SALUS POPULI ROMANI

S

O ÍCONE DA MÃE QUE SALVA O SEU POVO

Ícone da Virgem Maria com o Menino Jesus, representando uma imagem religiosa importante da Cristandade.

Não poderia deixar terminar o mês de maio, o mês de Maria, sem escrever algumas palavras sobre um dos ícones mais venerados da Cristandade e que me é particularmente querido: o da Santíssima Virgem Maria, “Salus Populi Romani”.

No coração de Roma, entre as colinas do tempo e da fé, permanece uma imagem que atravessou séculos, guerras, pestes e esperanças: o ícone da Salvação do Povo Romano. Guardado com devoção na Basílica de Santa Maria Maior, este ícone é mais do que uma relíquia: é presença viva de uma Mãe que vela por todos os seus filhos, especialmente em tempos de tribulação.

1. Um ícone que fala com os olhos

A tradição atribui a origem do ícone ao próprio evangelista São Lucas, embora a crítica histórica o situe entre os séculos V e VI. O olhar de Maria, sereno e atento, dirige-se não para si, mas para quem a contempla. Jesus, nos seus braços, segura um pequeno livro – talvez símbolo da Palavra viva que Ele é. Ambos têm um olhar firme, que interpela, consola e envia. Como toda a verdadeira arte sacra, este ícone não é decorativo: é teológico, pastoral, espiritual.

2. História de uma intercessão constante

Ao longo dos séculos, os romanos dirigiram-se a Maria sob este título sempre que a cidade era assolada por provações: pestes, guerras, calamidades. Os Papas confiaram-lhe o destino da Igreja e da humanidade. Em 593, o Papa Gregório Magno conduziu uma procissão com este ícone durante uma peste devastadora. Em 1837, foi novamente invocado para cessar o cólera. Mais recentemente, São João Paulo II, Bento XVI e, de modo muito particular, o Papa Francisco, cultivaram uma relação íntima com esta imagem.

Não é por acaso que o Papa Francisco, de feliz memória, ao regressar de cada viagem apostólica, se detinha diante deste ícone para confiar à Virgem os frutos da sua missão. Foi também perante esta imagem que, em plena pandemia de COVID-19, nos convocou a um momento único de oração e bênção Urbi et Orbi, numa Praça de São Pedro deserta mas espiritualmente habitada por milhões de corações em súplica. Este gesto, que ficará para sempre gravado na memória da Igreja, expressa a confiança filial de quem reconhece em Maria uma intercessora segura nos momentos mais escuros da história.

É com consolação que vemos hoje o Santo Padre Leão XIV continuar este gesto de devoção, já tendo estado também diante deste ícone, confiando a Maria o seu pontificado e as dores do mundo. A sua presença ali, em silêncio orante, recorda-nos que a fé da Igreja se faz também de continuidade e memória – e que Maria permanece, ontem como hoje, como Mãe da Igreja e refúgio do povo cristão.

3. Maria, refúgio do povo

Salus Populi Romani não é apenas título histórico: é invocação existencial. Em tempos de incerteza, quando o tecido social parece desfiar-se, quando o sofrimento se multiplica silenciosamente nas periferias do mundo e da alma, a figura de Maria torna-se porto seguro. Ela não é deusa nem salvadora em si mesma, mas é aquela que conduz ao Salvador, a mãe que não abandona os seus filhos, a mulher que esteve de pé junto à cruz e continua de pé junto à dor do mundo.

4. A minha devoção pessoal

Confesso que este ícone me comove. Vejo nele o rosto da minha própria mãe, das mulheres simples e sábias que marcaram a minha fé, das mães que confiam à Igreja os seus filhos em silêncio e esperança. Quando, há alguns anos, entrei pela primeira vez na Basílica de Santa Maria Maior e vi de perto o ícone, percebi que ali estava uma ponte: entre o céu e a terra, entre Roma e o mundo, entre o mistério e o concreto.

5. Maria, Mãe da Igreja e Mãe da Paz

Neste tempo em que o mundo continua dilacerado por guerras, divisões e sofrimentos múltiplos, invocar Maria como Salus Populi é também confiar-lhe o nosso desejo de paz. Que ela interceda pelas vítimas da guerra, pelos migrantes esquecidos, pelos que choram em silêncio. Que ela nos ensine a construir uma Igreja que, como ela, não se imponha, mas acompanhe; que não condene, mas cure; que não tema o sofrimento, mas o abrace com ternura.

“Maria é a estrela da nova evangelização. Que através dela, aprendamos a tornar o coração disponível ao outro, ao sofrimento e à justiça.”

Evangelii Gaudium, n.º 287

RRP.


Discover more from Serviens

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Sobre o autor

Rafael Ribeiro Pereira

https://serviens.org/about-page/

Adicione o seu comentário

Deixe aqui o seu comentário

Rafael Ribeiro Pereira

https://serviens.org/about-page/

Reflexão ao Serviço do Bem Comum

Serviens é um projeto ao serviço da dignidade humana, da memória e do bem comum.
Acompanhe-nos e ajude a dar corpo a uma reflexão que quer gerar presença e compromisso.

Artigos recentes

Categorias

Arquivo

Estatística do Blog

Discover more from Serviens

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading