QUE HUMANIDADE É ESTA?

Este artigo não nasce do nada. Infelizmente, é a continuação de vários textos que tenho vindo a escrever nos últimos meses sobre o horror que se abate sobre Gaza. Cada linha que redijo sobre este tema custa. Custa porque carrega a impotência de quem assiste, a vergonha de quem pertence a uma humanidade que continua a permitir o indizível, e a revolta de quem já não encontra justificações éticas ou políticas para tanta passividade.
Gaza não é um tema: é uma ferida aberta. Um escândalo à escala global. Um apelo ensurdecedor à consciência adormecida da humanidade.
O horror ao vivo e a cores
Desde outubro de 2023, Gaza transformou-se num cenário de devastação metódica. Bombardeamentos diários, hospitais reduzidos a escombros, crianças soterradas, bairros inteiros arrasados. Mais de 35 mil mortos. Um sistema de saúde colapsado, fome, sede, desespero. E a comunidade internacional? Limitada a “expressar preocupações”. A diplomacia tornou-se um ritual vazio enquanto a morte se multiplica. Gaza tornou-se um laboratório da impunidade.
Onde está o poder dos Estados?
É legítimo — e urgente — perguntar: onde está o poder dos Estados para travar isto? Porque não se impõem sanções severas? Porque não se age com a firmeza com que se age noutros cenários? A resposta é desconcertante: o poder existe, mas falta-lhe a vontade. O direito internacional foi sequestrado pelos interesses geoestratégicos. As instituições que deveriam proteger os fracos tornaram-se reféns dos fortes.
E o que sobra é isto: a inoperância das Nações Unidas, o cinismo diplomático, a hesitação moral do Ocidente. E a máquina de guerra continua, alimentada por armas, apoios e silêncio.
E nós, afinal?
E nós, cidadãos deste mundo, onde estamos? Que silêncio cúmplice é o nosso? Que desculpas alimentamos para continuar a viver confortavelmente, como se a dor dos palestinianos não nos dissesse respeito?
A desumanização dos palestinianos é uma arma tão eficaz como os mísseis. E a nossa indiferença é o combustível dessa arma. Assistimos, em direto, à destruição de um povo — e nem sempre temos a coragem de lhe chamar pelo nome: genocídio.
Sim, somos todos responsáveis. Porque permitimos que a narrativa dominante continue a justificar o injustificável. Porque continuamos a votar em governos que mantêm alianças com quem bombardeia populações civis. Porque fechamos os olhos em nome de uma falsa neutralidade que mata tanto quanto as armas.
Desentalar a consciência
Escrevo este texto como um gesto de fidelidade à memória dos que já não têm voz. Mas também como uma tentativa de desentalar a consciência. De fazer doer. De sacudir a apatia. Porque o primeiro passo para mudar qualquer coisa é deixar-se afetar.
Não nos resignemos. Não nos deixemos anestesiar. Gaza não precisa da nossa piedade — precisa da nossa coragem. Da nossa indignação. Da nossa denúncia. Do nosso compromisso.
A história está a ser escrita. Um dia, alguém perguntará: onde estavas tu quando Gaza morria? Que fizeste? Que disseste?
Este artigo é a minha resposta. Que cada um escreva a sua.
RRP.
Discover more from Serviens
Subscribe to get the latest posts sent to your email.
