profundo, é enviado a um psicólogo “de confiança da diocese”?

Como se a alma humana pudesse ser tratada por alguém indicado por um sistema que o próprio paciente teme.

Onde está a liberdade interior que permite dizer: “não estou bem”, “preciso de ajuda”, “não aguento”?

E onde está a comunidade cristã — leigos e consagrados — que não idealiza os seus padres como super-homens da fé?

Os padres não são super-homens. São homens. Ponto.

REVER A FORMAÇÃO. REVER O MODELO. REVER A LINGUAGEM. REVER TUDO

A morte do Pe. Matteo é, tristemente, mais um alerta entre muitos que a Igreja prefere não escutar.

A formação seminarística continua, em muitas dioceses, presa a esquemas formatadores que não preparam para a vida real.

A espiritualidade oferecida é, por vezes, infantil, mágica, desligada da carne, do corpo, do inconsciente, da história pessoal.

A linguagem da obediência pode asfixiar. A imposição do silêncio pode matar.

E a idealização da vocação como “dom absoluto” ou “sacrifício heroico” pode, sem querer, conduzir muitos padres a um beco sem saída.

Quantos mais terão de cair para que o modelo seja repensado com verdade, humildade e coragem?

NÃO É VERGONHA PEDIR AJUDA. VERGONHA É OBRIGAR ALGUÉM A CALAR-SE

A maior homenagem que podemos fazer ao Pe. Matteo Bonzano não é canonizá-lo nem explicar a sua dor com frases espirituais.

É perguntar-nos seriamente: quem ao nosso lado pode estar a viver o mesmo?

E que cultura eclesial estamos a reproduzir — como padres, leigos, bispos, religiosos — que torna o pedido de ajuda num tabu?

Em nome da verdade do Evangelho, não podemos continuar a romantizar a dor, a sacramentalizar o sofrimento ou a esconder os mortos.

O Reino de Deus é feito de vida em abundância.

E um padre que escolhe morrer é sempre um grito — último, trágico e sagrado — de que ainda há muito, mesmo muito, por fazer.

Descansa em paz, Matteo.

Agora é a nossa vez de acordar.

RRP.


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