AS ENTRELINHAS DO PAPA LEÃO XIV (A PARTIR DO PRIMEIRO CONSISTÓRIO EXTRAORDINÁRIO)

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Cardeais em uma reunião, com um deles cumprimentando o Papa.
EDITORIAL | SERVIENS

O início de um pontificado diz muitas vezes mais pelo que se insinua do que pelo que se proclama. Num tempo de leituras apressadas, polarizações fáceis e análises reduzidas a títulos, torna-se essencial aprender a escutar as entrelinhas, sobretudo quando falamos da vida interna da Igreja e dos seus delicados equilíbrios institucionais.

Neste texto, Miguel Dantas propõe-nos precisamente esse exercício: um olhar atento, pedagógico e desarmado sobre o primeiro consistório extraordinário do Papa Leão XIV. Longe do comentário superficial ou da lógica de trincheira, o autor ajuda-nos a compreender os mecanismos internos do colégio cardinalício, as tensões reais que atravessam a Igreja e o modo como o novo Papa parece optar por uma liderança marcada pela diplomacia, pela escuta e por uma gestão prudente do conflito — sem abdicar das prioridades herdadas do Papa Francisco.

A reflexão ganha particular densidade ao abordar temas sensíveis como a sinodalidade, a liturgia e a reforma da Cúria, contextualizando intervenções críticas, distinguindo conceitos frequentemente confundidos e recordando que nem tudo o que é ruidoso é necessariamente central. O gesto final de Leão XIV, ao recentrar o consistório na questão dos abusos e na responsabilidade episcopal, surge, assim, não como um detalhe, mas como uma chave de leitura do seu estilo e das suas prioridades.

Publicamos este artigo porque acreditamos que pensar a Igreja exige tempo, rigor e coragem intelectual. E porque, num momento de transição, vale a pena acompanhar com atenção quem governa mais pelo discernimento do que pelo confronto.

Boa leitura.

AS ENTRELINHAS DO PAPA LEÃO XIV (A PARTIR DO PRIMEIRO CONSISTÓRIO EXTRAORDINÁRIO)
Reunião de cardeais com o Papa, discutindo em torno de uma mesa redonda, decorada com uma toalha laranja. Ao fundo, um presépio natalino e uma árvore decorada.

O primeiro consistório extraordinário do Papa Leão XIV realizou-se recentemente, no Vaticano, em Roma, já no início do seu pontificado, reunindo cardeais provenientes de várias partes do mundo. Ainda existem poucas referências públicas ao que ali se passou, mas começaram a surgir alguns desabafos, comentários e leituras críticas. Arrisco, por isso, uma avaliação pessoal, assumidamente pedagógica. Mais do que comentar comentários, interessa-me decifrar as entrelinhas, perceber os ânimos coletivos da Igreja e ajudar a compreender alguns dos seus mecanismos internos.

Tenho ainda poucas referências diretas sobre Leão XIV. Num primeiro momento, confesso que me pareceu que poderia vir a recuar em alguns pontos afirmados com clareza pelo Papa Francisco. Com o desenrolar dos acontecimentos, começo, porém, a perceber um alinhamento real com o seu predecessor, ainda que de forma muito mais discreta e cuidadosamente calibrada. Tudo indica que o Papa procura evitar um confronto direto com o colégio cardinalício, optando antes por um registo diplomático. Não rompe, mas também não se mostra submisso. As prioridades começam a emergir, ainda que de forma subtil.

Um consistório extraordinário implica a convocação dos cardeais de todo o mundo a Roma. Nem todos comparecem, seja por idade, saúde ou responsabilidades pastorais, mas trata-se sempre de um momento de forte densidade simbólica e política. Ao contrário dos consistórios ordinários, geralmente restritos aos cardeais residentes no Vaticano e focados em matérias de gestão corrente, os consistórios extraordinários destinam-se a refletir sobre questões universais e pastorais da Igreja.

Sabia-se que estavam previstos quatro temas para debate: a sinodalidade, a evangelização à luz da Evangelii Gaudium do Papa Francisco (documento de forte orientação pastoral), a implementação da Praedicate Evangelium (documento de reorganização interna da Cúria) e a liturgia. Logo na abertura dos trabalhos, no Vaticano, o Papa anunciou que não haveria tempo para tratar os quatro pontos, propondo uma votação para selecionar apenas dois. Foram escolhidos a sinodalidade e a evangelização segundo a Evangelii Gaudium. A decisão criou de imediato algum mal-estar, sobretudo entre os cardeais que esperavam um debate mais aprofundado sobre a liturgia.

Antes do consistório, a pressão mediática em torno da liturgia foi particularmente intensa, sobretudo por parte dos defensores do regresso à missa em latim e ao rito tridentino. Num gesto que pareceu procurar aliviar o ambiente, o Cardeal Arthur Roche, responsável pelo Dicastério para o Culto Divino, fez circular uma carta entre os cardeais com uma avaliação claramente negativa da chamada “Missa antiga”, sinalizando uma posição pouco favorável a um eventual recuo nas restrições em vigor. Ainda assim, o tema acabou por não ser debatido durante o encontro em Roma.

Importa aqui um primeiro esclarecimento pedagógico. Num consistório participam apenas cardeais. A maioria exerce funções na Cúria Romana e colabora diretamente com o Papa no governo da Igreja. Os cardeais provenientes de fora de Roma são, por definição, minoritários, e nem todos estão presentes. Qualquer votação tem, inevitavelmente, uma leitura política. Os dois temas escolhidos foram, muito provavelmente, aqueles que o Papa desejava debater, e é legítimo supor que essa orientação tenha sido partilhada com os cardeais da Cúria. Assim, evitou-se deliberadamente o confronto em torno da liturgia. Recorde-se que continua em vigor o Motu Proprio do Papa Francisco, bastante restritivo para os defensores do rito tridentino. Pessoalmente, considero esta opção uma regressão pastoral, sem que isso signifique desvalorizar a seriedade espiritual e celebrativa desses grupos. Não está em causa o significado da Eucaristia, mas o modo ritual e a sua compreensão num contexto em que o latim deixou de ser língua inteligível para a esmagadora maioria dos fiéis.

O debate tornou-se verdadeiramente tenso com o tema da sinodalidade. O Cardeal Joseph Zen, bispo emérito de Hong Kong, protagonizou uma intervenção particularmente dura. Em poucos minutos, afirmou que a sinodalidade seria uma manipulação destinada a retirar autoridade aos bispos, sugerindo que a alegada passagem de protagonismo para os leigos serviria apenas para legitimar decisões previamente definidas. Criticou ainda a invocação constante do Espírito Santo, insinuando que tal linguagem dá a entender que o Espírito “muda de opinião”, o que considerou teologicamente inaceitável.

À primeira leitura, estas declarações são perturbadoras. Fui confirmar, e são reais. Importa, contudo, contextualizar. Antes do consistório, o cardeal teve uma audiência privada com o Papa, também no Vaticano, onde estas questões terão sido discutidas. Não sabemos se houve concordância, mas o facto é que Leão XIV reafirmou publicamente que o caminho da sinodalidade é para continuar, sem demonstrar incómodo visível. Mais uma vez, optou por uma atitude diplomática.

Convém aqui um segundo esclarecimento pedagógico, frequentemente esquecido. Um sínodo e a sinodalidade não são a mesma coisa. Um sínodo é uma assembleia de bispos com carácter deliberativo, destinada a tomar decisões concretas, e cujas conclusões carecem de confirmação pontifícia. A sinodalidade é o método, o processo de escuta e discernimento que conduz a um sínodo. No modelo promovido pelo Papa Francisco, os leigos reúnem-se, refletem e identificam os temas que consideram prioritários para a vida da Igreja. Esses temas são depois trabalhados por padres e bispos, que não podem acrescentar novos tópicos, apenas aprofundar os propostos. As sínteses chegam a Roma, onde são analisadas e, eventualmente, levadas a sínodo. É este modelo que o Cardeal Zen contesta. No modelo anterior, associado a Paulo VI, o processo era inverso: os temas eram definidos pelo episcopado e os leigos limitavam-se a indicar prioridades entre opções já dadas.

O consistório terminou de forma inesperada. Em vez de uma síntese formal dos trabalhos realizados em Roma, o Papa decidiu falar dos abusos sexuais na Igreja, sublinhando que, em muitos casos, a dor das vítimas foi agravada por não terem sido escutadas. A mensagem, ainda que subtil, foi clara quanto à responsabilidade dos bispos. Questionado sobre a condução dos trabalhos, afirmou que escutou todos os cardeais, mas deixou um aviso firme: os consistórios não existem para servir agendas pessoais.

Como se não bastasse, anunciou que, a partir de agora, em vez de um único consistório extraordinário por ano, passarão a realizar-se dois ou três, tendo já sido indicado que o próximo terá lugar em Roma no mês de junho. A decisão não agradou particularmente aos cardeais vindos de fora do Vaticano e revela uma clara estratégia de maior controlo e acompanhamento do colégio cardinalício.

No conjunto, parece-me que o Papa está a tomar o pulso à Igreja neste início de pontificado. Tudo indica que tem a Cúria maioritariamente consigo, mas enfrenta reservas significativas entre alguns cardeais não residentes em Roma. Ao mesmo tempo, identifica com clareza quem o apoia e quem se distancia. O tom é diplomático, mas não ingénuo. Nota-se capacidade de gestão, leitura fina dos interesses em jogo e uma experiência que vem, sem dúvida, do conclave recente, onde percebeu quem estava — ou não — do seu lado.

Fico curioso e atento aos próximos sinais. Para já, os meus parabéns, Leão XIV.

Miguel Dantas.


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