A reconstrução de Gaza: uma questão de quem e para quem?

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GETTY IMAGES

Por mais paradoxal que pareça, no meio dos escombros e do caos de uma guerra sem fim aparente, Gaza já se reconstrói. Não é a ONU, não são os grandes investidores internacionais e, certamente, não é Donald Trump com a sua visão de uma “Riviera no Médio Oriente” quem está a colocar a mão na massa. Quem reconstrói Gaza são os próprios palestinianos.

O artigo de Francesca Borri (Jornal Expresso, 08 de março de 2025) expõe uma realidade incómoda: a reconstrução de Gaza é tema de debate em grandes cúpulas internacionais, mas os protagonistas da própria história são relegados ao papel de figurantes. Enquanto os Emirados sonham com um novo Dubai e o Egipto com um retorno ao passado mediterrânico, os engenheiros, eletricistas e canalizadores locais trabalham com o que têm, reciclam escombros e redesenham a sua cidade sem esperar permissão ou direção de fora.

A “Fénix de Gaza”, plano criado pelos 25 municípios da região, não é um simples projeto arquitetónico, mas um manifesto de resiliência. Ele propõe mais do que edifícios: sugere um modelo de cidade baseado na continuidade histórica e cultural do povo palestiniano. Num território onde 70% das estruturas foram reduzidas a destroços e onde a reconstrução pode levar décadas, a ideia de aproveitar o que resta e manter a população enraizada é um ato de sobrevivência e resistência.

Unicef/Eyad El Baba

Mas quem decide o futuro de Gaza? O autarca Yahya Sarraj deixa claro que, entre as preocupações, uma das maiores é garantir que Gaza não se transforme num “negócio imobiliário” para investidores estrangeiros. E esta é a grande questão. Quando os palestinianos falam em reconstrução, falam da sua cidade, das suas memórias, da sua identidade. Mas, para o mundo, Gaza é vista como um terreno, uma oportunidade, um projeto.

No passado, cidades destruídas por guerras foram reconstruídas sem que perdessem a sua essência. Berlim renasceu das cinzas da Segunda Guerra Mundial. Beirute, por outro lado, viu-se transformada em algo que pouco lembra o seu passado. Para Gaza, o medo é que reste apenas o nome.

Se a comunidade internacional quer de facto ajudar Gaza, deve começar por ouvir Gaza. Deve garantir que os fundos e projetos respeitem aqueles que ali vivem e querem continuar a viver. A “Fénix de Gaza” já existe. O que falta é o reconhecimento e o apoio para que os verdadeiros protagonistas possam escrever o seu próprio futuro, e não serem reduzidos a mão de obra para os sonhos de outros.

RRP.


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