DOMINGO DE PÁSCOA

D

QUANDO A VIDA INSISTE EM RECOMEÇAR

Representação de Cristo ressuscitado, sentado em um altar, com uma bandeira, cercado por figuras que demonstram surpresa e reverência.
“A Ressurreição de Cristo” – Piero della Francesca (c. 1463–1465).
Museo Civico de Sansepolcro, Itália.
Uma das imagens mais icónicas da Ressurreição. Jesus ergue-se vitorioso do túmulo, com expressão serena e poderosa, enquanto os guardas dormem aos seus pés. É considerada por muitos como uma das mais belas representações do Cristo ressuscitado.

Todos os anos, a Igreja proclama, no coração da noite mais escura: Cristo ressuscitou! Aleluia! E todos os anos, por mais que já o tenhamos escutado, esta notícia transporta uma força quase escandalosa: a vida venceu a morte.

Mas o que significa isto quando, lá fora, a guerra continua? Quando milhares fogem das suas casas, o custo de vida sufoca, os jovens perdem a esperança e os idosos se sentem esquecidos? O que significa celebrar a Ressurreição num mundo onde tantas cruzes continuam erguidas?

Talvez hoje precisemos da Páscoa mais do que nunca. Porque a Ressurreição não é um conto bonito para adormecer consciências. É uma ferida aberta que se transformou em fonte de vida. É o sepulcro vazio que grita que nem a dor, nem a injustiça, nem a morte têm a última palavra.

Como a Ucrânia que resiste. Como as mães de Gaza que cuidam. Como os voluntários que não desistem.

A Páscoa acontece, muitas vezes, nas margens da história. Jesus ressuscita, mas não em palácios nem em conferências. Ressuscita no silêncio de um jardim, e aparece primeiro a uma mulher marginalizada. Ainda hoje, a Ressurreição continua a acontecer assim: discretamente, nos gestos pequenos, nos rostos esquecidos, nas lutas sem manchete.

Não nos iludamos: os sinais da Ressurreição não são fogos de artifício. São como a flor que rompe o asfalto, como a criança que volta a sorrir depois de um trauma, como o abraço que reconcilia uma família dividida.

E nós? Já ressuscitámos?

Há cristãos que vivem como se Jesus ainda estivesse no túmulo. Espalham medo, desconfiança, divisão. Tornam a fé num peso, em vez de ser Páscoa — passagem, libertação, esperança. Mas um cristão pascal é aquele que vive com a leveza de quem já enfrentou a morte e sabe que ela não tem a última palavra.

Ser pascal hoje é acreditar que a justiça é possível, mesmo quando o sistema parece falido. É cuidar do planeta, mesmo quando tantos o exploram. É proteger os frágeis, mesmo quando a cultura os empurra para a margem. É investir nos afetos e na comunhão, mesmo quando tudo puxa para o individualismo e o conflito.

Uma Igreja ressuscitada

O Papa Francisco tem insistido numa Igreja que “saia para fora”. Que leve o perfume do Ressuscitado às periferias da vida. Isso significa também uma Igreja mais pobre, mais aberta, mais comprometida com os que sofrem. Uma Igreja que não celebra apenas o ritual da Páscoa, mas a vive no concreto do mundo.

A Ressurreição é, por isso, também um desafio pastoral: como podemos ser sinal de esperança real para os que perderam tudo? Como fazer da paróquia, do centro social, da comunidade, um lugar onde as pessoas reencontrem sentido e recomeço?

Porque a pedra foi removida

No fundo, a Páscoa diz-nos isto: a pedra foi removida. Aquela que parecia fechar tudo, acabou por se tornar passagem. E todos nós temos pedras pesadas na vida — traumas, frustrações, pecados, medos. A Ressurreição não promete que tudo vai correr bem. Mas garante-nos que nenhuma pedra é definitiva.

Cristo não voltou atrás na cruz. Não fingiu que não sofreu. Mas transformou o sofrimento em oferta, e a morte em vida. E é isso que Ele continua a fazer na nossa história: ressuscitar onde só víamos fim.

Neste Domingo de Páscoa, não celebremos apenas com ovos de chocolate ou flores novas na Igreja. Celebremos com a decisão de viver como quem acredita que a luz é mais forte do que a noite. Porque é.

Cristo ressuscitou. E com Ele, tudo pode recomeçar.

RRP.


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Rafael Ribeiro Pereira

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