PALESTINA: COMPREENDER PARA RECONCILIAR

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Pôr do sol sobre o Mar da Galileia, com águas refletindo tons alaranjados e nuvens no céu.

Quem sobe ao Monte das Oliveiras, em Jerusalém, ou contempla o pôr do sol sobre o Mar da Galileia, percebe de imediato que esta terra é mais do que um simples território: é um lugar onde história, fé e política se cruzam a cada passo. Mas quando, nos noticiários, ouvimos a palavra Palestina, de que falamos exatamente? Gaza? Cisjordânia? Jerusalém? Um povo? Um Estado? A confusão é frequente, e é por isso que importa regressar aos factos.

O nome Palestina é antigo. Heródoto, já no século V antes de Cristo, mencionava uma “Síria palestiniana”. Mais tarde, após a revolta judaica contra Roma em 135 d.C., o imperador Adriano decidiu apagar a designação de Judeia e rebatizou a província como Syria Palaestina. Foi um gesto político, destinado a diluir a ligação do povo judeu à terra. Desde então, ao longo dos séculos bizantinos, árabes, cruzados e otomanos, a palavra foi usada de formas diversas, mas sempre reconhecida como referência a uma região concreta.

No século XX, a designação adquiriu peso político renovado. O Mandato Britânico da Palestina (1920–1948), confiado à Grã-Bretanha pela Sociedade das Nações, abrangia o território entre o Mediterrâneo e o Jordão. Em 1921, a Transjordânia foi destacada e deu origem ao atual Reino da Jordânia. O restante território — incluindo Israel, a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém — permaneceu sob administração britânica até 1948. Nesse ano, após a Resolução 181 da ONU, que propunha a partilha em dois Estados, nasceu Israel, mas o Estado árabe palestiniano nunca chegou a concretizar-se. Seguiu-se a guerra, o êxodo de centenas de milhares de refugiados e a redefinição das fronteiras.

Em 1967, a Guerra dos Seis Dias levou Israel a ocupar a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Gaza, entre outras áreas. A ONU respondeu com a Resolução 242, exigindo a retirada dos territórios ocupados e o reconhecimento do direito de todos os Estados da região a viverem em paz. Desde então, as chamadas “fronteiras de 1967” tornaram-se referência para qualquer negociação de paz.

Mas afinal, quais são os territórios que compõem a Palestina de hoje? A Cisjordânia (ou West Bank) é uma região montanhosa a oeste do rio Jordão, onde vivem cerca de três milhões de palestinianos. Desde os Acordos de Oslo, encontra-se dividida em Áreas A, B e C, mas em mais de metade do território (Área C) Israel mantém controlo total, com centenas de colonatos considerados ilegais pelo direito internacional. A Faixa de Gaza, estreita e densamente povoada, junto ao Mediterrâneo, albergou mais de dois milhões de pessoas em apenas 365 km², vivendo sob bloqueio desde 2007, quando o Hamas assumiu o poder após confrontos com a Fatah. Apesar da retirada de colonos e bases militares em 2005, Israel continuou a controlar o espaço aéreo, marítimo e as fronteiras, pelo que Gaza é juridicamente considerada território ocupado. Jerusalém Oriental, anexada por Israel em 1980, não é reconhecida internacionalmente como parte do Estado israelita e continua a ser reclamada como futura capital palestiniana. Estes três espaços — Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental — constituem o núcleo do chamado Território Palestiniano Ocupado.

A situação em Gaza merece hoje uma menção particular. Desde outubro de 2023, após os ataques do Hamas em Israel e a resposta militar massiva, a Faixa de Gaza enfrenta a mais grave crise humanitária da sua história recente. Bombardeamentos intensos destruíram bairros inteiros, hospitais e escolas; mais de um milhão de pessoas foram deslocadas internamente; e a ONU alerta para níveis alarmantes de fome, escassez de água potável e colapso do sistema de saúde. Para além da catástrofe humanitária, Gaza tornou-se símbolo do bloqueio político em que se encontra a questão palestiniana: um território fechado, governado de facto pelo Hamas, mas habitado por uma população civil que paga diariamente o preço da guerra, da pobreza e da ausência de horizonte político.

Falar da Palestina é, portanto, falar de três dimensões em simultâneo. É falar de um povo, composto por muçulmanos, cristãos e outras minorias, que vive na terra e na diáspora, com identidade própria e direito à autodeterminação. É falar de um território reconhecido pela ONU como ocupado, fragmentado por muros, postos de controlo e assentamentos. E é falar de um Estado proclamado em 1988, reconhecido por mais de 140 países e com estatuto de observador nas Nações Unidas desde 2012.

Importa ainda desfazer equívocos frequentes. Não é verdade que Palestina seja apenas Gaza. Não é verdade que nunca tenha existido: embora não tenha havido um Estado-nação moderno com esse nome, a palavra designou uma região real durante séculos. Não é verdade que Gaza esteja “livre” desde 2005: o bloqueio e o controlo efetivo mantêm-se. Não é verdade que os colonatos sejam apenas uma disputa política: são considerados ilegais pelo Conselho de Segurança. E não é verdade que os palestinianos não tenham representação: desde 1974, a OLP (Organização de Libertação da Palestina) é reconhecida como a sua voz legítima.

Tudo isto pode ser resumido numa linha do tempo que ajuda a não perder o fio: uso antigo do nome Palestina desde Heródoto e Roma no séc. II; Mandato Britânico de 1920 a 1948; Resolução 181 da ONU em 1947; nascimento de Israel em 1948 e primeira guerra; ocupação de 1967 e Resolução 242; reconhecimento da OLP em 1974; Acordos de Oslo nos anos 1990; divisão da Cisjordânia em Áreas A, B e C; tomada de Gaza pelo Hamas em 2007; reconhecimento do Estado da Palestina na ONU em 2012; reforço dos seus direitos em 2024; reconhecimento formal recente por países europeus.

A Palestina não é, pois, um mito. É um nome histórico consolidado, é um povo real, é um território juridicamente reconhecido como ocupado e é também um projeto de Estado parcialmente realizado no plano diplomático, mas não no terreno. Compreender a Palestina é mais do que situar-se num debate político: é um ato de justiça. Porque por detrás de cada mapa ou resolução vivem famílias, comunidades, homens e mulheres com o mesmo direito à dignidade e à paz que todos nós. Para os cristãos, é também a terra onde Jesus nasceu e viveu, e onde ainda hoje subsistem comunidades árabes cristãs, muitas vezes esquecidas, mas testemunhando a fé em condições adversas.

E aqui está talvez a chave que nos interpela: se a terra onde Deus Se fez homem continua dividida por muros e marcada por feridas, então compreender a Palestina é também reconhecer a urgência da reconciliação. A Doutrina Social da Igreja ensina que a paz nasce da justiça e se constrói sobre o respeito pela dignidade de cada pessoa. Olhar para a Palestina com verdade histórica e respeito humano é um primeiro passo. Mas o passo seguinte depende de todos nós: reconhecer, no rosto de cada palestiniano e de cada israelita, o mesmo direito à vida, à esperança e à paz.

RRP.


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Rafael Ribeiro Pereira

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