QUANDO DEUS SE DÁ A VER E TOCAR

“Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu!”
Lucas, 24, 39
A teofania – manifestação visível de Deus – percorre toda a história bíblica: a sarça ardente diante de Moisés (Ex 3), o trovão e o fogo no Sinai (Ex 19), o sussurro no Horeb (1Rs 19), o relâmpago do Tabor (Mt 17). Mas nenhuma manifestação de Deus é tão radical, tão desconcertante e tão amorosamente próxima como aquela que se dá na Ressurreição de Jesus Cristo.
O Ressuscitado é o mesmo Crucificado
A Ressurreição não anula a Cruz, transfigura-a. Quando Jesus aparece aos discípulos, fá-Lo com as marcas da Paixão. As chagas não desaparecem: são glorificadas. Deus não apaga a história, salva-a. Não renega a carne, assume-a até ao fim.
Neste sentido, a teofania do Ressuscitado não é uma evasão do mundo visível, mas uma radicalização da presença de Deus na história humana. O corpo glorioso de Cristo é o sinal mais pleno de que Deus não abandona a matéria, não despreza a dor, nem desiste da humanidade.
O Ressuscitado manifesta-se de forma nova
Nas aparições pascais, vemos algo notável: Jesus é O mesmo, mas os discípulos têm dificuldade em reconhecê-Lo. Maria Madalena pensa que é O jardineiro. Os discípulos de Emaús apenas O reconhecem ao partir do pão. Tomé só acredita quando toca.
Esta ambiguidade é profundamente reveladora. O Ressuscitado não Se impõe pela evidência sensível, mas convida a um olhar novo, a uma escuta mais atenta, a uma fé que atravessa o véu da aparência. A teofania do Ressuscitado exige conversão do olhar.
Uma presença que transforma o medo em missão
Os Evangelhos descrevem os discípulos reunidos “com as portas fechadas, por medo dos judeus” (Jo 20,19). Jesus entra, mesmo com as portas trancadas. A Sua presença não se impõe pelas condições externas, mas pelo dom da paz. “A paz esteja convosco.”
A teofania do Ressuscitado é, por isso, um acontecimento pascal por excelência: onde havia medo, nasce coragem; onde havia dúvida, brota fé; onde havia luto, irrompe alegria. Esta manifestação não é para ser contemplada passivamente, mas acolhida como envio: “Ide e fazei discípulos”. Ver o Ressuscitado é tornar-se testemunha.
O Ressuscitado continua a dar-se a ver
Hoje, a teofania do Ressuscitado continua a acontecer. Ele revela-Se na Eucaristia, nos sacramentos, na Palavra, nos pobres, e sobretudo na comunidade reconciliada.
Mas há outro lugar onde o Ressuscitado Se manifesta – ou melhor, onde deseja ardentemente manifestar-Se – e onde tantas vezes continua oculto: nos cenários de sofrimento e morte. Aí, a fé pascal é provada até ao limite.
Gaza, Ucrânia, Sudão: onde está o Ressuscitado?
Ouvimos estas perguntas tantas vezes: onde está Deus quando tudo arde? Onde está Cristo enquanto civis são massacrados? Onde está a Ressurreição entre escombros, valas comuns e campos de refugiados?
A resposta pascal não é uma explicação, mas uma presença. O Ressuscitado traz no corpo glorioso as marcas do sofrimento. Ele não vem apagar a dor do mundo, mas redimi-la desde dentro. A Ressurreição não é um escape, mas uma promessa firme de que o mal não tem a última palavra.
Em Gaza, entre os que choram os seus mortos. Na Ucrânia, nos que resistem em nome da liberdade. No Sudão, entre crianças famintas e mulheres em fuga. No Congo, no Haiti, em tantos outros lugares esquecidos, o Ressuscitado continua a dizer: “Sou Eu. Não temais. A paz esteja convosco.”
Ver o Ressuscitado hoje exige ver com os olhos dos crucificados. Acreditar n’Ele é recusar a indiferença. A Sua teofania obriga-nos a sair das zonas de conforto e a fazer da nossa fé uma resposta ativa: na solidariedade, na denúncia da injustiça, na construção paciente da paz.
Epílogo: olhos novos para ver Cristo vivo
A teofania do Ressuscitado não é uma visão para alguns privilegiados, mas um convite permanente a viver com os olhos abertos da fé. A cada manhã, Ele passa junto ao nosso túmulo, como junto ao de Maria Madalena, e chama-nos pelo nome. A cada partida de pão, Ele revela-Se. A cada gesto de amor gratuito, Ele ressurge no meio de nós.
Que os nossos olhos O saibam reconhecer. Que o nosso coração O saiba acolher. E que a nossa vida, pacificada e ardente, seja também ela manifestação viva de que Cristo está verdadeiramente Ressuscitado — mesmo onde tudo parece perdido.
RRP.
Serviens – Fé que serve, esperança que se compromete.
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