
Não poderia deixar passar despercebido o primeiro grande discurso social do Papa Leão XIV, proferido a 30 de maio de 2025, diante dos Movimentos Populares reunidos na “Arena da Paz” em Verona. Um discurso lúcido, direto e exigente – como o tempo presente exige. Um texto que não se limita à retórica da paz, mas que a enraíza num compromisso concreto e quotidiano, onde a fraternidade deixa de ser utopia para se tornar método e caminho.
Uma paz que nasce de baixo
Na esteira do Papa Francisco, seu predecessor e mentor espiritual, Leão XIV não hesita em reafirmar que a paz não se constrói apenas nas cúpulas do poder, mas “de baixo”, através de comunidades locais, iniciativas populares, e da escuta ativa dos que sofrem. O Papa recorda com emoção o abraço entre Maoz Inon, israelita, e Aziz Sarah, palestiniano — ambos vítimas da dor provocada por lados opostos do conflito. Um gesto que “permanece como sinal de esperança”.
Este gesto não é apenas simbólico. É profético. Num tempo em que a polarização parece alimentar-se da dor alheia, e onde os algoritmos promovem o ódio mais do que a compaixão, este testemunho recorda-nos que há caminhos de reconciliação possíveis. Mas eles exigem coragem, escuta, tempo… e uma profunda conversão do olhar.
Desarmar o coração: o início de tudo
O Papa fala-nos de uma “determinação firme e perseverante” para com o bem comum (cf. Sollicitudo Rei Socialis, 38). A paz — diz ele — não se impõe nem se improvisa. Exige processos lentos, quotidianos, muitas vezes invisíveis aos olhos da política tradicional. E esses processos começam dentro de cada pessoa. É preciso desarmar corações, mentalidades, discursos. É preciso sair da lógica da vingança e da retaliação.
Em tempos marcados por guerras, terrorismo, tráfico humano e uma agressividade difusa nas redes e nas ruas, Leão XIV aponta o essencial: os nossos jovens precisam de experimentar outra forma de viver. Precisam de adultos que testemunhem uma vida desarmada, pacífica, marcada pela dignidade de cada pessoa.
Não basta querer a paz. É preciso prepará-la
Um dos momentos mais fortes do discurso é a reformulação criativa de um velho lema: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra” — expressão tantas vezes usada para justificar políticas armamentistas. Leão XIV ousa subverter esta lógica ao dizer: “Se queres a paz, prepara instituições de paz”. Instituições de justiça, de diálogo, de educação, de economia solidária, de inclusão. Não basta o desejo de paz; é necessário um ecossistema de paz.
E essa preparação, insiste o Papa, é responsabilidade de todos — crentes e não crentes. A Doutrina Social da Igreja, iluminada pelo Evangelho, oferece-se como bússola para este caminho, mas não como exclusivismo. A paz é dom, mas também conquista. É graça, mas também luta.
Fraternidade: palavra perigosa e urgente
Recuperando a Fratelli Tutti, Leão XIV convoca-nos a passar do “eu” ao “nós”. Uma transição institucional e espiritual. E fá-lo com palavras que não escondem o desafio: a fraternidade “precisa de ser amada, proclamada, vivida e testemunhada”. Numa época em que o individualismo parece ser a nova religião global, falar de fraternidade é quase subversivo.
Mas é precisamente essa subversão do Evangelho que pode dar novo fôlego ao mundo. Num planeta em crise ecológica, social e espiritual, só a fraternidade poderá reordenar as prioridades, restaurar as feridas e devolver a esperança.
Um apelo ao compromisso
Este discurso não é apenas uma constatação ou uma exortação moral. É um verdadeiro chamamento. Um apelo à responsabilidade pessoal e comunitária. Leão XIV dirige-se aos movimentos populares, mas, por extensão, a todos nós. Aos que trabalham nas periferias, nos centros comunitários, nas escolas, nos bairros, nos media. A paz não é apenas tarefa dos diplomatas. É missão dos cristãos, dos cidadãos, das famílias, das instituições.
Por isso, deixemo-nos interpelar. Que paz estamos a preparar com as nossas ações? Que instituições estamos a construir com o nosso estilo de vida, com o nosso voto, com o nosso trabalho?
Que o Espírito de Deus, que sopra onde quer e quando quer, nos ajude a preparar instituições de paz. Não para amanhã, mas desde já. Com lucidez. Com paciência. Com firmeza. Porque a paz é possível — e urgente.
RRP.
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