
Há um momento, logo no início da celebração da Paixão do Senhor que me toca profundamente. O sacerdote entra em silêncio, prostra-se diante do altar despido, e a assembleia acompanha-o, em pé, também em silêncio. Não há palavras. Não há música. Não há gestos grandiosos. Só silêncio. Um silêncio denso, carregado de mistério. É como se o mundo inteiro prendesse a respiração diante do escândalo da cruz.
Na Sexta-feira Santa, a Igreja não celebra a Eucaristia. Hoje, tudo pára. Tudo contempla. É o dia em que Deus parece ausente, derrotado, silenciado. E no entanto, é justamente neste dia que a esperança renasce. Não com palavras ou promessas, mas com o corpo entregue e o sangue derramado de Jesus.
A cruz não foi um acidente de percurso, nem um detalhe trágico da história. Foi o lugar onde o amor se revelou até ao fim. O Cristo crucificado não é apenas o mártir de uma causa justa, é o próprio Deus que desce ao mais fundo da condição humana — ao sofrimento, à solidão, à injustiça, à morte. Não se limitou a olhar de longe, nem a enviar consolações. Assumiu a cruz. Assumiu o nosso peso. E transformou a derrota em entrega, a dor em caminho, a morte em dom.
São Paulo já o dizia: “pregamos Cristo crucificado: escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1Cor 1,23). E continua a sê-lo hoje. A cruz continua a escandalizar os que procuram um Deus que resolva os problemas do mundo com força ou com milagres. Continua a confundir os que esperam uma religião de consolo fácil. Mas ali, na cruz, está a sabedoria de Deus: um amor que não se impõe, mas que se oferece.
Hoje, enquanto adoramos a cruz, não estamos a celebrar o sofrimento em si. Não há nada de sádico ou masoquista na liturgia da Sexta-feira Santa. O que adoramos é o amor que se faz frágil. É o mistério de um Deus que partilha a sorte dos pobres, dos esquecidos, dos crucificados da história.
Em cada cruz erguida no mundo — nas ruas das cidades onde dormem sem-abrigo, nos campos de guerra da Ucrânia, nos hospitais silenciosos, nos lares marcados pela solidão — Cristo continua a ser crucificado. Mas também continua a abraçar. Continua a amar. Continua a transformar a dor em lugar de encontro. A cruz torna-se, assim, um espelho onde cada um é chamado a rever-se.
E eu? Que faço diante da cruz?
Fico como Pilatos, a lavar as mãos? Como os soldados, a lançar sortes sobre as vestes? Como os discípulos, que fugiram? Ou como Maria e João, que permaneceram aos pés da cruz?
Há momentos na vida — e a Sexta-feira Santa é um deles — em que somos desafiados a não fugir da dor, nem da responsabilidade. A cruz interpela-nos. Obriga-nos a parar. A olhar de frente para o sofrimento do mundo. A deixar que nos toque. E, quem sabe, a fazer como Simão de Cirene: ajudar a carregá-la com outros, por amor.
Este dia termina no silêncio do sepulcro. Jesus está morto. E a humanidade parece abandonada. Mas no fundo desse silêncio, já germina a ressurreição. A cruz não tem a última palavra. É preciso atravessar esta noite para que a manhã de Páscoa tenha sentido.
Hoje, diante da cruz, recordo que a esperança cristã não é ingénua, nem triunfalista. É uma esperança pascal. Nascida no sofrimento, temperada na dúvida, amadurecida na entrega. Uma esperança que sabe esperar, mesmo quando tudo parece perdido.
Na Sexta-feira Santa, Deus cala-se. Mas o Seu silêncio é o de quem ama até ao fim. E por isso, ousamos esperar.
RRP.
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Um texto extremamente importante. Pela vossa santa cruz remistes o mundo. Obrigado pela partilha
Caro Padre Andrew,
Agradeço profundamente o seu comentário tão generoso e cheio de fé. A frase “Pela vossa santa cruz remistes o mundo” ressoa com especial força nesta Sexta-Feira Santa, recordando-nos que é na Cruz de Cristo que encontramos a verdadeira esperança e redenção. Como nos ensina a liturgia deste dia, ao venerarmos a Cruz, tocamos o mistério do amor que se entrega até ao fim, por cada um de nós.  
Que esta contemplação nos inspire a carregar as nossas cruzes diárias com confiança e a reconhecer, em cada sofrimento, a presença redentora do Senhor. Agradeço-lhe, mais uma vez, pelas suas palavras que me encorajam a continuar a partilhar reflexões que nos aproximem do coração de Cristo.
Unidos na oração e na esperança da Ressurreição, desejo-lhe uma santa e abençoada Páscoa.