A BÍBLIA: UM LIVRO DE HISTÓRIA E DE HISTÓRIAS

A
Pôr do sol sobre montanhas com raios de sol iluminando rochas na primeira plano.
Deserto do Sinai.

Introdução editorial — Serviens

Entre a fé ingénua e o ceticismo redutor, há um caminho mais exigente: o da leitura crítica, informada e intelectualmente honesta dos textos bíblicos. Num tempo em que a Bíblia é tantas vezes descartada como mito ou instrumentalizada como prova, importa regressar às perguntas certas: o que nos diz a ciência? Onde termina a história e começa a interpretação? E porque continua este livro antigo a iluminar a compreensão do mundo contemporâneo?

É a partir deste horizonte que Miguel Dantas nos propõe uma reflexão serena e provocadora sobre a Bíblia enquanto texto fundador, simultaneamente histórico e narrativo, capaz de resistir ao tempo e de desafiar a investigação científica.

a bíblia: um livro de história e de histórias

Pretendo apenas refletir sobre aquilo que a ciência tem vindo a produzir e sobre a forma como, em muitos casos, acaba por dialogar com a Bíblia, sobretudo à luz das descobertas realizadas na região da Terra Santa, do Egipto e da antiga Pérsia. Desde a Reforma Protestante iniciou-se uma procura sistemática pelo chamado “Jesus histórico” e, a partir dessa busca, desenvolveram-se outras investigações centradas na historicidade dos textos bíblicos.

O primeiro grande desafio consiste em nos despirmos de uma atitude exclusivamente crente perante o texto. Se tal não acontecer, corremos o risco de um choque de visões e interpretações. Muito já foi escrito sobre este tema e, apesar disso, é inegável que hoje existe um avanço significativo. Persistem, contudo, muitos muros de ignorância e preconceito a ultrapassar, nomeadamente no reconhecimento da contribuição da leitura protestante para a abertura de novos campos de investigação teológica — um caminho que a Igreja Católica percorreu, durante muito tempo, com maior reserva.

Fazer teologia a partir de uma catequese comunitária em que o texto bíblico surge como resposta imediata é relativamente simples. Há passagens claras, como a proibição do adultério. Mas quando a Escritura não é explícita — por exemplo, ao narrar que Abraão teve duas mulheres ou que Jacob teve filhos de várias mulheres —, a interpretação não pode ser feita de forma simplista nem desligada de uma análise científica das sociedades antigas, seja ela arqueológica, sociológica ou psicológica.

Ao longo do tempo, criaram-se também estereótipos visuais e narrativos que não correspondem à verdade histórica. Não existe, por exemplo, nenhuma maçã associada a Adão e Eva, nem nunca existiu um “Mar Vermelho” tal como o imaginamos. Estas imagens resultam sobretudo do cinema e de leituras por sugestão, em que a interpretação já vem previamente formatada. Passamos, então, a ver apenas aquilo que nos foi ensinado a ver, perdendo a beleza da descoberta e a riqueza de uma reinterpretação autêntica do texto bíblico.

Toco apenas em alguns pontos controversos que podem servir de estímulo para outras reflexões. Entremos, então, em factos mais fraturantes.

Moisés é a figura central da narrativa da Páscoa, situada aproximadamente no século XIII antes de Cristo. É a partir dele que se constrói a identidade do povo hebreu: organiza-se um código de conduta através dos Dez Mandamentos e educa-se um povo na fé num único Deus, o monoteísmo. A Bíblia apresenta-nos uma personagem forte, capaz de marcar profundamente a história e o imaginário coletivo até aos nossos dias. É difícil afirmar que Moisés nunca existiu, pois, o rasto da sua ação permanece vivo. A Páscoa continua a marcar calendários religiosos e civis, e até a hóstia cristã pode ser entendida como uma reinterpretação da festa judaica dos pães ázimos, que celebra a saída do Egipto rumo ao sonho da liberdade na Terra Prometida.

Homem idoso segurando tábuas com inscrições enquanto caminha, sob um céu colorido ao entardecer.
Moisés

E, no entanto, surge a questão inquietante: como é possível que tantas destas narrativas não consigam ser provadas pela história? Um povo que teria vivido tantos anos no Egipto não deixou uma única prova documental inequívoca da sua presença. Onde fica, afinal, o Monte Sinai? E a travessia do chamado Mar Vermelho, que só no século III antes de Cristo surge como resultado de um erro de tradução? No fundo, não possuímos uma prova histórica direta da existência de Moisés.

Retomemos a abordagem protestante. Na tentativa de reinterpretar os textos bíblicos e de encontrar fontes que sustentassem a existência do Jesus histórico, desenvolveu-se uma nova chave hermenêutica da Bíblia. Através dela, foi possível identificar grupos religiosos, compreender melhor a sociedade judaica, a sua organização, bem como estabelecer uma cronologia e uma geografia mais precisas da vida de Jesus.

Mas e Moisés? Estaria demasiado distante no tempo para permitir o mesmo tipo de investigação? Durante muito tempo pensou-se que sim. Contudo, algo inesperado aconteceu. No século XIX, durante o grande boom arqueológico no Egipto, as escavações começaram a estagnar por falta de novos locais identificáveis. Foi então que alguém decidiu recorrer à Bíblia como fonte auxiliar. Verificou-se que os lugares descritos nos relatos sobre Moisés correspondiam à geografia real. Descobriram-se cidades como Pi e Ramsés, mencionadas no texto bíblico como locais onde os hebreus teriam vivido.

O resultado é surpreendente: uma parte significativa das descobertas arqueológicas no Egipto teve como ponto de partida o “puzzle” geográfico fornecido pela Bíblia, não apenas no que diz respeito a Moisés. Desde então, dificilmente um arqueólogo se aventura no deserto sem a Bíblia como referência histórica.

A conclusão, aparentemente paradoxal, é simples. Quem compilou aqueles textos no século VI antes de Cristo conhecia com notável precisão a geografia egípcia do século XIII antes de Cristo. A distância temporal é enorme, quase desconcertante, mas o resultado impõe-se: não conseguimos provar diretamente as histórias, mas são essas mesmas histórias que nos permitem decifrar a História.

Não conseguimos provar a existência histórica de Moisés, mas sem as suas narrativas não conseguimos compreender o mundo em que vivemos.

E este talvez seja o maior enigma da Bíblia. Não conseguimos provar a existência histórica de Moisés, mas sem as suas narrativas não conseguimos compreender o mundo em que vivemos. É por isso que a Bíblia continua a ser, com razão, o Livro dos livros.

Miguel Dantas.


Discover more from Serviens

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Sobre o autor

Imagem do avatar
Miguel Dantas

5 Comentários

Leave a Reply to Rafael Ribeiro PereiraCancel reply

  • A presença do Miguel é excelente
    O saber, a facilidade na comunicação, a proximidade com o outro, o carinho e a amizade que nos transmite, é um dom e para cada um de nós, uma benção de Deus
    Bendito seja Deus!

  • Vai ser um prazer este projeto. Nem sempre vai ser aglutinador. Pode ás vezes ser provocador, desacomodar e desafiador, até para procurarem outras fontes. A Bíblia tem essa Beleza. Muitas visões de ontem não são as de hoje, e a do amanhã pode mudar. Espero que gostem. Mas nada pode ser feito à custa de uma agressividade ou desprezo por esta história de séculos. Esse vai ser o lema.

  • Um texto claro e equilibrado, que ajuda a pensar a Bíblia sem reduções nem confrontos artificiais entre fé e ciência. Um contributo sereno e necessário para um debate muitas vezes mal colocado. Obrigado pela partilha

Miguel Dantas

Imagem do avatar

Reflexão ao Serviço do Bem Comum

Serviens é um projeto ao serviço da dignidade humana, da memória e do bem comum.
Acompanhe-nos e ajude a dar corpo a uma reflexão que quer gerar presença e compromisso.

Artigos recentes

Categorias

Arquivo

Estatística do Blog

Discover more from Serviens

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading