Jericó: Cidade de Encontros e Transformações

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Jericó é um lugar de passagem, um ponto de chegada e partida para peregrinos. Situada no vale do Jordão, é uma cidade carregada de simbolismo, mencionada diversas vezes na Bíblia como um espaço de desafios, encontros e transformações.

A Cidade das Palmeiras e das Figueiras

Conhecida como “a perfumada”, Jericó é descrita como um oásis fértil, um vale de árvores frutíferas, palmeiras e figueiras. Mas, para além da sua riqueza natural, Jericó é um cenário teológico e espiritual onde a humanidade se confronta consigo mesma.

É em Jericó que Jesus situa a parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 30-36). Um homem descia a estrada que liga Jerusalém a Jericó quando foi assaltado, roubado e deixado à beira do caminho. Passaram por ele um sacerdote e um levita, ambos alheios à sua dor. Mas um samaritano, alguém considerado marginalizado pela sociedade judaica, aproximou-se, cuidou das suas feridas e levou-o a uma estalagem em Jericó.

Este episódio revela o contraste entre aqueles que se afastam da realidade e aquele que se aproxima para cuidar. Jericó torna-se, assim, o palco onde a compaixão vence a indiferença e onde os encontros inesperados revelam o verdadeiro significado da misericórdia.

Zaqueu e a Figueira: A Busca pelo Encontro

Um outro momento emblemático passado em Jericó é o encontro de Jesus com Zaqueu (Lc 19, 1-10). Zaqueu, chefe dos cobradores de impostos, era um homem rico, mas desprezado pelo seu povo devido à sua associação com o poder romano. Ele queria ver Jesus, mas a multidão impedia a sua visão. Determinado, subiu a um sicómoro, destacando-se do povo, superando a barreira que o separava daquele que poderia transformar a sua vida.

O gesto de Zaqueu contém uma mensagem profunda: os encontros verdadeiros com Cristo exigem uma libertação da multidão. Muitas vezes, a massa coletiva impede-nos de olharmos com clareza, pois arrasta-nos para o conformismo e para a cegueira espiritual. A multidão oprime, impõe normas, mantém-nos em estado de alienação. Mas Zaqueu faz um movimento contrário: sobe à árvore, procura uma nova perspetiva, ousa ver além.

Jesus reconhece este esforço e dirige-lhe palavras inesperadas: “Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa” (Lc 19, 5). O Evangelho de Lucas dá um destaque especial à palavra “hoje”, sublinhando que a salvação não é algo distante ou reservado para um futuro incerto, mas um acontecimento concreto e imediato. O encontro com Jesus transforma a vida de Zaqueu. Aquele que antes enriquecia explorando os outros decide restituir quatro vezes mais a quem prejudicou e partilhar os seus bens com os pobres.

Apenas como curiosidade, no Evangelho de São Mateus, a palavra “hoje” (σήμερον em grego) aparece sete vezes. O uso desta palavra em Mateus tem um significado teológico importante, pois remete à atualidade da salvação, à concretização da promessa de Deus e à urgência da resposta humana.
Aqui partilho as passagens e o contexto em que a palavra “hoje” é utilizada neste Evangelho:
Mateus 6, 11 – Oração do Pai-Nosso
“Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia.”
• Aqui, Jesus ensina os discípulos a pedir a Deus o sustento necessário para cada dia, confiando na providência divina. O uso de “hoje” enfatiza a dependência diária de Deus e a necessidade de viver no presente, sem ansiedades pelo futuro.
Mateus 11, 23-24 – Repreensão a Cafarnaum
“E tu, Cafarnaum, serás elevada até ao céu? Não! Tu serás lançada no Hades, porque se os milagres realizados em ti tivessem sido feitos em Sodoma, ela teria permanecido até hoje.”
• Jesus denuncia a dureza de coração de Cafarnaum, comparando-a com Sodoma. O uso de “hoje” destaca a gravidade da rejeição de Jesus e das suas obras naquela geração.
Mateus 16, 3 – O sinal dos tempos
“E de manhã: ‘Hoje haverá tempestade, porque o céu está de um vermelho sombrio’. Sabeis interpretar o aspeto do céu, mas não os sinais dos tempos?”
• Jesus critica os fariseus e saduceus pela sua hipocrisia: eles sabem prever o clima, mas não reconhecem a presença do Messias e a chegada do Reino de Deus.
Mateus 21, 28-31 – Parábola dos dois filhos
“Filho, vai trabalhar na vinha hoje.”
• Na parábola, um pai pede ao filho que trabalhe na vinha “hoje”, mostrando a urgência da obediência à vontade de Deus. A história ensina que o arrependimento e a ação concreta são mais importantes do que simples palavras.
Mateus 27, 8 – O Campo de Sangue
“Por isso, aquele campo se chama ‘Campo de Sangue’ até hoje.”
• Refere-se ao local comprado com as trinta moedas de prata de Judas, mostrando que a consequência da traição perdurou ao longo do tempo.
Mateus 27, 19 – A advertência da esposa de Pilatos
“Enquanto ele estava sentado no tribunal, a mulher mandou dizer-lhe: ‘Não te envolvas com esse justo, porque hoje em sonho muito sofri por causa dele.’”
• A esposa de Pilatos recebe um aviso misterioso sobre a injustiça que estava prestes a acontecer com Jesus, mas Pilatos ignora o sinal.
Mateus 28, 15 – O suborno dos guardas
“Eles receberam o dinheiro e fizeram como lhes tinham ensinado. E esta versão divulgou-se entre os judeus até hoje.”
• Aqui, Mateus mostra que a mentira sobre o roubo do corpo de Jesus ainda circulava, tentando desacreditar a ressurreição.
Reflexão sobre o uso de “hoje” em Mateus
Em Mateus, o termo “hoje” aparece em contextos que enfatizam:
• A providência divina (Pai-Nosso).
• A urgência da conversão (Parábola dos dois filhos).
• A dureza de coração e a rejeição da graça (Cafarnaum, sinais dos tempos, esposa de Pilatos).
• A perpetuação de eventos marcantes (Campo de Sangue, suborno dos guardas).
Mateus usa a palavra “hoje” para destacar que a mensagem de Jesus exige uma resposta imediata. A salvação não é algo distante, mas algo que se concretiza no presente.

A Conversão que Acontece na Casa

No Evangelho, o oposto da multidão é a casa. A multidão dispersa, esconde e dilui a identidade, enquanto a casa é o lugar da intimidade, do encontro verdadeiro. Jesus não se limita a dirigir palavras a Zaqueu, mas entra na sua casa, partilha da sua vida e faz daquele espaço um lugar de salvação.

Zaqueu, ao acolher Jesus, desobedece à lei e aos preconceitos da sociedade. Não se conforma com a sua condição anterior, mas transforma-se radicalmente. A sua história ensina-nos que a fé não é uma teoria, mas uma experiência concreta que gera mudanças visíveis.

Jericó: O Lugar da Escolha

Jericó representa, assim, um espaço de decisão. É o lugar onde podemos escolher entre ser como o sacerdote e o levita, que passam ao largo, ou como o samaritano, que se aproxima. É a cidade onde podemos continuar escondidos na multidão ou, como Zaqueu, ter a coragem de subir à árvore para ver Jesus.

A mística bíblica ensina-nos que nos tornamos à imagem daquilo que adoramos. Se o nosso olhar está fixo em Cristo, Ele transforma a nossa visão e conduz-nos a uma vida de misericórdia e justiça. Jericó recorda-nos que a salvação chega hoje, sempre que tivermos a coragem de deixar para trás o que nos impede de ver e nos abrimos ao encontro que muda tudo.

RRP.


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