A Resiliência da Espiritualidade na Sociedade Contemporânea

A

Entre o Bom Samaritano e a Gaudium et Spes: o plano de Deus e a missão dos cristãos no mundo.

O presente artigo resulta do resumo e reflexão pessoal a partir da palestra proferida pelo jornalista António Marujo, subordinada ao tema “A resiliência da espiritualidade na sociedade contemporânea”, no âmbito dos Encontros na Torre d’Aguillha.

Ao longo da sessão, que decorreu na noite do dia 26 de março, foi-nos proposta uma leitura do nosso tempo à luz do Evangelho — especialmente da parábola do Bom Samaritano — e da Constituição conciliar Gaudium et Spes, convidando-nos a discernir os sinais da presença de Deus no mundo atual e a pensar a espiritualidade como força de transformação, e não de fuga.

Neste texto, procuro reunir as principais ideias partilhadas, entrelaçadas com interpelações e exemplos concretos que nos ajudam a compreender qual é o plano de Deus para a nossa história — e de que modo nós, como cristãos, somos chamados a colaborar com Ele, com coragem e esperança.

Introdução

Vivemos tempos marcados por contrastes e tensões profundas: progresso tecnológico e retrocesso humano, liberdade e escravidão, fraternidade e indiferença. A Constituição Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, descreve este cenário com lucidez:

“O mundo atual apresenta-se simultaneamente poderoso e débil, capaz do melhor e do pior…” (GS 9)

Nesta realidade complexa, surge a pergunta: qual é o plano de Deus para a nossa história? E como é que nós, cristãos, podemos manter viva uma espiritualidade que não seja alienante, mas transformadora? A resposta passa por duas fontes inesgotáveis de inspiração: a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) e o olhar profético da Igreja conciliar.

1. A Parábola do Bom Samaritano: Deus no meio da dor

Jesus conta uma história provocadora. Um homem é agredido, deixado meio morto na estrada. Os agressores desaparecem da narrativa — não interessam. A questão não é “quem fez mal?”, mas quem vai ajudar?

As figuras religiosas — o sacerdote e o levita — passam ao lado. Não se sujam, não se aproximam. É um samaritano — herético aos olhos dos judeus — que encarna o amor de Deus. Ele cuida, aproxima-se, gasta tempo e recursos. Faz-se próximo.

“O Deus revelado em Jesus é Aquele que não passa ao lado, mas que se aproxima e cuida.”

2. O Concílio Vaticano II e os sinais dos tempos

A Igreja reunida no Concílio reconheceu que não pode ser indiferente às dores do mundo. Das quatro grandes Constituições Conciliares, a Gaudium et Spes é aquela que mais diretamente interroga a presença da Igreja no mundo contemporâneo.

No seu n.º 9, lemos:

“A humanidade tem diante de si o caminho da liberdade ou da escravidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade ou do ódio.”

A Igreja é chamada a discernir os sinais do plano de Deus na história:

• Estão em tudo o que promove solidariedade, justiça, fraternidade, liberdade;

• E são negados por tudo o que gera ódio, opressão, pobreza e exclusão.

3. A resiliência cristã: resistência ou conformismo?

Falamos muito de “resiliência”, mas qual é o seu verdadeiro sentido cristão?

Não é apenas aguentar, como dizia o célebre “aguenta, aguenta” de tempos de crise.

Resiliência cristã não é passividade. É esperança ativa. É resistência com sentido.

Como afirmou o Papa Francisco:

“Esta economia mata.” (Evangelii Gaudium, 53)

E a história mostra-o: austeridade, desemprego, crise da habitação, aumento de suicídios… A espiritualidade cristã não pode calar-se diante desta realidade.

4. Espiritualidade no meio do conflito

Deus não está apenas de um lado da barricada. Deus está no meio, onde há dor, injustiça, mas também desejo de reconstrução.

“A espiritualidade cristã deve estar no centro da tensão entre bem e mal, entre luz e sombra.”

Ela não é fuga, mas presença ativa no mundo, à imagem do Bom Samaritano. É o modo como Deus continua presente — através de nós — na história.

5. A missão dos cristãos hoje

A missão cristã é clara:

• Apoiar os mais pobres e frágeis;

• Sanar conflitos nas comunidades;

• Envolver-se na vida económica e política;

• Defender a criação;

• Lutar por soluções para a habitação, a paz e a justiça.

Infelizmente, muitos cristãos permanecem invisíveis nas manifestações sociais, ao contrário do que acontece noutros países. E no entanto, é no concreto da vida que a fé se torna profética.

“Nós somos a Igreja. E a responsabilidade de transformar o mundo não pode ser delegada.”

Conclusão

A espiritualidade cristã não é uma bolha. É fermento, é sal, é luz. A fidelidade ao Evangelho hoje joga-se na tensão entre uma resiliência que paralisa e uma espiritualidade que transforma.

Se queremos ser fiéis ao Deus revelado em Jesus, temos de ver, como o samaritano viu. Aproximar-nos. Tocar. Cuidar. Transformar. E isso começa hoje — na nossa rua, na nossa paróquia, no nosso país.

“É na tensão entre a resiliência que paralisa e a espiritualidade que transforma que se joga hoje a fidelidade cristã ao Evangelho.”

Num tempo marcado por crises sucessivas — sociais, económicas, políticas e espirituais —, a espiritualidade cristã não pode ser apenas um refúgio interior ou uma prática individualista. Ela é, antes de tudo, um dinamismo de transformação que nasce do encontro com o Deus que não passa ao lado, mas que se detém, que se comove, que cuida. O Deus do Bom Samaritano.

A partir da Gaudium et Spes, percebemos que o mundo contemporâneo, com todas as suas ambiguidades, continua a ser o lugar onde Deus nos fala e nos chama à ação. O cristão é chamado a discernir os sinais do Reino no meio da complexidade, a denunciar o que mata, mas também a construir caminhos de justiça, fraternidade e esperança.

A resiliência da espiritualidade não está em aguentar tudo calado. Está em resistir com sentido. Em levantar-se diante da dor. Em servir. Em fazer-se próximo. Em recusar o conformismo e encarnar uma fé que transforma.

É esta espiritualidade que queremos viver.

É esta Igreja que queremos ser.

No meio do mundo. No coração da história.

RRP.


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Rafael Ribeiro Pereira

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