
Roma foi, para os cristãos do primeiro século, ao mesmo tempo, abismo e horizonte: a cidade onde a besta rugia, mas também onde o Evangelho, em silêncio, lançava raízes. Num tempo de glória imperial e culto aos deuses, surgia uma comunidade discreta, fiel, que se reunia em casas, que partilhava o pão e que confessava Jesus como Senhor. Confessar isso era, na prática, um crime de lesa-majestade.
A chegada do cristianismo a Roma
O cristianismo chegou muito cedo a Roma. Segundo o historiador Tácito, já havia cristãos na cidade durante o reinado de Nero, antes mesmo da destruição do Templo de Jerusalém em 70 d.C. A carta de São Paulo aos Romanos, escrita por volta do ano 57 d.C., comprova a existência de uma comunidade organizada, com tensões internas entre judeus e gentios, e com liderança visivelmente estruturada.
Ao contrário do que se imagina, Pedro e Paulo não foram os fundadores da Igreja de Roma. A comunidade já existia quando Paulo escreveu, e Pedro terá chegado mais tarde. Contudo, ambos selaram com o sangue a ligação definitiva entre Roma e a fé cristã. A tradição afirma que Pedro foi crucificado de cabeça para baixo no Circo de Nero, enquanto Paulo foi decapitado na Via Ostiense — locais hoje ocupados pela Basílica de São Pedro e pela Basílica de São Paulo Extramuros.
Roma, cidade de mártires
O historiador Eusébio de Cesareia narra a lista dos primeiros mártires em Roma. Sabemos que, após o incêndio de Roma em 64 d.C., Nero usou os cristãos como bode expiatório. Tácito descreve os horrores: “Cobertos de peles de animais, eram lançados aos cães, crucificados, ou queimados vivos para servirem de tochas à noite.”
Estes relatos não são lendas devocionais: são testemunhos históricos. A colina vaticana, onde hoje se ergue a basílica, era um local de suplício. As escavações realizadas sob o altar-mor entre 1940 e 1957 revelaram um túmulo do século I com inscrição que se acredita conter os restos mortais de São Pedro, como atestou o Papa Pio XII em 1950.
As catacumbas: espaços de memória e esperança
Contrariamente ao que se pensa, as catacumbas não eram esconderijos. Eram cemitérios comunitários, escavados fora da cidade, conforme a lei romana. Nelas, cristãos e judeus partilhavam espaços até ao século III. As catacumbas de São Calixto, Santa Priscila e São Sebastião são verdadeiros museus da fé: nelas encontramos os mais antigos grafites cristãos, símbolos como o peixe (ΙΧΘΥΣ), a âncora, o pão, a videira, o orante, e o Bom Pastor.
É particularmente comovente a inscrição de uma criança chamada Severina: “Viveu um ano, dez meses e quinze dias. Dorme na paz.” Mesmo perante a morte, os cristãos não falavam em fim, mas em sono e paz — prenúncios da ressurreição.
As domus ecclesiae e os primeiros locais de culto
Antes das grandes basílicas, os cristãos reuniam-se em casas adaptadas ao culto. Estas domus ecclesiae tinham espaço para a leitura das Escrituras, a Eucaristia e a caridade fraterna. A mais famosa é a Casa de Santa Prisca, no monte Aventino, onde se encontrou um batistério do século I e vestígios do culto cristão. Outra descoberta notável foi a Domus dos Santos João e Paulo no monte Célio, onde se mantêm pinturas de Cristo e representações eucarísticas datadas do século III.
O reconhecimento imperial e a construção das basílicas
Com o Édito de Milão (313), promulgado por Constantino e Licínio, o cristianismo passou da clandestinidade ao reconhecimento legal. Constantino mandou construir as grandes basílicas sobre os túmulos dos apóstolos: São Pedro no Vaticano, São Paulo na Via Ostiense, São João de Latrão (a catedral de Roma) e Santa Cruz de Jerusalém. Esta última guardava relíquias da Paixão trazidas da Terra Santa por Santa Helena, mãe do imperador.
Estas construções não foram apenas monumentos: foram afirmações de que a fé dos mártires tinha vencido o império das espadas.
Roma como centro de unidade
A tradição patrística reconhece Roma como sede do primado de Pedro. Santo Inácio de Antioquia, nas suas cartas enviadas a caminho do martírio (c. 107 d.C.), escreve à Igreja de Roma tratando-a com deferência única: “a que preside na caridade”. Santo Ireneu de Lião (c. 180 d.C.) afirma que “com esta Igreja, por causa da sua origem mais excelente, deve concordar toda a Igreja”.
O martírio de Pedro e Paulo, a perseverança da comunidade, a tradição doutrinal e o testemunho da caridade deram a Roma o seu lugar como ponto de referência para a fé apostólica.
Nota pessoal
A minha primeira visita a Roma levou-me diretamente ao subsolo: desci às catacumbas, caminhei pelos becos escuros, vi inscrições feitas por mãos frágeis, mas determinadas. A cada passo, sentia a presença viva de uma Igreja que nunca foi triunfalista, mas sempre foi fiel. Desde então, compreendo que Roma não é o centro do cristianismo por razões geográficas ou políticas, mas por causa dos ossos que ali falam, como dizia o Papa Bento XVI. Ossos de mártires, mães, pastores e crianças que viveram e morreram por amor a Cristo.
RRP.
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