QUINTA-FEIRA SANTA

Q

O AMOR QUE SE AJOELHA

Ilustração da Última Ceia, mostrando Jesus ao centro com um cálice, rodeado por seus discípulos. Um discípulo ajoelha-se enquanto Jesus realiza o gesto do lava-pés.

A Quinta-feira Santa marca o início do Tríduo Pascal, o coração litúrgico da fé cristã. Não é apenas uma data comovente pela densidade simbólica, mas um verdadeiro espelho onde somos convidados a olhar para o centro do Evangelho: um Deus que Se faz pão, que Se ajoelha para lavar os pés dos Seus amigos e que, sabendo da traição iminente, permanece fiel até ao fim.

Na Última Ceia, Jesus não nos deixou apenas palavras belas ou conselhos morais. Deixou-nos o dom total de Si mesmo. “Isto é o Meu Corpo, entregue por vós.” É ali que nasce a Eucaristia, não como rito isolado, mas como gesto radical de comunhão e entrega. Cada vez que celebramos a Missa, tocamos este mistério: Cristo que Se dá a nós, para que nós nos demos aos outros.

Mas há algo mais, profundamente desconcertante: o gesto do lava-pés. O Senhor — o Filho de Deus, o Verbo feito carne — ajoelha-Se diante dos Seus discípulos e realiza o trabalho mais humilde que um escravo podia fazer. Num mundo de hierarquias, onde o poder tende a dominar, Jesus mostra-nos outro caminho: o da autoridade que serve, da liderança que se dobra por amor.

Como afirmou o Papa Francisco:

“Jesus deixa-nos uma herança: servir os outros, cuidar dos outros. Esta é a herança que Jesus nos deixou: servir.”

Homilia da Missa da Ceia do Senhor, 2014.

Este gesto tem uma força transformadora. O lava-pés não é uma encenação piedosa, mas um “programa” de vida. Exige sair de nós mesmos, superar comodismos, olhar os outros não de cima para baixo, mas a partir da altura do amor.

Na mesma noite, Jesus entra no Jardim das Oliveiras. Ali experimenta a solidão mais densa, a angústia mais profunda. É uma oração feita de suor e lágrimas. Não foge ao sofrimento, mas assume-o. Hoje, tantos vivem também a sua noite de Getsémani: famílias esmagadas por dificuldades, idosos isolados, jovens sem rumo, migrantes sem pátria. A nossa presença, silenciosa e fiel, pode ser um sinal de esperança, como aquela pequena luz que arde junto ao sacrário na transladação do Santíssimo.

Bento XVI recordava:

“Na Eucaristia, Jesus caminha connosco, como caminhou com os discípulos de Emaús. Tornando-Se alimento para nós, torna-Se também consolo nas noites da vida.”

Homilia de Quinta-feira Santa, 2007,

A Quinta-feira Santa interpela-nos:

Como vivemos a Eucaristia — como presença que transforma a vida ou como hábito ritual? Que tipo de liderança procuramos na Igreja, na sociedade e nas nossas famílias? Somos capazes de vigiar com Jesus na noite escura da dor, da dúvida, da crise?

Esta noite não termina na cruz. Já anuncia a manhã da ressurreição. Mas só quem passa pela Ceia, pelo lava-pés e pelo Horto das Oliveiras pode compreender a verdadeira alegria pascal.

Como disse o Beato Álvaro del Portillo, homem de profunda humildade:

“O serviço é a manifestação mais clara do amor. E quem ama, serve sempre com alegria.”

Ajoelhar-se como Cristo é o princípio da verdadeira transformação. É ali, nesse gesto de amor total, que começa a esperança nova do mundo.

RRP.


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Rafael Ribeiro Pereira

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