A MÃE DE JESUS

Introdução – Escrever sobre Maria em maio
O mês de maio ocupa, na tradição católica, um lugar muito especial: é o mês de Maria. Este costume, profundamente enraizado na piedade popular, floresceu entre os séculos XVII e XIX, sobretudo nas comunidades católicas da Europa, e desde então espalhou-se por todo o mundo. Maio, com a sua explosão de vida na natureza, tornou-se imagem da beleza espiritual de Maria e símbolo da esperança que Ela semeia na vida dos crentes.
Nas famílias, nas paróquias, nos movimentos, é habitual neste tempo rezar o terço em comunidade, coroar imagens de Nossa Senhora, organizar procissões, novenas e momentos de veneração mariana. Esta devoção não é apenas afetiva: é também profundamente teológica, pois, ao olhar para Maria, a Igreja contempla o que deseja ser — esposa fiel, mãe fecunda, discípula obediente.
Maria no coração da fé cristã
O Concílio Vaticano II, na Constituição Lumen Gentium, dedica o seu oitavo e último capítulo à Virgem Maria, reconhecendo nela a figura mais eminente da Igreja. Longe de ser uma figura periférica ou meramente devocional, Maria é apresentada como modelo de fé, caridade e união perfeita com Cristo. O número 63 da Lumen Gentium afirma com clareza:
“Maria foi exaltada por Deus como Rainha do universo, para ser mais plenamente conforme com o seu Filho, Senhor dos senhores e vencedor do pecado e da morte.”
Ao meditarmos sobre Maria, somos conduzidos sempre a Cristo. Como ensina São Luís Maria Grignion de Montfort, “por Maria, com Maria, em Maria e para Maria, é o caminho mais fácil e seguro para se chegar a Jesus”. A verdadeira devoção mariana é sempre cristocêntrica: Maria aponta o caminho e caminha connosco.
Uma motivação pessoal: Maria na minha vida e missão
A decisão de escrever sobre Maria ao longo do mês de maio nasce não apenas de uma tradição da Igreja, mas também da minha experiência pessoal de fé. Reconheço em Maria um modelo de escuta, ternura, fortaleza e presença fiel, qualidades essenciais em todos os contextos de serviço.
Na minha vida comunitária, familiar e profissional, a figura de Maria é fonte constante de inspiração: é Ela quem ensina a permanecer de pé junto à cruz, a guardar no coração as palavras que não se compreendem de imediato, a caminhar com os pobres e a alegrar-se com os humildes.
A maternidade espiritual de Maria — essa capacidade de gerar Cristo nos corações dos homens — é também o horizonte da missão da Igreja. Ao contemplar Maria, convido cada leitor a redescobrir esta presença silenciosa mas firme, discreta mas ativa, terna mas corajosa. Uma presença que transforma e conduz ao essencial: o encontro com o Senhor.
Este percurso ao longo do mês de maio será feito em capítulos simples, acessíveis e contemplativos. Não pretendo oferecer um tratado, mas antes uma peregrinação interior, como quem percorre um caminho de flores até ao coração da Mãe. Cada texto, uma janela. Que Maria nos acompanhe neste caminho.
“A Ela, Mãe de Deus e da Igreja, elevemos os olhos, para n’Ela vermos o que todos somos chamados a ser.”
Lumen Gentium, 65
CAPÍTULO I
A sua infância
No silêncio dos Evangelhos, encontramos muitas vezes espaço para a contemplação. Assim acontece com a infância de Maria: os textos sagrados pouco nos dizem sobre os seus primeiros anos de vida. Mas a Tradição da Igreja, iluminada pela piedade e pelos escritos dos primeiros séculos, procurou olhar para esse tempo escondido com reverência e imaginação teológica. Neste capítulo, quero revisitar simbolicamente a infância da Mãe de Jesus, não para encher de palavras o que o Espírito quis deixar em silêncio, mas para aprender a valorizar a infância como lugar de graça, promessa e missão.
Joaquim e Ana: as raízes da Virgem
Segundo o Protoevangelho de Tiago, escrito por volta do século II, os pais de Maria chamavam-se Joaquim e Ana. Eram um casal piedoso, mas que, por longos anos, sofreu a provação da esterilidade. A história ecoa outras figuras bíblicas como Abraão e Sara, ou Ana, mãe de Samuel: Deus realiza promessas face à dor humana, e faz surgir vida nova onde parecia impossível.
A conceção de Maria é apresentada como dom puro da misericórdia divina. Desde a sua origem, Maria é sinal da fidelidade de Deus. A tradição oriental celebra a 21 de novembro, a apresentação de Maria no Templo. Esta festa lembra-nos que, desde criança, Maria foi educada na escuta da Palavra, na oração e no amor ao Senhor.
O lar de Maria, em Nazaré, era humilde, mas profundamente enraizado na fé de Israel. Joaquim e Ana são o modelo de pais que transmitem a fé não por imposição, mas por testemunho. A maternidade de Ana, como o cântico bíblico da sua homónima (1 Sm 2), celebra a grande inversão do Reino: “o Senhor exalta os humildes”.
Uma infância cheia de graça
Embora os Evangelhos nada digam sobre a infância de Maria, a sua vida é apresentada como cheia da graça de Deus: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc 1,28). Esta plenitude não foi imposta, mas acolhida livremente. Maria, como qualquer criança, teve de aprender a falar, a caminhar, a escutar. Teve de crescer.
Podemos imaginar a jovem Maria a aprender os Salmos com a mãe, a escutar com atenção as histórias de Moisés, de Ester, de Judite… Talvez, ao ouvir os profetas, tenha começado a pressentir o mistério que a envolvia. Mas tudo isso se fez no silêncio, na lentidão dos dias simples de Nazaré, longe dos palácios e das glórias humanas.
A infância de Maria é, assim, um sinal da pedagogia de Deus. O Senhor não apressa, não impõe, não invade. Prepara lentamente, com ternura e confiança, o coração de quem chama. Maria foi sendo formada no segredo, como nos lembra o Salmo: “Foste Tu que me formaste no seio de minha mãe” (Sl 139,13).

Educação na fé: missão de hoje
Esta contemplação da infância de Maria convida-nos a olhar com novo cuidado para a infância no nosso tempo. Que atenção damos ao crescimento espiritual das nossas crianças? Que espaço damos ao silêncio, à escuta, ao mistério nos ambientes onde educamos?
Maria foi formada por uma família crente. Hoje, tantas crianças crescem sem referências espirituais claras, num mundo marcado por ruído, pressa e superficialidade. Como Igreja, somos chamados a redescobrir a centralidade da iniciação cristã e da presença de adultos que eduquem com o coração, como Joaquim e Ana.
Santa Teresinha do Menino Jesus falava da “infância espiritual” como o caminho da confiança e do abandono total a Deus. Maria é a primeira a trilhar esse caminho. A sua infância ensina-nos que crescer na fé não é um ato repentino, mas um processo de entrega e escuta, feito de gestos simples, muitas vezes escondidos.
Conclusão: Deus começa na infância
Na infância de Maria vislumbramos a delicadeza de Deus, que prepara com amor aquilo que é grande. Tudo o que Maria viria a ser – Mãe de Deus, discípula fiel, figura da Igreja – tem raízes nessa infância silenciosa, humilde e cheia de graça.
Ao contemplar esta fase da vida de Nossa Senhora, somos chamados a valorizar a infância como tempo sagrado, a confiar mais nas sementes lançadas no coração das crianças e a sermos, como Ana e Joaquim, transmissores fiéis da fé. Com Maria, redescobrimos que as grandes obras de Deus começam na ternura dos pequenos começos.
“Deixai vir a Mim as criancinhas…” — com Maria aprendemos que no coração de uma criança pode nascer o maior dos milagres.
RRP.
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