Entre a sobrevivência e a dignidade

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O dilema palestiniano e o silêncio que compromete

Mahmoud Issa / 18 de março de 2025 – Reuters

É cada vez mais difícil manter o silêncio perante a tragédia persistente que se abate sobre o povo palestiniano. Gaza arde, a Cisjordânia sangra, e o mundo — de forma inquietante — parece habituar-se a este ciclo interminável de violência, humilhação e morte. Mas talvez ainda mais inquietante seja o papel ambíguo da própria liderança palestiniana neste contexto. Uma Autoridade que nasceu com a promessa de gerir a transição para a liberdade e que se tornou, tristemente, num instrumento de controlo sobre o seu próprio povo.

Nas últimas semanas, diversas análises vindas de investigadores e responsáveis palestinianos têm colocado o dedo na ferida: a Autoridade Palestiniana (AP) já não representa o povo. Tornou-se dependente da ajuda internacional, submissa às exigências de segurança de Israel e desconectada das aspirações populares. Em Jenin, por exemplo, as forças da AP lançaram operações repressivas em bairros pobres e campos de refugiados antes mesmo de o exército israelita iniciar as suas incursões. Há quem fale, sem rodeios, em “subcontratação” da repressão. Esta realidade é dolorosa de admitir, mas necessária de reconhecer.

Que tipo de autoridade sobrevive quando a sua legitimidade é sacrificada em nome da estabilidade? Que liderança é esta que se mantém no poder há quase duas décadas sem eleições, presa a alianças externas que a asfixiam e a afastam do seu povo? E que comunidade internacional é esta que, em nome da paz, financia a repressão e ignora a exigência de liberdade e de renovação?

Não se trata aqui de minimizar a complexidade da realidade. Nenhuma das fações internas palestinianas está isenta de responsabilidade. Mas há uma diferença fundamental entre lutar pela sobrevivência e perpetuar uma estrutura que se tornou parte do problema. A AP foi criada como órgão transitório, à luz dos Acordos de Oslo, para administrar uma ocupação temporária e conduzir à fundação de um Estado. Trinta anos depois, transformou-se num regime fechado, sem visão estratégica, que parece existir apenas para manter a ilusão de um processo que morreu há muito.

É urgente escutar a sociedade civil palestiniana, os jovens, as mulheres, os intelectuais e líderes comunitários que arriscam tudo para dizer o óbvio: o povo quer e merece uma liderança legítima, representativa, unificadora — não uma autoridade desprovida de soberania e esvaziada de esperança. Sondagens e manifestações mostram que há vontade de mudança. Mas essa mudança é sistematicamente abafada, ora por Israel, ora pela própria AP, ora por um sistema internacional que prefere um statu quo controlável a uma liderança palestiniana autêntica e plural.

Como cristão, não posso deixar de recordar que a dignidade da pessoa humana está no centro da Doutrina Social da Igreja. E essa dignidade é ferida não apenas quando uma bomba destrói uma casa ou um colono expulsa uma família, mas também quando um jovem é preso por expressar a sua opinião, quando uma jornalista é silenciada com um tiro na cabeça, quando os sonhos de um povo são tratados como ameaça.

O Evangelho impele-nos a não fechar os olhos à injustiça. Jesus chorou sobre Jerusalém — e não por acaso. Chorou pela cidade dividida, pela paz rejeitada, pelas autoridades mais preocupadas com o poder do que com a verdade. Hoje, a Terra Santa continua a clamar. E não se pode responder com neutralidade a esse clamor. O silêncio, neste caso, é uma forma de cumplicidade.

É tempo de reavaliar as nossas convicções políticas, as nossas relações institucionais e até o nosso conforto moral. Que paz é esta que defendemos? Uma paz sem justiça? Uma paz que depende da repressão? Uma paz que silencia a voz dos que sofrem?

A verdadeira paz — aquela que o profeta Isaías associava ao fruto da justiça — exige coragem, discernimento e compromisso com a verdade. E essa verdade, por mais desconfortável que seja, precisa de ser dita: a Autoridade Palestiniana, tal como está, não serve o povo. E a comunidade internacional, tal como age, não serve a paz.

Que tenhamos a lucidez de ver e a coragem de agir. Porque não basta condenar a ocupação se alimentamos as suas estruturas por omissão. E não basta desejar a paz se não ousamos interpelar os que a impedem — mesmo quando são “nossos aliados”.

RRP.


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Rafael Ribeiro Pereira

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