Quando a reparação se transforma em dor: a urgência de uma escuta verdadeira

Q

A leitura do recente artigo sobre as audições feitas pelo Grupo Vita no processo de indemnizações a vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica deixou-me profundamente inquieto. Não apenas pelos testemunhos ali relatados, mas pelo que revelam sobre a forma como estamos – ou não – a cuidar de quem mais sofreu.

Sou membro da Igreja Católica. Amo-a e reconheço nela um caminho de vida, fé e serviço. Mas este amor não me impede de ver, escutar e, sobretudo, de reconhecer quando falha. E falhar na escuta das vítimas é falhar no essencial: na caridade, na compaixão, na justiça.

Os relatos de pessoas que se sentiram interrogadas com insistência, levadas a reviver com detalhe o abuso que sofreram, revelam uma abordagem que, mesmo que bem-intencionada, pode facilmente transformar-se em revitimização. Quando se pergunta “onde foi exatamente?” ou “doeu muito?”, estamos a esquecer que a dor não se mede em centímetros nem se prova com mapas do corpo.

É preciso recordar que quem foi vítima já teve de enfrentar o silêncio, o medo, a vergonha, muitas vezes durante décadas. Obrigar alguém a reviver tudo, com pormenores anatómicos, para justificar uma compensação, é prolongar um sofrimento que deveria estar a ser acolhido e reparado.

A Igreja afirmou, e bem, que nenhuma indemnização poderá apagar o mal causado. Mas se o que não pode ser anulado exige reparação, então que essa reparação não se transforme em mais dor. A escuta verdadeira não é um inquérito; é um lugar de respeito, de cuidado e de confiança.

A forma como a Igreja conduz este processo é, em si mesma, uma oportunidade de testemunho. De mostrar que está ao lado das vítimas, com humildade, verdade e misericórdia. E isso começa pela forma como se olha, se fala e se ouve.

O Papa Francisco tem-nos chamado a ser uma Igreja próxima, que se faz hospital de campanha. Isso exige mais do que boas intenções: exige gestos concretos, palavras certas, estruturas humanas e processos que respeitem quem foi ferido.

Não basta pedir perdão. É preciso transformar o modo como reparamos. E isso começa por escutar com o coração.

RRP.


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Rafael Ribeiro Pereira

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