
Na areia do deserto e no azul do Mediterrâneo, traça-se uma das rotas mais antigas e significativas da história sagrada: a Via Maris, o Caminho do Mar.
Uma estrada entre impérios
A Via Maris, expressão latina que significa “Caminho do Mar”, designa uma das vias comerciais mais antigas e estratégicas do Antigo Médio Oriente. Muito antes das fronteiras modernas e das autoestradas, esta rota ligava o Egipto às grandes cidades da Síria, da Mesopotâmia e da Anatólia, atravessando a costa da antiga Canaã — atual território de Israel e dos Territórios Palestinianos.
Era o eixo vital que unia o Crescente Fértil ao vale do Nilo, servindo de artéria para o transporte de mercadorias como especiarias, metais preciosos, tecidos e cerâmica. Mas por esta estrada circularam também exércitos, embaixadores, profetas e, mais tarde, discípulos do Evangelho.
Uma estrada de pedra e poeira, onde o humano e o divino se cruzavam. Cada cruzamento, cada caravançarai, podia tornar-se ocasião de encontro com o Mistério.
O traçado histórico
O percurso da Via Maris, documentado desde a Idade do Bronze Médio (c. 1500 a.C.), começava no delta do Nilo, passando por Pelúsio e Rafá, atravessando o deserto do Sinai e entrando na região de Gaza. Seguia depois por Ascalão, Asdode, Jafa (atual Telavive) e Dor, contornando o Monte Carmelo até ao Vale de Jezreel, passando por Megido e depois pela Galileia, tocando cidades como Tiberíades, Migdal, Cafarnaum e Hazor, antes de alcançar Damasco.
Este traçado não era apenas uma ligação geográfica: era uma encruzilhada de civilizações e de domínios imperiais — egípcios, cananeus, assírios, babilónios, persas, gregos e romanos — todos, a seu tempo, deixaram pegadas nesta estrada.
Um caminho bíblico e profético
O profeta Isaías anuncia:
“O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; sobre os que habitavam na terra da sombra da morte, uma luz brilhou.”
Isaías, 9,1
Séculos depois, o evangelista São Mateus retoma esta profecia para anunciar o início da vida pública de Jesus:
“Jesus foi habitar em Cafarnaum, junto ao mar, no território de Zabulão e Neftali, para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías: Terra de Zabulão e terra de Neftali, caminho do mar, ale´m do Jordão, Galileia dos gentios.”
Mateus 4,13-15
A escolha de Cafarnaum, cidade situada junto à Via Maris, não é apenas geográfica — é teológica. Jesus coloca-Se no centro das rotas humanas, no cruzamento de judeus e pagãos, de comerciantes e peregrinos, de pescadores e soldados. Desde o início, o Evangelho revela a sua vocação universal.
Arqueologia e legado atual
A importância desta via foi confirmada por diversos achados arqueológicos:
- Ruínas de estradas romanas pavimentadas e marcos miliários;
- Registos egípcios e assírios sobre campanhas militares que utilizaram este corredor;
- Vestígios de cidades como Megido, Hazor e Cesareia Marítima, que se desenvolveram ao longo da rota;
- Traçados que coincidem, em parte, com estradas modernas do Estado de Israel, como a Estrada Nacional n.º 4.
Por tudo isto, muitos investigadores chamam-lhe a autoestrada da Antiguidade.
Um símbolo para os nossos dias
Mais do que uma via geográfica, a Via Maris é uma imagem da missão cristã. Tal como Jesus caminhou entre os povos, também hoje somos chamados a habitar as rotas do mundo — as margens, as fronteiras, as encruzilhadas sociais e culturais onde o Evangelho é mais necessário.
As “novas vias do mar” podem ser os caminhos das migrações, os corredores humanitários, os centros urbanos multiculturais, os meios digitais e os espaços do diálogo inter-religioso. É nesses lugares que a Igreja é chamada a estar presente, como sinal de escuta, paz e esperança.
Curiosidade etimológica
A expressão Via Maris surge apenas mais tarde, com a tradução latina da Bíblia (Vulgata), a partir do grego hodòn thalássēs, presente em Isaías 8,23 (9,1 na numeração cristã). O nome original da estrada não era esse, mas a designação sobreviveu como referência espiritual, associada ao caminho da Luz que se fez presença no mundo.
UMA REFLEXÃO
A Via Maris é muito mais do que uma rota da Antiguidade. É símbolo de um Deus que entra na história concreta, que caminha connosco pelas estradas do mundo e que Se revela nas encruzilhadas do quotidiano humano. A escolha de Jesus em habitar e evangelizar junto a esta via não foi um acaso geográfico, mas uma declaração teológica: a salvação é para todos e percorre os caminhos abertos da vida, não os atalhos fechados da exclusão.
Hoje, a Igreja é chamada a redescobrir essas “vias do mar”: lugares de fronteira, de passagem, de encontro e de desafio. A missão cristã começa aí — onde o mundo circula, onde as culturas se cruzam, onde as dores humanas esperam escuta, e onde o Evangelho pode ser luz para os que “habitam nas sombras da morte”.
RRP.
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