
Vivemos tempos em que a política internacional parece ter abandonado as suas regras tradicionais e adotado a lógica do espetáculo. As grandes decisões já não são tomadas apenas em reuniões fechadas, mas encenadas diante de câmeras sempre ligadas, criando uma performance onde a surpresa e o excesso se tornaram estratégias diplomáticas. A Casa Branca transforma-se em palco, os líderes mundiais em atores e os espectadores em cúmplices involuntários dessa grande encenação global.
Esta teatralização da política não é inofensiva. Pelo contrário, ela procura um efeito paralisante sobre o público. O objetivo não é apenas comunicar, mas chocar, deslocar referências, romper expectativas e impedir uma resposta ética imediata. A indignação e o apoio tornam-se elementos do próprio espetáculo, assimilados numa narrativa mediática que se impõe sobre a realidade. Assim, a política deixa de ser uma ferramenta de governança e passa a ser um roteiro escrito ao sabor das audiências, onde a lógica da comoção supera a necessidade de soluções reais.
Diante deste cenário, como responder? A primeira reação pode ser a ira, o protesto ruidoso, a indignação pública. Mas estes gestos, muitas vezes, são rapidamente absorvidos pelo próprio sistema que se pretende criticar. O espetáculo alimenta-se da contestação, incorporando-a como mais um acto da sua trama.
A alternativa? Um gesto humilde. No meio da tragédia, da violência e da manipulação mediática, a resposta mais radical pode ser um ato de simplicidade e proximidade. Se o mundo está tomado pelo excesso, pelo barulho e pela encenação calculada, o silêncio atento e a ação concreta ganham um poder transformador. O exemplo do Papa Francisco ao telefonar ao pároco de Gaza (ler o meu artigo sobre este tema), revela essa outra lógica: não se trata de um gesto para câmeras ou audiências, mas de um ato real de solidariedade, de um encontro que não precisa ser encenado.
A teatralização do mundo moderno desafia-nos a encontrar formas de resistência que não se limitem a reproduzir a lógica do espetáculo. Se tudo se transforma em performance, então o que realmente impacta é aquilo que não precisa de holofotes. Em tempos de catalisação da atenção pelo choque, a resposta mais subversiva pode ser a humildade, a escuta e a ação sincera. No palco ruidoso do mundo, talvez seja hora de sair de cena e agir na realidade.
RRP.
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