NA SUA PRIMEIRA EXORTAÇÃO APOSTÓLICA, DILEXI TE, O PAPA LEÃO XIV NÃO APRESENTA UM PROGRAMA, MAS UM GESTO: O AMOR QUE SE TORNA PRESENÇA. NUM MUNDO CANSADO DE DISCURSOS, A IGREJA É CONVIDADA A REDESCOBRIR O PERFUME SILENCIOSO DA TERNURA

O primeiro texto de um Papa é sempre mais do que um documento — é um espelho do mundo em que é escrito. Leão XIV escolheu começar o seu pontificado com uma imagem de silêncio e beleza: o perfume derramado por uma mulher anónima sobre os pés de Cristo. Nenhum programa, nenhuma agenda, nenhum manifesto. Apenas um gesto gratuito. Assim nasce Dilexi te, a primeira exortação apostólica do novo Papa: uma meditação sobre o amor que resiste à lógica do cálculo e do proveito.
Num tempo em que o mundo volta a sentir o cheiro do medo — nas fronteiras em guerra, nas casas que se fecham, nas famílias exaustas — Leão XIV recorda que o cristianismo começou com um gesto inútil aos olhos do mundo. Um gesto de desperdício. “O amor que não serve para nada”, escreve, “é o que mais se aproxima de Deus”. E é nesse paradoxo que o Papa lê o Evangelho: o amor verdadeiro é sempre um excesso.
A mulher de Betânia não sabia que o seu perfume atravessaria séculos. Assim também os gestos silenciosos de amor quotidiano — o professor que continua a ensinar numa localidade esquecida, a enfermeira que acompanha um doente sem família, o voluntário que escuta sem pressa — são hoje o tecido escondido que sustenta o mundo. A exortação não fala deles por nome, mas fala deles por essência: são o rosto concreto do amor que Leão XIV propõe à Igreja reencontrar.
Dilexi te não é um tratado sobre a pobreza; é um retrato de humanidade. O Papa descreve várias formas de pobreza: a material, mas também a cultural, a espiritual e a emocional. Há pobreza nas periferias urbanas, mas também nos escritórios de vidro e nos ecrãs luminosos onde muitos vivem sozinhos em rede. “O pobre de hoje”, escreve Leão XIV, “é aquele a quem o mundo retirou a possibilidade de ser escutado.” Essa frase poderia aplicar-se a um migrante sem documentos, a um idoso isolado num apartamento ou a uma criança que cresce sem tempo nem atenção.
A força da exortação está precisamente em fazer ver o invisível. O Papa convida-nos a olhar o mundo sem pressa, a reconhecer nas suas feridas a presença de Cristo. E é por isso que o seu texto soa diferente: há menos denúncia e mais contemplação; menos urgência política e mais fidelidade ao humano. Ele não propõe uma estratégia para resolver a pobreza, mas uma conversão interior que nos permita ver Deus onde o mundo já desistiu de olhar.
A opção pelos pobres, lembra Leão XIV, não é um ideal filantrópico: é o centro da fé cristã. Num tempo que idolatra o sucesso e mede o valor das pessoas pela produtividade, o Papa devolve dignidade à vulnerabilidade. A fé torna-se estéril quando deixa de tocar o sofrimento humano — e talvez seja essa a grande tentação do nosso século: acreditar que podemos amar à distância.
O estilo de Leão XIV é diferente do de Francisco, mas o sopro é o mesmo. Francisco falava com o vigor profético dos gestos; Leão fala com a serenidade do silêncio. Ambos, porém, pedem à Igreja que volte a ser casa aberta — num mundo em que as casas se tornaram fortalezas. O novo Papa escreve como quem acende uma luz no meio do cansaço global: a Igreja só será fiel ao Evangelho se o seu coração bater ao ritmo dos que sofrem.
Na verdade, Dilexi te é menos um texto e mais um espelho. Ao lê-lo, cada leitor é convidado a perguntar-se onde está o seu próprio Betânia: em que lugares concretos o amor se torna real? No acolhimento de um refugiado? No perdão que custa? Na atenção a quem perdeu voz? Talvez o desafio seja esse: descobrir o perfume derramado nas periferias de hoje, onde o Evangelho continua a cheirar a humanidade.
O documento termina sem proclamações triunfais. Apenas um convite: “Amai como fostes amados.” O amor, diz o Papa, é o único poder capaz de reconstruir o mundo quando todas as estruturas falham. Não é um sentimento — é uma decisão de permanecer. E quando o amor permanece, volta a ter corpo.
Com Dilexi te, Leão XIV não inaugura apenas um pontificado: inaugura um modo de ver. Convida-nos a atravessar o ruído do tempo com olhos limpos, mãos abertas e um coração que ainda acredita que o amor, mesmo quando parece inútil, continua a ser a força mais real do mundo.
RRP.
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É sempre dúvida uma grande obra. O nosso mundo precisa deste perfume do amor.