
Num século marcado por guerras, ideologias totalitárias e a reconstrução civilizacional, Giorgio La Pira (1904–1977) destacou-se como uma das figuras mais luminosas do laicado católico europeu. Jurista, professor, político e místico, foi um dos raros casos em que a política se fez — de forma autêntica — expressão da caridade cristã. Chamavam-lhe “o santo da política” não por metáfora, mas por coerência de vida.
Primeiros anos e vocação intelectual
Giorgio La Pira nasceu em Pozzallo, na Sicília, a 9 de janeiro de 1904, numa família modesta. Desde cedo mostrou inclinação para os estudos e uma intensa vida interior. Aos vinte anos mudou-se para Florença, onde se licenciou em Direito e se tornou professor universitário de Direito Romano.
A juventude de La Pira foi marcada por uma procura espiritual profunda. A sua conversão religiosa deu-se na maturidade da fé, dentro do ambiente universitário, influenciado pela leitura da Bíblia, da Patrística e dos místicos carmelitas. A partir daí, Giorgio fez da vida interior e da oração a raiz de toda a sua ação.
Fé e ação social
Em plena ascensão do fascismo, La Pira foi uma das vozes católicas mais críticas do regime de Mussolini. Fundou, em 1939, a revista “Principi”, que lhe valeu a censura e vigilância da polícia fascista. Não cedeu. Com outros intelectuais católicos, começou a traçar uma visão cristã da reconstrução democrática de Itália.

Durante a Segunda Guerra Mundial, escondeu judeus e perseguidos políticos. Após a guerra, participou na Assembleia Constituinte de Itália, onde contribuiu para a redação da nova Constituição, introduzindo princípios fundamentais como a dignidade da pessoa, o primado do trabalho e os direitos sociais.
Presidente de Florença: uma política com alma
Entre 1951 e 1965 (com um interregno), foi presidente da Câmara Municipal de Florença. Não se limitou à gestão administrativa: transformou a cidade num laboratório de política cristã, onde a opção preferencial pelos pobres não era slogan, mas critério concreto.
La Pira promoveu habitação social, escolas, apoio às famílias pobres, reabilitação de bairros degradados. Nunca deixou a sua vida de oração, continuando a viver numa cela modesta no convento dominicano de São Marcos. Rezava, jejuava e trabalhava. Ia de bicicleta ou a pé para a câmara, e tratava os sem-abrigo pelo nome. Para ele, a política era “a forma mais elevada da caridade”, como recordava a doutrina social da Igreja.
Diplomata da paz em tempo de guerra
Nos anos da Guerra Fria, La Pira tornou-se um embaixador informal da paz. Visitou países comunistas (Rússia, China, Vietname do Norte) quando isso era visto com desconfiança no Ocidente, mas sempre com o desejo de abrir canais de diálogo e evitar conflitos. Visitou líderes como Ho Chi Minh e Kruschev, levando apenas o Evangelho, o terço e a convicção de que todo o ser humano é irmão.
Foi também presença constante nas Conferências Internacionais pela Paz, onde falava da fraternidade humana e da “civilização do amor”, antecipando o que João Paulo II e Francisco viriam a desenvolver como pilares da diplomacia cristã.
Um político místico
La Pira era um homem de oração contínua. Dizia-se dele que passava mais tempo na capela do que no gabinete. Tinha devoção especial ao Sagrado Coração de Jesus, à Eucaristia e à Virgem Maria. Acreditava que as cidades não se salvam apenas com políticas públicas, mas com santidade.
Recebia cartas de todo o mundo, aconselhava jovens, participava em encontros da Ação Católica e era consultado por Papas, bispos e chefes de Estado. O seu estilo era simples, humilde e profético.
Legado e processo de beatificação
Morreu a 5 de novembro de 1977, em Florença. O seu funeral foi um testemunho da gratidão popular e do respeito internacional. O processo de beatificação foi aberto em 1986 e encontra-se em fase avançada. Em 2018, o Papa Francisco declarou-o Venerável, reconhecendo a heroicidade das suas virtudes.
La Pira deixou um legado que desafia todos os que servem na vida pública: a política como vocação de serviço, a fidelidade à oração como raiz da ação, e o Evangelho como critério de justiça e de paz.
“O cristão não pode ser neutro diante da injustiça. Ou é fermento de fraternidade ou é cúmplice do sofrimento dos pobres.”
Giorgio La Pira
RRP.
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