Quando a Fé nos Obriga a Não Ficarmos Calados

Vivemos tempos em que o silêncio, tantas vezes, se disfarça de prudência. Mas há silêncios que nos comprometem, e há momentos em que a única fidelidade possível ao Evangelho é levantar a voz.
Recentemente, a bispa episcopaliana Mariann Budde, de Washington D.C., deu ao mundo um exemplo notável de coragem cristã. Diante do recém-empossado presidente dos Estados Unidos, num momento em que políticas ameaçavam os direitos dos imigrantes e da comunidade LGBTQ+, não hesitou em pedir-lhe misericórdia — olhos nos olhos, do púlpito da catedral. Não falou como ativista política, mas como mulher de fé, consciente da dignidade de todos e da centralidade da compaixão no coração do cristianismo.
O que torna este gesto tão relevante não é o seu impacto mediático, mas a sua simplicidade convicta. Como a própria Mariann Budde afirmou: “Foi um sermão teologicamente claro, quase nada espetacular.” E, no entanto, foi precisamente isso que o tornou tão poderoso. Porque a verdadeira coragem não se exibe, vive-se. É, como ela bem diz, “um músculo silencioso que treinamos todos os dias”.
Ser cristão, hoje, implica coragem. Mas não aquela coragem heroica de grandes feitos isolados — implica, antes, a persistência em viver com coerência. Perdoar quando é mais fácil vingar-se. Ficar quando o mundo inteiro nos diz para partir. Denunciar a injustiça mesmo quando isso nos custa. Estar ao lado dos mais frágeis, mesmo quando isso nos torna impopulares ou desconfortáveis. Em suma: agir de acordo com os nossos valores éticos e cristãos, com firmeza e humildade.
Não posso deixar de me questionar: onde é que precisamos, hoje, de mais coragem? Talvez na política, onde a verdade é muitas vezes sacrificada em nome da conveniência. Talvez nas nossas comunidades, onde tantos ainda se sentem invisíveis.
Mas mais do que procurar culpados ou esperar por heróis, é urgente reconhecer que esta coragem começa em nós. E começa no quotidiano: quando defendemos a dignidade de quem é marginalizado, quando escutamos antes de julgar, quando escolhemos o bem mesmo que ele nos custe.
Como cristãos, não somos chamados a ser neutros. Somos chamados a ser sal da terra e luz do mundo. A sermos testemunhas. A sermos, muitas vezes, uma “voz que clama no deserto”. E isso exige uma coragem serena, fundamentada na fé e no compromisso com a verdade.
Que o exemplo de Mariann Budde nos inspire. Não porque ela seja uma heroína — como ela própria recusa —, mas porque nos mostra que a fé, quando vivida com autenticidade, obriga-nos a levantar a voz. Mesmo que com medo. Mesmo que com consequências.
Porque há momentos em que o silêncio trai. E há sempre um momento certo para falar.
RRP.
Pequena Nota Biográfica de Mariann Edgar Budde:
Mariann Edgar Budde é bispa da Igreja Episcopal (a vertente anglicana nos Estados Unidos) e, desde 2011, exerce o cargo de bispa da Diocese Episcopal de Washington, que inclui a Catedral Nacional de Washington D.C.
Teóloga respeitada, é conhecida pela sua visão progressista e pelo compromisso com questões sociais e de justiça. Ganhou destaque internacional em janeiro de 2025, ao dirigir uma homilia firme ao presidente Donald Trump durante a sua tomada de posse, apelando à misericórdia pelos imigrantes e pela comunidade LGBTQ+. Tem-se pronunciado publicamente em defesa dos direitos humanos, da dignidade de todas as pessoas, e do papel da fé na transformação social. É autora do livro How We Learn to Be Brave: Decisive Moments in Life and Faith (2023), recentemente traduzido na Alemanha como Mutig Sein (“Ser Corajoso”), onde reflete sobre a coragem cristã à luz de episódios da sua vida pessoal e pastoral.
Mariann Budde representa uma liderança eclesial que alia convicção teológica, ação profética e sensibilidade pastoral, sendo um exemplo contemporâneo de como a fé pode — e deve — confrontar o poder em nome da dignidade humana e da justiça.
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Gostei de alguns trechos da sua pregação.
Muito obrigado
Um abraço fraterno e obrigado por caminhar desse lado.